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Introdução à Teologia do Corpo – Parte 1: O pecado reprime o homem

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A unidade e a inocência originais na vida humana logo após a Criação; o Pecado Original e suas consequências, antevendo o chamado redentor de Cristo

Recomendamos, para melhor aproveitamento desta série, a leitura prévia do seu Prólogo:

Creio na Ressurreição da Carne: Introdução à Teologia do Corpo (Prólogo)

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Nestes primeiros artigos, serão desenvolvidas as questões referentes à unidade e à inocência originais na vida humana logo após a Criação; o Pecado Original; e as consequências deste, antevendo o chamado redentor de Cristo a todos nós.

Pecar é perder a si mesmo

O Pecado Original reprimiu o ser humano verdadeiro – represou, no ser humano, a sua verdade. Isto quer dizer que, pela hereditariedade do Pecado, nós ganhamos uma estrutura pessoal em que nossa verdade está distante de nosso ser, afastada de nossas consciências. No entanto, esta, precisamente por ser a verdade, não se perde nunca, e permanece pedindo para irromper em nossas vidas, no seio da histórica artificialidade da humanidade.

Os pecados atuais, mortais ou veniais, mantêm-nos reprimidos, isto é, desintegrados, distantes de Deus e de nós mesmos. Motivo este pelo qual vive-se, com tamanha frequência, com um enorme senso de vazio e de frustração, enquanto, estranhamente, vive-se todas as promessas de felicidade do mundo. A pessoa se pergunta: mas o que há de errado comigo? A resposta é: você está depositando sua esperança em um mundo cuja substância própria é a perda da esperança. É como querer curar uma ferida num espinho – o mesmo que a gerou. A incredulidade e a desesperança são a própria matéria da qual é feita o mundo, e é neste que você, pela insensatez e desorientação geradas pelo Pecado, está depositando as suas expectativas de alegria e de paz. Sem perceber, você está apostando no pecado como projeto de vida, como se aí fosse encontrá-la. Mas, como poderia ser projeto de vida aquilo que, precisamente, retira a mesma de nós?

Está aí a tragédia do mundo humano pós-Pecado Original: o sentido é buscado comumente naquilo que o elimina; investe-se a vida, logo, naquilo que a transforma em morte. E depois, ainda, não se consegue entender o que está se passando! Não poderia ser diferente, pois: o cego não pode enxergar. Como cobrar do cego que não se dirija novamente ao precipício? É preciso que, antes, o Evangelho e o encontro com a pessoa de Cristo lhe restitua a visão.

Por quê, aqui, relaciona-se “repressão” com “desintegração”? É que, se estamos inteiros, de fato, então estamos com Deus, que inteiros nos criou. Mas, após o Pecado, Adão esconde-se e foge de Deus, temendo-O: por hereditariedade, assim também nós temos a tendência de fazer. Para escondermo-nos de Deus, desintegramo-nos, dividindo a nossa essência em pedaços, e pressionando a boa parte destes para a inconsciência, de modo a deixarmos de ver, interiormente, a imagem e semelhança de Deus em nós mesmos. O que tentamos fazer é escondê-Lo em nós, com a trágica esperança de que assim Ele também não nos veja. É assim que nós, em plena luz do dia, estamos como Adão, escondendo-nos de Deus em um arbusto – como se qualquer arbusto ou montanha, por maior que fosse, pudesse esconder algo ou alguém de Deus. Culpados do Pecado, feridos por esta culpa, nós não queremos olhar para a integridade de nós mesmos e reconhecer a nossa miséria. A culpa pelo pecado e o orgulho estão lado a lado: numa mão, a repressão (da culpa), noutra, a resistência que a sustenta. O homem se entristece e se enfraquece com o pecado, mas luta para não deixá-lo, temendo as consequências de um retorno humilde ao Criador. Adão ouve a voz de Deus no jardim e tem medo. Afinal, não é este o medo que tantos têm, quando a voz de Deus começa a ressoar forte demais no interior? Esse é o medo comum de todos que ainda não se desmontaram diante de Deus, para que Ele possa, com sua graça, devolver a sua integridade e a sua dignidade.

