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Verdades e mentiras sobre a “fossa comum” com 800 bebês mortos na Irlanda

PAUL FAITH / AFP

Inma Alvarez - publicado em 08/03/17

Para começar, não era fossa comum. A notícia, requentada de 2014, já tinha sido desmentida pela própria agência que a divulgou

Uma comissão nacional de investigação, na Irlanda, confirmou na última sexta-feira, 3 de março, a existência de uma estrutura subterrânea encontrada na antiga casa de acolhimento de mães solteiras “Mother and Baby Home”, em Tuam, no condado de Galway, na qual tinham sido enterrados os restos mortais de 796 bebês de 35 semanas a 3 anos de idade.

Trata-se de uma notícia que já deu a volta ao mundo em 2014, quando a imprensa internacional se deixou tomar por um surto grotesco de sensacionalismo e, entre outras afirmações falsas, disparou que aqueles bebês eram “filhos do pecado” abandonados à morte por religiosas católicas e jogados como lixo em uma fossa comum.

A distorção dos fatos chegou a tal extremo que a própria agência Associated Press, que tinha divulgado o caso como “furo jornalístico”, teve de pedir desculpas pela cobertura imprecisa dos fatos.

Eis as principais mentiras que já foram desmascaradas a respeito desta notícia:

1 – Não era uma fossa comum

A primeira acusação lançada contra as religiosas irlandesas foi a de “jogarem os bebês mortos numa fossa comum”. A historiadora Catherine Corless desmentiu pessoalmente ao jornal Irish Times, há cerca de dois anos, que tivesse usado tais palavras: “Nunca usei a palavra ‘jogados’, nunca disse a ninguém que eles foram jogados numa fossa. Essas palavras não são minhas”.

Qual é a diferença? Numa fossa comum, os corpos de seres humanos mortos são jogados sem identificação nem qualquer respeito pela sua dignidade. No caso do instituto irlandês, todos os bebês, enterrados num subterrâneo com cerca de 20 câmaras, e não numa “fossa”, têm certidão de óbito com nome, idade, local de nascimento e causa da morte. Foi a partir deste registro, aliás, que Corless deduziu a existência de algum local de sepultamento.

No mesmo ano de 2014, Finbar McCormick, professor de Arqueologia e Paleontologia da Universidade Queens, de Belfast, afirmou que é inadequado chamar esses enterramentos de “fossas comuns”: segundo o especialista, a mortalidade infantil era muito alta na primeira metade do século XX e era muito comum recorrer a sepultamentos em câmaras subterrâneas inclusive nos hospitais públicos de todo o país – o uso, aliás, é vigente até hoje em outros países da Europa.

2 – Não se negava o batismo aos bebês

Outra mentira despejada contra as religiosas é a de que os bebês seriam “filhos do pecado” abandonados à morte sem acesso ao batismo por serem considerados “indignos”. Os próprios registros das freiras demonstram que muitos deles foram, sim, batizados.

3 – Os bebês não morriam de fome

A investigação realizada desmentiu também a acusação de desnutrição: a “Comissão de Investigação sobre a Mother and Baby Home” concluiu que 10 crianças, ou 1% do total, morreram por esta causa em quase 40 anos. A maior parte das mortes se deveu a complicações no parto, problemas respiratórios, tuberculose, gripe, epilepsia e meningite.

O que é verdade é que a taxa de mortalidade na casa de acolhimento era quase duas vezes mais alta que a média do país. No entanto, mesmo esta constatação deve ser contextualizada: a mortalidade infantil na Irlanda, como um todo, era muito alta (17%) até os anos 1970, e, nas áreas mais pobres de Dublin, por exemplo, chegava a ser 10 vezes mais alta que a média nacional entre os órfãos e os filhos de famílias carentes. Esses números foram confirmados por Jacky Jones, ex-diretora de serviços sanitários na Irlanda, e indicam que o índice de mortalidade na Mother and Baby Home, apesar das condições em que as gestantes chegavam à instituição, se reduzia consideravelmente se comparado ao mesmo índice no ambiente sócio-econômico do qual elas provinham.

4 – As crianças e suas mães não eram maltratadas

Em 2012, a historiadora Catherine Corless juntou material de várias fontes jornalísticas que falavam da Mother and Baby House de Tuam e observou que as publicações sobre a casa na década de 1950 não tinham qualquer traço da sórdida história que seria depois vendida pela mídia.

Corless cita uma testemunha ocular, o viajante Halliday Sutherland, que descreve assim o instituto em seu livro “Irish Journey”:

O edifício é bem mantido, fresco e limpo. A casa é gerida pelas freiras do Bon Secours de Paris e a reverenda madre me mostrou o interior. Cada uma das freiras é enfermeira profissional e parteira. Algumas são especializadas em enfermaria infantil (…) Um moça solteira pode se dirigir até aqui para ter o seu filho. Se estiver de acordo, pode permanecer na casa durante um ano, cuidando de seu bebê junto com as freiras, que não recebem retribuição pelo trabalho. Ao terminar o ano ela pode partir e escolher entre levar o filho consigo ou deixá-lo na casa para ser adotado. As freiras mantêm a criança até os 7 anos de idade e a partir de então a enviam a uma escola industrial” (Sutherland Halliday, Irish Journey, Wyman & Sons Ltd, Fakenham, Reino Unido, 1956).

Em artigo de outubro de 1953, o jornal local The Tuam Herald critica os métodos de adoção das freiras alegando que elas “não selecionam bem as famílias adotantes”. Em outro artigo, de 1949, o jornal fala de uma inspeção sanitária feita pelas autoridades locais com resultados aprovados.

5 – O estigma social quanto às mães solteiras era um fato social

O estigma social que pesou historicamente sobre as mães solteiras na sociedade ocidental é um fato inegável. Mas nunca foi uma exclusividade dos países católicos. Na liberal e laica Suécia, por exemplo, as mães solteiras podiam ser obrigadas a abortar ou eram até esterilizadas há cerca de 60 anos.

Rejeitadas pela família, essas mulheres encontravam apoio quase exclusivamente em instituições religiosas, muitas vezes elas próprias carentes de recursos e superlotadas. Não havia alternativa? Havia: a rua.

Como quer que seja, a Conferência Episcopal Irlandesa reconheceu, em comunicado de 2014, que, “por desgraça, as mães solteiras eram frequentemente julgadas, estigmatizadas e rejeitadas pela sociedade naquele tempo – e a Igreja também o fazia”.

O mesmo reconhecimento foi reiterado neste domingo pelo arcebispo de Tuam, dom Michael Neary, em sua homilia:

Mal podemos imaginar a dilaceração dessas mães que se viam privadas dos próprios filhos para entregá-los em adoção ou que acabavam sendo testemunhas da sua morte. Algumas dessas jovens, na sua difícil situação, tinham sido rejeitadas pela família. Não podemos sequer imaginar o que elas sentiam. Não podemos chegar a imaginar o seu sentimento de impotência diante da morte dos seus filhos”.

No tocante à estigmatização das mães solteiras, é verdade que, em muitos casos, a Igreja católica não soube se diferenciar suficientemente das outras instituições sociais da época, tratando-as com menos caridade do que se espera de um cristão que detesta o pecado, mas ama o pecador e quer que ele viva. São muito oportunas, a propósito, as palavras do Papa Francisco sobre as mães solteiras no Encontro das Famílias na Filadélfia, quando o pontífice deixou claro que é mais importante o fato de serem mães do que o fato de serem solteiras e de que elas precisam de compreensão, apoio e solidariedade.

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