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Como as dificuldades econômicas mudaram minha maneira de ver o dinheiro

Saving money © Singkham / Shutterstock
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Pode ser uma experiência humilhante. Mas tudo pode mudar quando se enxergam de outros pontos de vista

Abaixei a cabeça quando saí do consultório do pediatra ao ver que eu tinha que pagar pela consulta. Tive vergonha de não ter uma poupança, vergonha de não ser “melhor” na gestão do dinheiro. E, pior ainda, não foi minha escolha viver desta maneira. Eu havia decidido sair do meu emprego de tempo integral antes do nascimento do meu primeiro filho.

Digo que foi uma “opção”, porém, como muitas mulheres, pensei em equilibrar trabalho e família ao mesmo tempo e isso seria extremamente difícil. Tínhamos adotado três irmãos e, em um último minuto, uma gravidez inesperada (ainda que muito desejada), de um bebê que tinha problemas de saúde e precisou de cuidados em casa durante certo tempo.

A melhor opção era ter o pai ou a mãe em casa o tempo todo para cuidar da família. Eu fiz as contas: seria apertado, mas um salário só seria suficiente. Entretanto, logo soube que o “apertado” funciona só em um mês perfeito, sem gastos emergenciais. Meu primeiro filho já tem dez anos, e, ao olhar para trás, penso que nunca tivemos esse tal mês perfeito.

Alguns sacrifícios iniciais me pareceram óbvios: deixei de gastar dinheiro com minhas coisas “fúteis”: sapatos e livros. Comecei a usar a internet da biblioteca pública para evitar o gasto em casa. Cortamos internet, telefone, celular. Mas, apesar de nosso orçamento cuidadoso e dos sacrifícios, no curso de um ano eu tive que resgatar minha previdência privada para pagar nossas contas regulares.

Li, recentemente, um novo livro sobre os pobres nos Estados Unidos ($2,00 a Day: Living on Almost Nothing in America). A socióloga Kathryn Edin narra o dia dos mais pobres do país: as pessoas que, literalmente, não têm comida em casa, nem leite para o bebê, nem sequer casa.

É devastador viver na pobreza extrema. E eu imediatamente vi que tenho sorte: tenho pouco dinheiro, mas nunca fui pobre ao ponto de não ter um lugar para viver. Esse é outro tipo de pobreza, em que a falta de dinheiro é tão arraigada que não existem opções – o que os sociólogos chamam de pobreza “geracional”, ao invés de pobreza “situacional”. O simples fato de eu ter uma previdência privada para resgatar dinheiro significava uma situação melhor do que muitos.

Os norte-americanos de classe média muitas vezes têm pouca experiência com aqueles da parte inferior da escala econômica. Geralmente, vivemos ao redor de pessoas com rendimentos semelhantes. Assim, essa experiência do orçamento apertado  – e muitas vezes insuficiente para atravessar o mês – era nova para mim. Era uma prova para ver como é a vida das famílias em situações mais terríveis.

Para ser honesta, a pior parte foi a seguinte: eu me senti um fracasso. Simplesmente me faltava o ar quando tentava pagar as contas. Não falei com ninguém sobre o estresse em que eu vivia, já que a falta de dinheiro era algo que eu queria esconder.

Porém, ao olhar para trás, posso dizer que meu exercício de uma década com orçamento extremo terminou sendo positivo: desenvolvi uma nova relação com o dinheiro, que está mais de acordo com meus valores espirituais.

Suspeito que outras famílias, principalmente aquelas que viveram na Grande Recessão, tiveram experiências semelhantes. Minha amiga Mary mora no leste do Canadá e passou por problemas econômicos. Quando lhe perguntei como a crise econômica impactou a forma como ela vê o dinheiro, ela me disse:

“No primeiro ano depois que o Bob abriu um negócio, estávamos com problemas econômicos. Eu sempre fui boa com dinheiro, cursei administração e era – e ainda sou – muito econômica, mas, na primavera passada, estávamos no limite do nosso crédito empresarial e tivemos que usar nossa linha de crédito pessoal para pagar o conserto do carro. Eu comecei a cortar gastos e nós simplesmente não gastamos nada extra.”

