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Histórias Inspiradoras

A AIDS e a Igreja, um capítulo pouco conhecido da história

Norman M CC

Igor Precinoti - Vanderlei de Lima - publicado em 10/03/17

No tempo em que os pacientes com HIV eram, literalmente, deixados para morrer, uma pessoa decidiu fazer algo diferente

No final dos anos 70 e início de 80, acontecia, nos Estados Unidos, uma epidemia que assustava a comunidade médica e o restante da população. Jovens previamente saudáveis chegavam às dezenas aos hospitais apresentando tosse, emagrecimento, diarreia e logo vinham a óbito.

As equipes médicas não sabiam do que se tratava. Daí, muitos hospitais se negavam a atender a esses indivíduos com medo do contágio, porém cada vez mais doentes se acumulavam na frente das unidades de saúde. Pouco tempo depois, relatos desta mesma doença foram surgindo em países de todos os continentes. A constatação era inegável: uma estranha epidemia havia atingido o mundo.

Somente em 1983 – portanto três anos depois dos primeiros casos norte-americanos – pesquisadores do Instituto Pasteur, na França, identificaram tratar-se de um vírus que posteriormente foi nomeado de Vírus da Imunodeficiência Humana, cuja sigla em inglês é HIV.

Esse vírus é transmitido através do contato com o sangue contaminado (transfusões que na época não eram controladas, uso da mesma seringa por usuários de drogas injetáveis, cortes nos quais ocorrem fusão de sangue com sangue etc.) ou pelo ato sexual, e mesmo com a descoberta francesa, por muito tempo as pessoas contaminadas ainda pereciam por falta de tratamento adequado.

Atualmente, existem diversos medicamentos que combatem esse vírus. Tais medicamentos são popularmente conhecidos como “coquetel”. Esse “coquetel” não é capaz de curar o paciente, porém permite que ele tenha uma vida normal, não tenha as complicações decorrentes da doença e diminui os riscos de contaminação a terceiros.

Porém, durante muito tempo os pacientes contaminados pelo HIV pereciam com a ignorância da população e com a falta de tratamento. Muitos foram, inclusive, abandonados por suas famílias, não tinham condições de se alimentar e eram privados de qualquer forma de cuidado ou afeto. Também sofriam com a falta de conhecimento científico sobre sua doença, e, por isso, ficavam excluídos da assistência à saúde, pois alguns médicos e enfermeiros, com medo e sem saber como ocorria o contágio, se negavam a fazer qualquer atendimento. Os pacientes eram, literalmente, deixados para morrer (mistanásia).

Eis, porém, que existia uma pessoa, do outro lado do oceano, cuja vida fora dedicada ao tratamento dos mais excluídos, sua missão era o cuidado daqueles que a sociedade havia abandonado, seu trabalho era cuidar de leprosos, tuberculosos, órfãos entre outros. Essa pessoa, que se tornou mundialmente conhecida pelo nome de Madre Teresa de Calcutá, ao ficar sabendo desse grupo de excluídos no chamado Novo Mundo, foi aos Estados Unidos e lá fundou a Casa “Gift of Love” (Dom do Amor), em 1985. Era a primeira casa de apoio ao paciente com HIV. Enquanto todos se afastavam, Madre Teresa ousou abraçar aqueles que sofriam dessa epidemia assustadora.

Prover um “lar amoroso” aos padecentes morrendo de AIDS, mas que não tinham para onde ir, oferecer-lhes cuidados básicos de saúde e higiene, além de suporte emocional e religioso, eram os objetivos de Madre Teresa. Todavia, ela sofreu muita oposição. A comunidade local, vizinha à fundação feita pela frágil freira albanesa, temia a presença de pacientes com AIDS em seu bairro, e se assustavam devido ao número de pessoas que ali morriam e com o fluxo de ambulâncias advindas de diversos hospitais a despacharem seus pacientes moribundos com HIV para que as freiras de Madre Teresa, as Missionárias da Caridade, cuidassem deles em seus últimos momentos.

A perseverança de Madre Teresa e de suas religiosas, no entanto, foi maior que as dificuldades, suas casas de cuidados a pacientes com AIDS se multiplicaram e até hoje estão presentes em diversos países com a mesma missão inicial.

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo; Igor Precinoti é médico, pós-graduado em Medicina Intensiva (UTI), especialista em Infectologia e doutorando em Clínica Médica pela USP.

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