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Joseph Tobin, Santo Afonso e a Igreja “que acusa com o dedo”

Vatican Insider - publicado em 02/11/16

O futuro cardeal fez um diagnóstico das doenças eclesiais “made in USA”

Por Gianni Valente

A Igreja, nos Estados Unidos, sofre do mal da “balcanização” entre os fiéis. É a polarização dos católicos “entre a chamada direita e a esquerda ou entre as facções progressistas e tradicionalistas”, que contrapõem as pessoas em “campos ideológicos separados”. É o que pensa sobre o catolicismo estadunidense o redentorista Joseph William Tobin, arcebispo de Indianápolis a quem o Papa Francisco quis incluir na lista dos 17 novos cardeais que receberão o barrete vermelho durante o Consistório do próximo dia 19 de novembro.

O futuro cardeal fez um diagnóstico das doenças eclesiais “made in USA” na primavera de 2014, quando participou da convenção anual da College Theology Society. E traçou as particularidades da esclerose permanente do “dedo apontado” contra os outros para condenar, denegrir e rir-se do “inimigo”. Descreveu-a como uma espécie de doença auto-imune, uma incapacidade de “examinar humildemente a distância entre os nossos ideais e o momento presente, que é ponto de partida para uma vida de contínua conversão”.

A trajetória humana e espiritual de “Joe” Tobin, devido à sua natureza, sua sorte e seus encontros fortuitos, manteve-o sempre a uma saudável distância da rigidez e da polarização que pesaram durante décadas sobre uma grande parte do catolicismo e não apenas nos Estados Unidos. Nasceu em 1952 em uma família de origem irlandesa e foi o primeiro de 13 irmãos; cresceu na cidade de Detroit, onde sua vocação religiosa floresceu perto de casa, por ordinária “proximidade” paroquial, na igreja do bairro da qual participava uma consistente comunidade hispânica e da qual se ocupavam os redentoristas. Na congregação fundada por Afonso Maria de Liguori, o santo amigo dos pecadores e padroeiro dos confessores, Tobin emitiu os votos temporários em 1972 e os votos perpétuos em 1976, quando tinha 24 anos.

Enquanto em Roma a Pontifícia Academia Alfonsiana (o instituto de teologia moral dos redentoristas) segue a figura e a linha teológica de Bernard Häring, o jovem Tobin estuda nas instituições estadunidenses até obter a licenciatura em Teologia Pastoral (no Mount Saint Alphonsus Major Seminary, em Esopus, Nova York). Durante os mesmos anos, mais que ao estudo e à academia, emprega suas energias juvenis na atividade pastoral (primeiro como vigário paroquial e depois como pároco) na mesma paróquia de Detroit em que nasceu sua vocação e onde até o final dos anos 90 exerceu seu ministério sacerdotal entre as comunidades hispânicas. Ali, de 1980 a 1986, foi vigário episcopal.

Tobin foi para Roma pela primeira vez durante um período prolongado em 1991, quando foi eleito consultor geral dos redentoristas. Sua missão romana se dilatou porque seus irmãos o elegeram por dois mandatos consecutivos (de 1997 a 2009) como superior geral da congregação. Em 2003, tornou-se também o vice-presidente da União de Superiores Gerais e ocupou-se das relações entre essa entidade e o dicastério vaticano para os religiosos. Mas, mais que aos corredores vaticanos, suas tarefas o levaram a viajar para mais de 70 países e conhecer “por dentro” as desastrosas crises e as possibilidades de florescimento que caracterizam as comunidades dos religiosos e das religiosas em todo o mundo. Por isso, o Papa Bento XVI pensou nele quando teve que escolher um novo secretário para a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, no verão de 2010.

Tobin, que foi ordenado arcebispo por conta da sua nomeação vaticana, assumiu a tarefa justamente na fase de tensões entre os palácios vaticanos (a Congregação para os Religiosos e o ex-Santo Ofício) e grande parte das congregações religiosas femininas estadunidenses, que se encontram representadas pela Leadership Conference of Women Religious (LCWR). Os dicastérios vaticanos programaram investigações e visitas apostólicas para averiguar a ortodoxia e a “coesão” disciplinar das irmãs estadunidenses, às quais se recriminará, particularmente, o apoio à reforma sanitária implementada por Barack Obama e denunciada pelos militantes “pró-vida” e boa parte dos bispos do país, devido às modalidades de financiamento público de abortos e métodos anticoncepcionais.

