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Como a Igreja acompanha quem sente atração por pessoas do mesmo sexo

© WOJTEK RADWANSKI / AFP

Marinella Bandini - publicado em 21/11/16

Deve-se evitar o risco de considerar a homossexualidade como a característica essencial da pessoa, quando, na verdade, a pessoa é muito mais que um conjunto de inclinações sexuais

Embora se fale muito, nos últimos anos, sobre a homossexualidade, o conhecimento sobre o tema ainda é muito aproximativo e cheio de estereótipos. Entre as muitas pessoas que constatam este panorama deficiente de entendimento sério está o padre norte-americano John F. Harvey. Sim, um padre; um sacerdote dessa Igreja tão tachada de retrógrada e obscurantista no tocante à moral sexual.

Durante mais de 50 anos, ele cuidou de pessoas que queriam viver a fé católica sem que a sua atração sexual fosse um obstáculo. Com paciência e compreensão, o pe. Harvey as ajudou a vislumbrar com mais clareza um caminho de serenidade à luz da doutrina.

Desde 1980 ele tem trabalhado como diretor da iniciativa de apostolado “Courage”, uma associação fundada pelo cardeal Terence J. Cooke naquele mesmo ano, em Nova Iorque, e hoje presente em muitas dioceses de todo o mundo, a fim de oferecer cuidado pastoral às pessoas homossexuais. Algumas reflexões do pe. John, bem como orientações pastorais concretas, foram recopiladas no livro “Truth about Homosexuality: The Cry of the Faithful” [“A verdade sobre a homossexualidade: o clamor dos fiéis”, em livre tradução do título – a obra ainda não está disponível em português].

O arcebispo de Bolonha, dom Matteo Zuppi, escreve no prefácio: “A Igreja não levanta muros nem cria categorias de pessoas em função da sua orientação sexual, porque, antes de terem uma atração sexual particular, elas são pessoas (…) O chamado à santidade é para todos”.

O foco mais na pessoa do que na sua tendência homossexual é a premissa. Por isso, desde o princípio, o pe. Harvey também corrige a terminologia que normalmente se usa: para ele, é mais esclarecedor falar de “pessoas com atração pelo mesmo sexo” do que usar a palavra “homossexuais”, já que essa palavra envolve “o risco, pelo menos implícito, de considerar a homossexualidade como a característica essencial da pessoa”, quando, na verdade, “uma pessoa é muito mais que um conjunto de inclinações sexuais”. Além disso, “as considerações sobre a atração por pessoas do mesmo sexo se tornam mais confusas quando pensamos nos ‘homossexuais’ como uma categoria à parte entre os seres humanos”.

O pe. Harvey observa que, “em geral, as pessoas ‘heterossexuais’ não compreendem quem sente uma atração persistente pelo mesmo sexo”: ele mesmo precisou de “anos para entender a natureza desta condição”, mas enfrenta com clareza alguns pontos delicados.

Ele diz, por exemplo, que, no caso dos adolescentes, não se pode falar de “homossexualidade”, que é uma condição adulta, e que é preciso ter muita cautela quanto à atitude sexual ambígua típica da idade, sem a confundir com uma tendência homossexual.

A própria atração por pessoas do mesmo sexo tem matizes diferentes em cada pessoa. Para começar, é uma tendência, não um pecado em si mesma; no entanto, não justifica moralmente a prática dos atos homossexuais.

O livro fala da desconfiança da sociedade em relação às pessoas com atração pelo mesmo sexo, mas também aborda o paradoxo das chamadas associações “gays”: “Por um lado, pede-se com insistência que as pessoas com tendências homossexuais sejam bem integradas à sociedade; por outro lado, os clubes gay funcionam como uma espécie de fuga da ‘sociedade heterossexual’, impedindo a integração”.

O pe. Harvey não pretende apresentar um tratado doutrinal, mas compartilhar considerações pastorais. Não fala de “cura” em termos médicos, embora mencione terapias psicológicas adequadas de apoio à pessoa, bem como o acompanhamento espiritual. Fala, no entanto, do grande sofrimento que muitas pessoas com essa tendência manifestam: um sofrimento que pode chegar ao desespero e até ao ódio de si mesmas. É fundamental, portanto, que existam programas pastorais específicos, e este é o caso do “Courage”: a iniciativa propõe um projeto de vida essencial, baseado em espiritualidade, castidade, amizade, serviço ao próximo, sempre sob a orientação de um diretor espiritual cuja tarefa é “mostrar que é possível viver uma vida casta e feliz sem isolar-se da sociedade”.

Alguns parágrafos ilustram o valor da castidade e da amizade: “Na linguagem comum, a castidade tem uma conotação negativa (…) A verdadeira castidade, porém, consiste no modo correto de expressar a afetividade (…) Existem formas de amizade sólidas, sadias, castas e claramente desejáveis. Amizades desse tipo representam a melhor forma de apoio” para as pessoas com atração pelo mesmo sexo. Além disso, as pessoas devem ser introduzidas na comunidade cristã mais ampla para receberem apoio e força e saberem que fazem parte integralmente da Igreja”.

Para os pais e familiares das pessoas com atração pelo mesmo sexo, foi criada também a associação EnCourage, que os ajuda a melhorar a compreensão recíproca e o relacionamento humano.

O livro aborda também situações bem específicas, como a das pessoas que descobrem tendências homossexuais quando já estão comprometidas ou casadas ou depois de terem assumido a vocação à vida religiosa ou sacerdotal.

Para conhecer a edição em inglês, clique aqui.

Tags:
CastidadehomossexuaisIgrejaSexualidade
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