Ela tirou duas conclusões: “a primeira pode soar como clichê, mas é importante: nós ainda tínhamos tudo (filhos saudáveis, uma casa e uma família amorosa). A segunda, mais reveladora, é que antes eu havia sido um pouco mesquinha. Agora, sou mais generosa com o que temos, e sou mais consciente de como o dinheiro pode afetar negativamente as relações quando ele – o dinheiro – se torna o centro de tudo.”

Quando você está contando cada centavo, o significado do dinheiro somente se torna prático: uma certa parte do dinheiro comprará seus mantimentos, outro montante pagará suas contas. Assim, o dinheiro perde seu peso emocional em alguns aspectos (é só uma ferramenta que lhe dará o que você precisa).

E mesmo se você tiver a sorte de ter mais que o suficiente, é só uma ferramenta. Não há nada inerentemente bom ou ruim no dinheiro. E, no entanto, muitos de nós podemos nos sentir confusos e até culpados por isso.

Outro conselho: eu sou escritora freelance e editora, o que significa que, nesta economia louca, às vezes tenho muito trabalho e às vezes não tenho trabalho suficiente. Quando acumulo um trabalho ou dois significa que, inevitavelmente, precisarei de ajuda, às vezes com os filhos ou com os trabalhos domésticos, enquanto eu trabalho.

Eu cresci em circunstâncias econômicas extremamente apertadas e minha mãe nunca teve ajuda. Eu interiorizei a ideia de que sou “mimada” por procurar essa ajuda. Isso, de alguma forma, me faz sentir como uma ostentação, como se eu tivesse dinheiro suficiente para que outras pessoas façam o meu trabalho.

Mas a realidade é que, se eu tenho um grande trabalho, não posso fazê-lo e simplesmente abandonando as crianças e o serviço de casa. Então, contrato ajuda. Mas me sinto mal com isso.

É uma sensação difícil, mesmo quando você entende o bem que vem com a ajuda que você contrata: as crianças e eu adoramos a babá, meu marido adora a casa limpa e não temos que passar nosso sábado limpando. Quem faz o serviço também fica feliz pelo seu benefício. Tive que rever uma tendência que eu tinha de pensar que gastar dinheiro era inerentemente ruim.

Porém, tento lembrar que o dinheiro não é moral ou imoral em si. Ele pode oferecer coisas positivas. É o que você faz com ele que importa. Devemos ter o objetivo de gastar nosso dinheiro de uma forma que faça bem ao mundo.

O dinheiro, como muitas outras coisas, está cheio de bagagem e emoção. Graças aos meus anos de orçamento apertado, minhas opiniões são muito diferentes hoje.

Eu uso o dinheiro como uma maneira de colocar minhas prioridades em ação. Para mim, isso significa um dízimo de 10%, além de outros donativos de caridade para organizações em minha comunidade, como escolas, banco de alimentos e abrigo para mulheres.

Isso significa que se agora possuímos até um pouco mais do que precisamos, como família, temos que considerar as necessidades dos outros.

Significa também falar de opções de dinheiro com meus filhos, algo que meus pais nunca fizeram. Quando estamos guardando dinheiro para fazer uma grande viagem, explico que é melhor alugar um filme do que ir ao cinema, comer em casa do que fora. É bom que meus filhos vejam que um orçamento limitado em certa época pode possibilitar umas boas férias mais para frente.

É bom que eles vejam que o dinheiro significa escolhas, que qualquer coisa além de aluguel, comida e cuidados médicos é um luxo. Nós também escolhemos o que apoiar: o banco de alimentos ao invés do abrigo de animais, por exemplo. Todos temos prioridades, e pensar deliberadamente sobre como cuidar de nós mesmos e dos outros é uma habilidade de vida.

Eu tento enfatizar que trabalhar duro é o que importa. E meu marido quer que nossos filhos saibam que o trabalho deve ser significativo e importante. Que eles também precisam pagar as contas e olhar as pessoas que têm menos do que eles. Quanto mais tentamos ensinar a nossos filhos sobre o dinheiro, mais nos damos conta que é uma questão sutil e multifacetada.

Eles não compreendem (ou estão de acordo) completamente, mas eu sigo tentando. Muitas vezes, sinto que meus filhos têm muito. Tudo o que eu posso esperar é que eles compreendam o poder do dinheiro através de seus próprios trabalhos duros, de suas próprias escolhas e responsabilidades.

Espero que eles sempre tenham o suficiente para suas  necessidades e o suficiente também para ajudar a aliviar a carga de alguém na comunidade.

Por Eliana Osborn