A vida humana que resiste à graça de Deus, assemelha-se a de crianças de colo, em tudo dependentes dos seus pais, que – após fazerem uma primeira besteira – resolvessem fingir que são adultas e que vivem sozinhas em suas casas, ignorando a existência dos seus genitores e responsáveis, e fugindo deles de um cômodo a outro. Ainda obteriam da parte deles o seu sustento básico, pois os pais não deixariam seus filhos morrerem: mas não poderiam desenvolver as suas vidas até a sua plenitude, na medida em que negariam a educação, a orientação e o apoio dos pais, todo o sustento espiritual da filiação que poderia lhes dar vida plena e a liberdade. Após o Pecado Original, e cada pecado atual, o ser humano perde a si mesmo porque perde a comunhão com Deus, seu Criador e Sustentador. Mas, em vez de se reconhecer criança de colo, e olhar para o Pai que está de braços abertos e estendidos, pedindo ajuda a Ele para superar sua fraqueza, vira a cara, fingindo-se adulto, por medo de ser punido, e pela rigidez do orgulho.

Com a encarnação de Cristo, iniciou-se na História o chamado definitivo, que havia sido antecipado desde o início dos tempos, e desde a Antiga Aliança com Abraão, para que todos (os que quiserem) possam reencontrar o Pastor e retornar à Casa, retomando, pela Cruz, o acesso à árvore do centro do jardim, com o batismo, a absolvição dos pecados, e o Pão da Vida.

A unidade e a inocência originais

Deus, quando criou o ser humano, deu-nos este mandamento: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer” (Gn, 2,16-17). O Pecado Original nada mais foi do que o momento em que o ser humano, em sua liberdade, transgrediu esse mandamento divino, e, portanto, teve de morrer – perdendo o acesso integral que tinha à Árvore da Vida. Era uma condição, a nós dada por Deus: respeitar livremente um precioso limite, dentro do qual gozaríamos para sempre da vida no Paraíso. Um limite, apenas, do qual dependia toda a estrutura da nossa inspiração pela Santíssima Trindade em nossa vida corporal.

Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança. Isto imprime em nós uma dignidade maior que a do restante das espécies, as quais, por isso, Deus a nós submeteu, para sermos, com Ele, corresponsáveis diretos pelo cuidado da Criação. No princípio, vivendo em comunhão com o Criador, estávamos em íntegro contato com os Seus desígnios para conosco. Nossas almas, integradas aos nossos corpos, participavam docemente no Ser de Deus, como ovelhas dóceis, inteiramente atentas e obedientes aos sinais do Pastor.

Fazíamos o bem e evitávamos o mal, não por sabermos o que era bom e mau por nosso próprio juízo, mas espontaneamente. Deixávamos tal conhecimento reservado a Quem ele pertence, ao Deus Criador, e pela comunhão íntima com nossas almas, Ele nos transmitia naturalmente a Sua Sabedoria, da qual compartilhávamos, Nele depositando toda a nossa confiança. Somente Deus pode nos orientar para o verdadeiro bem, e nos livrar do mal. De nada adianta tentar avaliar bem e mal por juízo próprio, como se pudéssemos chegar a uma conclusão diferente – e, ainda assim, válida e verdadeira – daquela já conhecida por Deus. Há somente uma verdade, absoluta e imutável, sobre a bondade ou a maldade de nossas ações, e esta advém de Deus.

Aquela unidade primeira do ser humano com Deus, refletia-se na unidade original do homem com a mulher. Quando Deus fez Eva para ser a companheira de Adão, este exclamou, ao vê-la: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” (Gn 2,23). O homem olha para sua mulher, e sente que ela é parte dele mesmo: há, entre o casal, perfeita complementaridade, visível até mesmo pela forma anatômica de seus corpos. Deus fez um para o outro, e somente vivendo com e para o outro, é que homem e mulher se completam, tornando-se um só, e se realizam. Da complementaridade à inseparabilidade. “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18).

“Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne. Ora, os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam” (Gn 2,24-25).

Adão e Eva, um diante do outro, não sentiam vergonha pela exposição de seus corpos nus, precisamente pela sua unidade e inocência originais. Não estavam realmente expostos, porque não havia, então, nenhuma constrição de seus corpos, mas integração completa entre corpo e alma, e entre eles mesmos. Eram uma só carne, e “ninguém jamais quis mal à sua própria carne” (Ef 5,29). Sua sexualidade, masculina e feminina, era sinal da complementaridade que causava o movimento recíproco, entre eles, de integral doação e acolhimento, espiritual e corporal. Tal movimento, nos primeiros seres humanos – o matrimônio original – foi perfeito, pela sua concomitante comunhão com o Criador, que tornava ausente todo medo e toda desconfiança. Não havia nenhum desejo, em Adão ou em Eva, de usar, ou de dominar o outro. Não haviam ainda comido da árvore do conhecimento do bem e do mal, e, por isso, escolhendo dela não comer, apenas obedeciam às doces e paradisíacas instruções de Seu Criador, vivendo em casal como uma só carne.

