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Nossas vidas nas câmeras: por que registramos tudo o que acontece, ao invés de vivermos os momentos?

© Jack Frog/SHUTTERSTOCK

Elizabeth Scalia - publicado em 20/01/17

Ou você registra, ou vive plenamente os momentos. Não dá pra fazer as duas coisas

Em uma publicação da revista For Her, Dena Dyer reflete sobre o caso das irmãs gêmeas idênticas adotadas por pais diferentes que se encontraram, pela primeira vez, em um programa de televisão americano. Dyer se atreve a perguntar: “Realmente, deveríamos estar vendo isso?”

Aplaudo a decisão dos pais de quererem compartilhar com o resto do mundo um encontro tão emocionante e feliz (…) Mas uma parte de mim pensou: por que eu deveria ser testemunha desse momento tão íntimo?(…)

Por que acreditamos que temos de compartilhar tudo com desconhecidos? Podem me chamar de rabugenta, mas creio que há certas coisas que deveriam permanecer no particular. Por exemplo: os pedidos de casamento e os testes de elenco. (Sei que provavelmente estou em minoria com esse último exemplo, mas é que não posso entender: quem quer, de verdade, fazer um teste diante de milhões de pessoas? A reprovação já é suficientemente dura sem ter de compartilhar com o resto do mundo).

A nossa tendência de compartilhar em excesso foi acelerada pela  popularidade dos botões de “gravar” em nossos aplicativos e pelo sucesso dos realities shows e de programas que dão grandes prêmios em dinheiro para os vídeos divertidos. Hoje em dia, vemos um número sem precedentes de acontecimentos na vida normal que acontecem em tempo real, diante dos nossos olhos. Combine isso com nossa tendência humana de dar prioridade à fama, ao invés do essencial, priorizar a riqueza, ao invés da simplicidade e, assim, é como se monetizam os momentos do dia a dia.”

Muito bem! Nós nos canabalizamos em prol do entretenimento, nos alimentamos das alegrias e das dores dos outros, de suas vitórias e decepções, como voyeurs passivos que descobriram um modo seguro de experimentar emoções, sem necessidade de enredos pessoais. Nós nos deixamos levar pela emoção, eles conseguem os 15 minutos de fama, os quais foram previstos por Andy Warhol. E, logo, buscamos o próximo vídeo com um apetite insaciável.

Eu concordo com a senhorita Dyer. Estou cansada (e desconfiada) destes momentos particulares e intensos sendo adiados, sendo sustentados e coreografados para que fiquem melhores nas câmeras e que “tudo seja capturado”. Por esse motivo, deixei de filmar meus filhos.

Tudo começou no dia em que fui levar meu filho mais velho ao ônibus do colégio pela primeira vez. Nem lembrei de levar a câmera. Por estar sem ela, pude observar o que acontecia com as outras crianças. Nervosas e inquietas por causa do colégio, elas não recebiam abraços tranquilizadores de suas mães. Uma mãe dizia: “fique ali, perto da cerca, coloque Mark para que ele saia também: ok, pessoal, aonde vocês vão hoje?” E as crianças nervosas, mas obedientes, respondiam: “ao colégio…”

“Para que série vocês vão, estão no ensino médio?”

“Não, estamos no infantil.”

Eu sei: isso é fofo. E não quero parecer desmancha-prazeres, mas, naquele dia, me dei conta de que todo um rito de passagem havia sido deixado de lado por uma câmera. Quando o ônibus chegou, a câmera focou nele. Logo, a porta se abriu e os pais filmaram a motorista dizendo bom dia e se apresentando.

Depois, uma a uma, todas as crianças entraram no ônibus, seguindo a direção de cena. Posavam perto do primeiro degrau, giravam, sorriam, saudavam com a mão e desapareciam dentro do veículo. Somente meu filho pode segurar na mão de sua mãe enquanto vivia essa nova experiência. Ele ganhou um abraço apertado e deu um forte aceno com as mãos enquanto o ônibus partia. Todas as outras mães estavam muito ocupadas, filmando o ônibus até que ele dobrou a esquina.

Saí dali pensando “ou você grava ou vive, mas não pode fazer as duas coisas”.

Há determinados momentos que precisam ser vividos por completo, seja a primeira vez que seu filho entra no ônibus escolar ou algo parecido com a reunião de irmãs. Falamos de “viver o momento presente” e educar nossos filhos a ser conscientes, atentos e a estar presentes. Mas, logo, pegamos uma câmera indiscreta e lembramos que há um público e isso dá vergonha, impossibilitando de viver a experiência de forma plena, espontânea e natural.

Há mulheres que dizem que, quando veem suas fotos de casamento, não têm lembranças concretas daquilo, porque estavam tão preocupadas com o fato de saírem bem na foto que não aproveitaram o momento. Os homens dizem que não se lembram de ter visto do desfile da Disney que filmaram, porque, na realidade, não estavam assistindo.

Se os adultos não conseguem filmar e experimentar plenamente o momento vivido, não podemos esperar isso das crianças. Essa é uma das razões pelas quais algumas paróquias proíbem as fotos na Primeira Comunhão. Durante o primeiro encontro físico com Jesus, ninguém deve estar distraído ou pensando em como sairá na foto.

As câmeras são onipresentes e gerações inteiras cresceram brincando com elas e depois compartilhando seus “produtos”. Talvez eu seja simplesmente estranha, mas eu queria que não fosse assim. Preferiria ver uma foto dessas duas meninas logo depois que eles se conheceram e tiveram tempo para processar tudo (e ler essa história), a sentir que estou me intrometendo, e talvez, diminuindo momentos importantes na vida das pessoas.

Our lives played to the camera: Must every meaningful moment involve staging?

Pergunto-me: se todos estivessem ocupados filmando Jesus, eles teriam realmente absorvido uma palavra do que ele disse, ou teriam postado selfies no Twitter e  vídeos de um minuto de duração no YouTube, e, assim, apresentariam Jesus ao grande público dessa forma fragmentada e passageira?

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