No outro lado, entre as irmãs estadunidenses, algumas chegam inclusive a dizer que as visitas apostólicas do Vaticano são uma nova “caça às bruxas”. Tobin entrou em cena e evitou os tons exasperados. Em 2012, depois que a Congregação para a Doutrina da Fé publicou o relatório doutrinal sobre a LCWR, o secretário reconheceu publicamente que as modalidades gerais da intervenção vaticana provocaram um clima pesado, que não favoreceu o diálogo e que muitas irmãs perceberam que “alguém estava dizendo que suas vidas não eram leais nem vividas de acordo com a fé”. A “blogosfera” neo-rigorista se enfureceu com extrema velocidade contra Tobin, por seu enfoque dialogante, “incomum para um prelado vaticano de alto nível”.

Em outubro de 2012, pouco mais de dois anos após a sua nomeação vaticana, o redentorista é nomeado arcebispo de Indianápolis. A leitura que os circuitos midiático-eclesiais fizeram da nomeação responde de maneira quase unânime e irrefletida a uma lógica clássica de “promoveatur ut amoveatur”: uma “promoção” para afastá-lo depois que se manifestara uma incompatibilidade com as tendências curiais então dominantes.

Três anos mais tarde, durante sua visita aos Estados Unidos, o Papa Francisco agradeceu com palavras cheias de afeto às “indisciplinadas” irmãs estadunidenses. (“O que seria da Igreja sem vocês? Mulheres fortes, lutadoras, com esse espírito de coragem que as coloca na linha de frente do anúncio do Evangelho”). A abordagem mostrada por Tobin para com as irmãs dos Estados Unidos já não revelava nessa época uma afiliação redentorista a nenhum grupinho ideológico clerical. Por seu temperamento, o futuro cardeal mostra-se pouco propenso a imiscuir-se em conformismos clericais, de velha e nova estirpe.

Em 2010, enquanto muitos, em relação às questões dos escândalos sexuais e de pederastia na Igreja, se compraziam com consignas fragorosas sobre a “tolerância zero”, Tobin repetia que a única coisa realmente urgente era “pedir a Deus para que coloque seu dedo, o Espírito Santo, em nossos ouvidos” para superar o funcionalismo exasperado, a apreensão pelos abusos sexuais e pela diminuição das vocações, que cobrem tudo e nos ensurdecem (como aconteceu justamente nesse ano com o “escândalo das vuvuzelas”, as trombetas de plástico ensurdecedoras usadas nos estádios de futebol, especialmente na Copa do Mundo da África do Sul).

Enfrentar os problemas a partir de dentro, tratar de desfazer os nós com paciência, sem assumir posturas plásticas diante das câmeras dos meios de comunicação. É assim que se move o arcebispo Tobin, que nos últimos anos, em Indianápolis, não deixou de se contrapor elegantemente ao governador local, que lhe pedia a suspensão dos programas de acolhida da arquidiocese que favorecia especialmente refugiados sírios. No grande país americano, onde muitos invocam e constroem muros de proteção para impedir o fluxo de migrantes, Tobin sabe perfeitamente bem que muitos setores da Igreja local seguem desorientados com o magistério do Papa Francisco e que procuram superar o mal-estar aprisionando seus gestos e palavras na grade interpretativa que contrapõe progressistas e conservadores.

“Dou-me conta”, disse o futuro cardeal redentorista em seu discurso de 2014 na College Theology Society, “do quanto o Papa Francisco é inquietante para a hierarquia católica dos Estados Unidos… Havia uma determinada imagem do que é ser um líder pastoral neste país, e o Papa Francisco a está desorientando. Creio que há certa resistência em relação a um modo diferente de realizar a missão evangélica encomendada à Igreja. E então, rezemos pela saúde do Papa Francisco”.

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