A liberdade da alma humana

Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, e dotou-o, por isso mesmo, de liberdade. O ser humano, dotado de alma e intelecto, era livre para escolher a vida em comunhão perfeita com seu Criador, ou escolher perdê-la, ao comer da árvore do conhecimento de bem e do mal. A serpente realmente tentou Eva, mas não retirou a sua liberdade de dizer não – assim como o diabo não nos pode forçar a pecar, mas apenas nos tentar, aproveitando-se de nossa milenar fraqueza. Deus quer a Sua criatura perto Dele, vivendo em comunhão com Ele, mas não quer forçá-la a fazer isso. O Amor de Deus por nós é gratuito e livre, e assim também Ele quer que seja o nosso amor por Ele. Qual é o mérito de um amor forçado? Deixa de ser amor no mesmo instante em que se força. Deus nos chama para perto Dele, nos ajuda a amá-Lo, e, mais ainda, quando queremos amá-Lo, Ele nos dá as condições como graça. Mas nunca nos força.

O ser humano, tentado a conhecer algo da existência que dele estava oculto – a ciência do bem e do mal – comeu daquele fruto proibido, e teve de morrer. Perder o amor a Deus é o mesmo que morrer, pois, ao esconderem-se nossas almas da percepção viva do seu Criador, ao qual desobedeceram, começam a resistir às Suas graças, à Sua unção vital. Almas que se encolhem, retraem-se e escondem-se, logo, sujeitam-se mais facilmente a quaisquer impulsos do corpo e mesmo aos mais baixos impulsos do seu estado decaído, incapazes de avaliar se estes favorecem ou jogam no lixo a sua original vocação. Avaliar, discernir em profundidade, seria retomar o contato íntimo com a alma e sua expansão: isso seria, também, retomar o contato com Deus, percebê-Lo, aceitá-Lo e, logo, curvar-se a Ele em docilidade e obediência. Mas o ser humano resistente, com medo ou orgulhoso, prefere, para poupar-se dos incômodos que convidam à transformação profunda, ceder à sua carne, ou aos impulsos decaídos de suas almas. Ceder ao pecado passa a ser a triste condição que “protege” o ser humano, resistente, contra a percepção e a ação de seu Deus.

O amor por Deus não pode se separar da obediência a Ele. No instante em que Eva aceitou comer daquela árvore, seu amor por Deus estava comprometido, pois transgredia o Seu mandamento. Por isso o diabo, a velha serpente, estabelece em sua vida intelectual um culto à desobediência, como movimento de “liberdade”: esta ideia demoníaca ganha ampla ressonância na cultura e no pensamento humanos. É o que os demônios sopram em nossos ouvidos sempre que podem – e o que já lemos nas páginas de tantos filósofos modernos: não deixar-se jamais determinar pela obediência a uma autoridade Absoluta, viver a potência do enxame demoníaco, que não se reduz à Unidade de nenhum “tirano” centralizador, que escapa do domínio tradicional do Ser com um “puro devir”, com a indeterminação “molecular” de sua “multiplicidade”, com o caos “rizomático” de sua fragmentação, com a confusão de sua “horizontalidade”.

