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Francisco: “O vírus da polarização e da inimizade está entre nós

© Sabrina Fusco / ALETEIA

<span>Ordinary Public Consistory for the creation of new Cardinals</span>

Vatican Insider - publicado em 22/11/16

Por Andrea Tornielli

“Quantas situações de precariedade e de sofrimento são disseminadas através deste crescimento de inimizade entre os povos, entre nós. Sim, entre nós, dentro das nossas comunidades, dos nossos presbitérios, dos nossos encontros. O vírus da polarização e da inimizade permeia as nossas maneiras de pensar, sentir e agir. Não somos imunes a isto e devemos estar atentos para que esta conduta não ocupe o nosso coração”. O Papa pregou para os cardeais do Consistório no dia em que 17 novos cardeais (13 com menos de 80 anos) são incorporados ao colégio. Em um tempo em que no mundo, mas também na Igreja, parecem prevalecer as polarizações, o Papa fez um convite para retornar à essência da missão no sinal da misericórdia.

Os novos cardeais são o italiano Mario Zenari, núncio apostólico na Síria (que encabeça a lista e que em sua saudação durante a cerimônia recordou que alguns cardeais provêm de “lugares onde muitos, milhões, são ‘infelizes’, adultos e crianças, onde muitos são abandonados, mortos ou semimortos pelas ruas de suas aldeias e bairros, ou sob os escombros das próprias casas e escolas, devido às cruéis violências e aos sangrentos, desumanos e inextricáveis conflitos”), Dieudonné Nzapalainga, arcebispo de Bangui, na República Centro-Africana, Carlos Osoro Sierra, arcebispo de Madri (Espanha), Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília (Brasil), Blase Joseph Cupich, arcebispo de Chicago (Estados Unidos), Patrick D’Rozario, arcebispo de Dhaka (Bangladesh), Baltazar Enrique Porras Cardozo, arcebispo de Mérida (Venezuela), Jozef De Kesel, arcebispo de Malinas-Bruxelas (Bélgica); Maurice Piat, bispo de Port-Louis (Ilhas Maurício); Kevin Joseph Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos e a Família (Estados Unidos), Carlos Aguiar Retes, arcebispo de Tlalnepantla (México); John Ribat, arcebispo de Port Moresby (Papua Nova Guiné), Joseph William Tobin, arcebispo de Newark (Estados Unidos); Antony Soter Fernández, arcebispo emérito de Kuala Lumpur (Malásia); Renato Corti, bispo emérito de Novara (Itália); Sebastian Koto Khoarai, bispo emérito de Mohale’s Hoek (Lesoto); Ernst Simoni, presbítero da diocese de Shkodrë-Pult (Albânia).

Na homilia, Bergoglio comentou a passagem do Evangelho: depois da instituição dos 12 Apóstolos, Jesus desceu “com os seus discípulos para um local plano, onde uma multidão estava à sua espera para ouvi-lo e ser curada por ele. O chamado dos Apóstolos aparece associado a este ‘pôr-se a caminho’ rumo à planície”. A escolha “leva-os para o seio da multidão” e “o Senhor revela, a eles e a nós, que o verdadeiro cume se alcança na planície, e esta lembra-nos que o cume se situa em um horizonte e, especialmente, em um convite: ‘Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso’”. Este convite está acompanhado de quatro exortações: “amem, façam o bem, abençoem e rezem”, ações que “facilmente realizamos com os nossos amigos”.

Mas o problema surge, explicou Francisco, “quando Jesus nos apresenta os destinatários destas ações, e o faz com muita clareza, sem divagações nem eufemismos. Amem os seus inimigos, façam bem aos que lhes odeiam, abençoem aqueles que lhes amaldiçoam, rezem pelos que lhes caluniam”. E estas “não são ações que surgem espontaneamente”. Diante dos adversários e dos inimigos, de fato, “a nossa atitude primeira e instintiva é desqualificá-los, desacreditá-los, amaldiçoá-los; em muitos casos, procuramos ‘demonizá-los’ a fim de ter uma justificação ‘santa’ para nos livrarmos deles”.