Alguns filósofos (refiro-me, mais especificamente, a Gilles Deleuze e Félix Guattari em “Mil Platôs”, de 1980) chegam mesmo a enaltecer Satanás como líder contestador, quando este diz: “eu sou Legião” (Mc 5,9), tratando a tal frase como revelação e expressão da potência revolucionária do anonimato da multidão, contra a “verticalidade falocêntrica”, “individualista” e “identitária”, do “homem patriarcal”, “burguês”, “branco”, “Europeu”, “heteronormativo”. Sabemos que o diabo quis destruir a civilização ocidental e seus pilares fundacionais muito antes de sugerir esta ideia nos ouvidos de Karl Marx e de Antonio Gramsci, de Gilles Deleuze e Michel Foucault, entre outros. Pobre ser humano, que vê mais valor em Satanás do que em seu Redentor, e cai na armadilha da serpente, que pinta o fruto e as correntes da morte com as falsas cores de uma pretensa liberdade. Palavras como “docilidade” e “obediência” ligam imediatamente o alerta da paranoia daqueles homens modernos, ativistas contestadores, “desconfiadores” profissionais, escravos de sua incredulidade. Muitos não podem mais perceber como sermos dóceis justamente Àquele que nos dá a Vida, significa reconquistarmos a liberdade, o vigor, e a própria realização de nós mesmos no Outro. Muitos começam a preferir o inferno, a serem dóceis e humildes no paraíso. Significativamente, os mesmos filósofos que enaltecem a Legião de Lúcifer, esquecem-se de citar o que vem antes e depois da autoapresentação do demônio como Legião, no Evangelho de Marcos. Antes de dizê-lo, o demônio fala a Jesus, através do homem que possuiu: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes” (Mc 5,7). Satanás, diante do poder divino de Cristo, é obrigado a dizer a verdade, e afirmar a autoridade do Verbo. Depois, Jesus permitiu que a Legião de demônios entrasse nos corpos de uma manada de porcos, que se precipitaram no mar e afogaram-se (Mc 5,10-13). Tal é o destino de quem, filosoficamente, valoriza a falsa “força” do demônio contra Deus.

Essas filosofias revolucionárias, contrárias a qualquer senso de autoridade, não aceitam que é a resistência obstinada à Autoridade de Deus Criador, o que mais expõe os homens como presas fáceis da autoridade do homem do mundo, e, logo, do diabo. As autoridades malignas do mundo – material e espiritual – protegem o homem resistente ao Espírito Santo contra a temida entrega a Deus, e assim conquistam a sua servidão. O Pecado Original tornou os seres humanos presas mais fáceis da falsa autoridade do diabo, que a muitos convence de que, servindo a ele, encontram-se “livres” de Deus e de suas exigências para com eles, exigências que faz parecer terríveis. O ser humano passa, tantas vezes, a preferir a mais baixa e vil escravidão, com tons de contestação e “total autonomia”, e gozos mundanos, do que a verdadeira liberdade no serviço ao Deus Amor, cujas exigências são as de que retomemos a nossa liberdade e nossa capacidade de amar e viver na liberdade. De que recuperemos o brilho que somente a Vida, que vem concretamente da fonte divina, pode dar à nossa realidade, abandonando a palidez do pecado, e as maquiagens do demônio, que sempre saem no dia seguinte e revelam a falsidade e o vazio do seu projeto.

Quando nos encontramos com Deus, mais Ele Se torna presente e age em nossas vidas, cumulando-nos de graças e transformando-nos sobrenaturalmente, permitindo que O conheçamos pessoalmente, como Deus Pessoal que É. Por outro lado, para aqueles que servem ao diabo, mais o mesmo se faz parecer ausente, fazendo o seu escravo achar que realmente é “autônomo”, e que não faz o que faz em serviço às forças do mal, ao exército da resistência a Deus, mas por sua própria conta e nobre “independência”.

Nós, que buscamos servir a Deus, sabemos a Quem servimos, e este serviço se torna então consciente e livre, sempre recompensador, ainda que tantas vezes difícil, árduo e desafiador – pois o discípulo não está acima do seu mestre, e se nosso Mestre foi perseguido, também nós o seremos. Já o serviço mundano ao diabo, pelas próprias estratégias dos demônios, é na maioria das vezes inconsciente, e sem nenhuma verdade como recompensa. Deus Se apresenta ao homem e revela o Seu nome: EU SOU AQUELE QUE SOU (IAHWEH). O diabo, por sua vez, depende de que seu nome permaneça velado, e diz: não sou ninguém, sou muitos, “sou Legião”. Deus é Aquele que ilumina, esclarece, revela e diferencia. O diabo só se sustenta na confusão, nas trevas e na língua dupla – enquanto Deus, Glorioso e Todo-Poderoso, ainda permite que ele o faça, antes de precipitá-lo no mar dentro de uma manada de porcos.

Deus é a única Autoridade incontornável em todo lugar, Criador e Fonte da Vida, da qual o homem pode tentar se esconder, e contra a qual pode se revoltar, mas da qual não pode escapar. Deus é Onisciente, Onipotente, Onipresente, e o Seu Verbo virá nos julgar no fim dos tempos. Ainda assim, a humanidade vem ao longo dos séculos sofisticando-se em suas estratégias para manter-se escondida de Deus – para crescer na ilusão de que se esconde de Deus – seguindo o teatro demoníaco de suas mais disseminadas tendências pecaminosas. Os demônios, há muito, declararam guerra contra Deus, e uma quantidade imensa de seres humanos está alistando-se e militando de bom grado nesse exército. O problema é que, quando se desobedece a Deus, o máximo que se pode viver é um simulacro, uma “paródia demoníaca” de liberdade (cf. RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância, página 224), em que, ao se desrespeitar o mais importante dos limites – aquele que nos garante o acesso interior à Vida – muitos outros, internos e externos, começarão a ser desrespeitados, e o ser humano acaba por violar a dignidade dos outros e a sua própria. Não há uma terceira opção: ou temos 1) o reconhecimento de Deus como Criador, a obediência a Ele e a entrada na Vida Eterna; ou 2) a negação de Deus, e a entrada no reino temporário da morte, que, no fim, somente Deus dirá se será eterna ou não.

Quem nunca sentiu que fez, falou, ouviu, viu ou pensou um pouco demais – mais do que teria sido bom fazer, falar, ouvir, ver ou pensar – ultrapassando assim um limite que teria sido melhor respeitar para resguardar-se daquela dor persistente, daquele incômodo profundo, daquela perda de sentido? São estes os limites que estão impressos em nossas almas, desde que Deus nos fez, e que somos livres para respeitar, mantendo-nos próximos Dele e de Sua alegria, ou para ultrapassar, perdendo, a Deus e a nós mesmos, em troca de um pouco mais… de um pouco demais.

Quando ultrapassamos estes limites, sabemos como sentiram-se Adão e Eva, no Éden, ao se tornarem escravos do pecado no instante mesmo em que julgavam ser mais livres.

Ser “livre” das exigências de Deus, é ser escravo da concupiscência e de Satanás: a transgressão gera vício, e tende-se à reincidência. O que se fez, falou ou viu demais, é difícil des-fazer, des-falar, des-ver, a não ser pelo perdão sacramental e pela graça de Deus. O ser pode se embrutecer, e torna-se então mais difícil apreciar a virtude e a pureza. Hoje, a humanidade começa a pensar que a liberdade se define pela normatização da ultrapassagem dos limites, negando a sua própria essência mais original, numa lógica em que o pecado virou virtude, e a virtude pecado. Não tendo a consciência de que, com esse pensamento distorcido, cai na mais servil escravidão, distancia-se da verdadeira liberdade, que é somente obtida no reconhecimento de Deus como Criador, e de si como criatura, recolocando e aceitando cada um no seu devido lugar.

A atualização do pecado

O pecado atual, em nosso cotidiano histórico, é a pressão contrária que fazemos, resistindo à irrupção de nossa vocação profunda afastada no Pecado Original, ou, quando já conseguimos nos reconectar em algum grau com essa vocação, resistindo à manutenção de sua realização. Estando já fluente na língua do mundo, o ser humano teme que, reaprendendo a língua original de sua própria alma, será deportado do tecido social como estrangeiro indesejado – porque o discípulo não é maior que seu mestre (Lc 6,40), e o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Mt 8,20). Faz-se concessões ao pecado, perde-se a alma para se ter as falsas consolações do mundo, e o respeito humano. E quanto mais o mundo é desejado em seus próprios termos – o prazer hedonístico, a ganância pelo sucesso, o apego material, o reconhecimento dos outros etc. – mais se desaprende a língua de nossas próprias almas, mais as mensagens da alma tornam-se inaudíveis ou incompreensíveis, ou os ouvidos, resistentes. O ser humano faz-se estrangeiro em sua própria terra, e resiste a obter, de Deus, a sua nacionalidade perdida, o seu direito de primogenitura.