E esta, observou Bergoglio, é uma “das características mais específicas da mensagem de Jesus”; dali provém “a força do nosso caminhar e o anúncio da boa nova”. O inimigo é “alguém que devo amar. No coração de Deus não há inimigos, Deus tem filhos. Nós erguemos muros, construímos barreiras e classificamos as pessoas. Deus tem filhos, e não foi para se livrar deles que os quis”.

“Nosso Pai – explicou o Bispo de Roma – não espera pelo momento em que formos bons para amar o mundo; não espera pelo momento em que formos menos injustos, ou mesmo perfeitos, para nos amar; ama-nos porque escolheu nos amar, ama-nos porque nos deu o estatuto de filhos. Amou-nos mesmo quando éramos seus inimigos. O amor incondicional do Pai para com todos foi, e é, uma verdadeira exigência de conversão para o nosso pobre coração, que tende a julgar, dividir, contrapor e condenar. Saber que Deus continua a amar mesmo quem o rejeita, é uma fonte ilimitada de confiança e estímulo para a missão”.

Bergoglio recordou que o nosso tempo é aquele “em que ressurgem, à maneira de uma epidemia nas nossas sociedades, a polarização e a exclusão como única forma possível de resolver os conflitos. Vemos, por exemplo, como rapidamente quem vive ao nosso lado não só possui a condição de desconhecido, imigrante ou refugiado, mas torna-se uma ameaça, adquire a condição de inimigo”. Inimigo, “porque vem de uma terra distante ou porque tem outros costumes”, pela “cor da sua pele, pela sua língua ou pela sua condição social; inimigo, porque pensa de maneira diferente e mesmo porque tem outra fé”. E pouco a pouco, “sem nos darmos conta, esta lógica se instala em nossa forma de viver, de agir e proceder. Então, tudo e todos começam a ter sabor de inimizade”, e as diferenças “se transformam em sinônimo de hostilidade, ameaça e violência”.

“Quantas feridas –exclamou o Papa – crescem devido a esta epidemia de inimizade e violência, que se imprime na carne de muitos que não têm voz, porque o seu clamor foi esmorecendo até ficar reduzido ao silêncio por causa desta patologia da indiferença! Quantas situações de precariedade e de sofrimento são disseminadas através deste crescimento da inimizade entre os povos, entre nós!”

“Sim, entre nós, dentro das nossas comunidades, dos nossos presbitérios, dos nossos encontros – acrescentou. O vírus da polarização e da inimizade permeia as nossas maneiras de pensar, sentir e agir. Não sendo imunes a isto, devemos estar atentos para que esta conduta não ocupe o nosso coração, pois iria contra a riqueza e a universalidade da Igreja que podemos palpar neste Colégio Cardinalício. Viemos de terras distantes, temos costumes, cor da pele, línguas e condições sociais distintas; pensamos de forma diferente e também celebramos a fé com vários ritos. E nada de tudo isto nos torna inimigos; pelo contrário, é uma das nossas maiores riquezas”.

Como Igreja, concluiu Francisco, “continuamos a ser convidados a abrir os nossos olhos para vermos as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da sua dignidade, provados na sua dignidade. Querido irmão neocardeal, o caminho para o céu começa na planície, no dia-a-dia da vida partilhada e compartilhada, de uma vida gasta e doada: na doação diária e silenciosa do que somos. O nosso cume é esta qualidade do amor; a nossa meta e aspiração é procurar na planície da vida, juntamente com o povo de Deus, transformar-nos em pessoas capazes de perdão e reconciliação”.

A fórmula da criação cardinalícia prevê o juramento dos novos cardeais, a imposição do barrete e a entrega do anel cardinalício, com a nomeação do título ou da diaconia. Durante o rito, o único cardeal diante do qual o Papa se inclinou foi Ernst Simoni, o único que não é bispo; é um presbítero que sofreu a perseguição na Albânia.

Ao final da celebração, o pontífice e os novos cardeais dirigiram-se em dois ônibus ao Mosteiro Mater Ecclesiae para encontrar-se com o papa emérito Bento XVI.

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