Após o Pecado Original, como consequência, surge na vida humana a concupiscência, e Adão e Eva passam a olhar um para o outro como objetos atraentes, que prometem prazer sensual ou sexual, e não mais como sujeitos de uma comunhão de pessoas, considerados em sua completa dignidade, na indissociabilidade entre seu corpo, sua alma e sua subjetividade. Surge o egoísmo, como maior obstáculo para a experiência do amor. Logo, homem e mulher passam a ter vergonha de seus corpos e sexos, que precisam, então, ser cobertos. Pois agora os olhos se abriram, e vê-se um pouco demais. O germe do desejo pornográfico nasce com a concupiscência dos olhos – e a pornografia, em si, é a exacerbação grotesca e caricatural da mesma: não mais apenas usar o outro, despersonalizando-o na experiência, mas despersonalizá-lo ainda mais além, através de meras imagens-fetiche de seu corpo dessubjetivado, em que o domínio dos olhos sobre o outro-objeto é ainda maior e completo, e elimina-se inteiramente o risco do envolvimento emocional e racional que se tem com a presença viva de uma pessoa.

A percepção interior da concupiscência em nós mesmos faz surgir um medo e uma insegurança de que a mesma, no outro, manifeste neste um desejo de apenas usar-nos, servir-se de uma parte de nós, e descartar-nos, não acolhendo-nos inteiramente em comunhão. Nós temos medo da inocência e da pureza, pois estas, se vencerem em nós nossa própria malícia, podem nos tornar presas da concupiscência do outro. Doar-se, a partir disto, passa a ser risco iminente de sofrer, de ser abandonado, pelo egoísmo do outro, que, como nós, tem dificuldade de amar. Uns começam a se proteger através de uma atitude hiperdefensiva. Outros, mais ofensivamente, protegem-se através de uma hiperconcupiscência, que, superando a do outro, tenderá a fazê-lo sofrer primeiro, antes que isso aconteça consigo – “antes o outro do que eu”. Outros, ainda, defendem-se através de uma combinação desregulada das duas posturas.

A partir do Pecado Original, algumas fraturas ou rupturas ocorreram: entre o ser humano e o seu Criador; entre o homem e a mulher; e entre a alma e o corpo do ser humano. Como já vimos, o ser humano começa a fugir de Deus, com medo Dele. O homem e a mulher não se relacionam mais como uma só carne, ou nisso encontram grande dificuldade; atraem-se, mas fogem um do outro ao mesmo tempo, pois passa a haver um conflito entre o prazer da carne (visto e vivido como um valor em si mesmo) e a comunhão unitiva das pessoas. Da mesma maneira, a alma e o corpo de um só ser humano, atraem-se mas fogem da mútua integração, instaurando um doloroso desequilíbrio no seio mesmo do ser. Os impulsos da carne que são contrários à realização da alma passam a dominar, e, satisfeitos, fazem crescer uma proporcional insatisfação existencial na alma, que o cego, que não pode enxergar, tantas vezes sequer compreende de onde vem.

Podemos compreender, então, que o ser humano verdadeiro é aquele criado por Deus à Sua imagem e semelhança no princípio da Criação, caracterizado por uma plena integração de todas as suas partes e aspectos, que convergiam para a realização da vontade e do original desígnio do seu Criador. Nada no primeiro homem e na primeira mulher era mecânico: profundamente integrados, em si, entre si e com Deus, eram abundantemente irrigados pelas forças da Vida e pela unção do Espírito Santo, que provêm de Deus Pai. Todas as dimensões constitutivas da totalidade do ser humano – as dimensões sexual, emocional e racional – formavam um todo indissolúvel, em que nenhuma destas partes reivindicava uma prioridade em detrimento das outras, e, integradas, obedeciam ao Espírito de Deus, de maneira que todas as ações do ser humano, homem e mulher, sozinhos e juntos, eram movimentos visíveis, no mundo sensível, da presença espiritual, da santidade e da beleza de Deus na Sua Criação. Ver o verdadeiro ser humano agir, no princípio, era ver os movimentos de Deus em toda a profundidade e força dos Seus pensamentos.

A desobediência fez com que a imagem e semelhança de Deus que há em nós se tornasse distante e embaçada, recuperada apenas ao custo de grande esforço, e, claro, da graça do Espírito. O ser humano desde então, enfraquecido e dado ao pecado, constantemente se desintegra em suas experiências. Ora, cede a impulsos sensuais que estão em completo desacordo com suas emoções e pensamentos racionais, e com as aspirações de sua alma, de modo que obtém um prazer efêmero, mas sente-se fragmentado, e posteriormente sofre a ressaca do vazio emocional e da perda do sentido racional. Ora, apega-se a emoções secundárias, patológicas, desconectadas de suas forças vitais motrizes, e também de sua razão, ao ponto de dessensibilizar-se para estas em um emocionalismo inconsistente. Ora, ainda, vive preso em pensamentos e racionalizações fora do contato com suas emoções e sexualidade. São muitos os modos históricos possíveis de desintegração e desestruturação do ser humano, em sua resistência à integração, consigo mesmo, com o outro e com Deus. O que tal desintegração perpetua é a separação entre o corpo e a alma, experiência de morte ou perda de vida. Em cada pecado atual, a dor que sentimos é a dor da nossa irrealização: fica faltando o nosso ser real, afastado, que nos aguarda em Deus.

Assim, sabemos que para estarmos realizados, isto é, para nos tornarmos reais, precisamos buscar ao máximo, nessa vida de exílio, a proximidade com a imagem e semelhança de Deus que está inscrita no fundo de nossas almas, trazê-la à tona e a ela dar corpo, para que, com o resgate dessa semelhança, vivamos mais integrados e em comunhão com nosso Criador e Seus desígnios para conosco. E isto podemos pedir diretamente a Ele, em oração. Todo católico é chamado a buscar a santidade, e isso significa esforçar-se, recorrendo a Deus e aos sacramentos, para não permitir que o pecado atual continue embaçando e distorcendo a imagem e semelhança de Deus em nós.

A repressão da sexualidade

O mundo moderno muito tocou na questão da “repressão sexual”, conceito-chave na psicanálise, apropriado pelas falsificações marxistas da realidade. Desse conceito, e de seus desdobramentos, resultou a visão de mundo na qual, para o homem ser enfim livre, bastava-se produzir uma cultura libertária no que diz respeito à sexualidade. Códigos éticos e morais que dessem ainda um molde à sexualidade humana, orientando-nos sobre o que, nesse âmbito, é bom ou mau fazer, passaram a ser vistos como instrumentos de controle burguês no domínio desta classe sobre as outras. A repressão sexual (da “moral sexual burguesa”) gerava a neurose, e a neurose impedia a disseminação do espírito revolucionário. Bastava, então, retirar a repressão sexual, e não haveria mais neurose – portanto, ocorreria também a revolução completa. Esse raciocínio farsante, no entanto, possui uma trágica verdade para o homem contemporâneo: quando não dominamos mais a nossa sexualidade, passamos a aceitar mais automaticamente que os detentores do poder cultural e político revolucionem até a última camada do nosso ser ao seu bel-prazer.

Passamos, ao longo das décadas, não apenas a uma sociedade liberal e permissiva no que diz respeito à vida sexual das pessoas, mas a uma que reprime, mesmo, qualquer tentativa de resgatar uma orientação ética e moral fundamental para dar contorno e sentido à sexualidade e ao ato sexual. Com isso, no entanto, a angústia e a miséria humana só aumentaram. A falsidade dessa tendência está justamente em perpetuar a visão desintegrada sobre o ser humano. A sexualidade é hoje, amplamente, liberada de uma maneira exclusivamente mecânica, evitando-se uma ligação íntima da mesma com a vida emocional e racional das pessoas, sejam crianças, adolescentes ou adultos. Dando prioridade à sexualidade (casual, quando não banalizada) frente a todas as outras dimensões do ser humano e em detrimento das mesmas, a visão moderna da pessoa humana apenas se afastou ainda mais de sua realização, e mais se vive, hoje, de uma maneira contrária à satisfação de nossas mais profundas e verdadeiras necessidades, de amarmos e sermos amados.

As visões de mundo psicanalítica e marxista consideram o “pecado” como sendo nada mais que uma ideia criada pela civilização ocidental patriarcal, espécie de instrumento de controle comportamental, para incutir culpa nas consciência humanas e assim dominar o comportamento dos seres em sociedade. Pobre homem que acreditou nessa visão de mundo, nessa fantasia ideológica, e liberou indiscriminadamente sua sexualidade, desintegrando-a da completude do seu ser. Entra-se, assim, no império do desejo, em que toda culpa e hesitação são considerados como inimigos a serem removidos, para que o indivíduo vá, em expansão, ao encontro do mundo, ainda que, depois, retorne miserável do mesmo encontro, porque não soube enxergar o quanto a hesitação e a culpa eram, ainda, uma mensagem distante da sua alma, tentando avisar à consciência que aquele desejo era falso, que não provinha do âmago do seu ser. O ser humano desintegrado e desenraizado, vivendo fora de si mesmo, é muito mais facilmente manipulado, e pode, a qualquer momento, incorporar um novo e mais falso desejo, afogando mais e mais a sua verdade. A mentalidade moderna privilegia a realização dos desejos das pessoas, mais que a realização das pessoas elas mesmas. Seu desejo acima de você mesmo.

O pecado não é uma ideia que reprime o homem artificialmente. O Pecado Original e o pecado atual são acontecimentos que efetivamente desintegram e reprimem a sexualidade humana natural, entendida como força motriz original da complementaridade total do homem e da mulher, convidados pela mesma força ao movimento recíproco de livre doação de si e acolhimento do outro em um vínculo relacional sólido e definitivo, do qual não participa apenas a sexualidade, mas a totalidade do ser, em corpo, emoção, razão, subjetividade e espírito.

No que se refere à sexualidade, a experiência que se torna mais difícil ao ser humano após o Pecado Original é, precisamente, o tornar-se uma só carne com uma pessoa do outro sexo, em definitiva doação e completo acolhimento – vínculo pleno afirmado no prazer e no sofrimento, na satisfação e na frustração. No entanto, nossas almas, ainda que decaídas e desorientadas, dessensibilizadas para a percepção de sua própria vocação original, não perdem esta mesma vocação, de modo que todos nós continuamos a aspirar pela comunhão das pessoas, e com Deus. Convivem e batalham, no homem, vontade original de comunhão e resistência pecaminosa à mesma. Desejo e incapacidade de amar. Os seres humanos, em suas diversas relações sociais, encontram-se e vinculam-se, e desejam isto, mas, simultaneamente, utilizam de todas as estratégias que possuem, conscientemente ou não, para protegerem-se do caráter definitivo destas relações e vínculos, em especial os amorosos e conjugais, sofrendo por antecipação o peso do compromisso e a possível exigência de sacrifício pelo outro, e também o abandono que pode derivar da fraqueza do outro.

A intimidade sexual faz de um homem e de uma mulher uma só carne, e, não importa qual seja a intenção do casal no ato, e seu comportamento antes ou depois, é assim que a alma sente a união que se deu. No entanto, esta experiência, de intimidade inigualável, torna-se cada vez mais banalizada e estimulada a adolescentes e jovens imaturos, que não estão aptos a responderem à intensidade existencial, vinculativa e unitiva de tal experiência, e com isso fragmentam-se e ferem seus corações, consciências e almas, e os dos outros. Sentem-se vazios e usados, o corpo foi dado, a alma foi dada, sem que nenhuma pessoa tenha sido doada, ou, por outro lado, acolhida. Todo o senso de preservação de si e de sua intimidade está sendo retirado das novas gerações, que cada vez mais violam a sua própria dignidade, de bom grado, ao dar acesso ao seu corpo – através de imagens e experiências – a desconhecidos ou recém-conhecidos que queiram usá-lo, consumi-lo. E isso, hoje, começa a ser visto como um valor. É, pelo contrário, a disposição emocional para a doação de si e o acolhimento do outro, que passa a ser vista com desconfiança. Pensa-se haver algo de errado com a pessoa que, após haver transado, deseja logo se aproximar e se envolver emocionalmente.

Pobre humanidade, pensando que, com esse comportamento, está libertando a sua sexualidade – dos supostos imperativos (“burgueses, patriarcais”) do amor romântico e do compromisso, que os revolucionários associam à propriedade privada, sendo os seus ideais “nada é de ninguém”, “ninguém é de ninguém” – quando, na realidade, assim fazendo, agrava mais e mais a histórica repressão da sexualidade natural do ser humano, que, quando saudável, é sempre integrada com a totalidade do ser, sendo a força que move a totalidade do ser a ser-para um outro, a doar-se como pessoa inteira, para uma outra pessoa inteira, que se doará também e será acolhida, preenchendo assim a vida humana de sentido, densidade e consolidação.

Nos próximos artigos, veremos como Nosso Senhor Jesus Cristo, em Si mesmo, revelou-nos o Caminho que devemos buscar e viver, na terra, para superarmos o reino da morte e do pecado, recuperarmos a vida eterna, e a vocação original de nossas almas e corpos, que se realizam no dom de si. Cristo nos ensina a devolver aos nossos corpos e à nossa sexualidade o seu devido valor, e faz-nos saber, novamente, que não se pode doar o que não se possui.

São João Paulo II, rogai por nós.