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4 casos de padres presos injustamente por abusos sexuais que não cometeram

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Por que as revelações de inocência não são destacadas nas manchetes como foram alardeadas as acusações caluniosas?

O escândalo de sacerdotes, religiosos e freiras da Igreja católica responsáveis por abusos morais, econômicos e sexuais é um fato dolorosamente real e comprovado em dezenas de países de todos os continentes.

E é dever de justiça denunciar e punir com rigor cada um desses crimes, tanto por parte das autoridades civis quanto das eclesiásticas – nem sempre, porém, as autoridades eclesiásticas envolvidas tiveram mão firme para cumprir este dever, envolvendo-se, algumas delas, no escândalo adicional do acobertamento dos abusadores.

Os Papas Bento XVI e Francisco impulsionaram medidas rígidas de combate tanto a esses crimes quanto ao seu encobrimento por parte de autoridades cúmplices, embora a rede de facilitação de abusos fosse ampla o suficiente para continuar interpondo obstáculos às novas medidas de transparência, punição dos criminosos e indenização às vítimas. Apesar dessas sabotagens, as medidas adotadas pela Igreja têm sido firmes e efetivas, conforme pode ser conferido nestes artigos recomendados:

“A verdade inteira sobre o abuso sexual contra menores”.

“O Papa Francisco expulsa mais um padre pedófilo”

“Uma vítima de abusos sexuais assessora o Papa na luta para evitá-los

“Eu cresci sofrendo abusos sexuais em um grupo católico”

“Bispo revela que ele próprio sofreu abuso sexual quando era seminarista”

As medidas da Igreja católica para enfrentar e solucionar o problema têm lhe dado lugar de destaque positivo entre as muitas outras instituições que, com bem menos sensacionalismo midiático, também vêm sendo acusadas de crimes idênticos – e isso envolve políticos, juízes, autoridades policiais e do exército, figurões do mundo das finanças internacionais e dos impérios da mídia, astros do cinema e da televisão e craques do universo esportivo, além de outras religiões e seitas, para citar apenas uma parte dos setores já comprovadamente manchados. Mas a mídia, assim como a ONU e sua agenda ideológica nem sempre interessada na verdade dos fatos, prefere evidenciar e até amplificar os casos ligados a clérigos, tal como se observa nestes outros artigos:

“Onde foram parar todos aqueles padres pedófilos?”

“A crise dos abusos sexuais e a vergonha da Igreja”

“Capa irresponsável da revista Veja associa Igreja e pedofilia”

Além de se esforçar para ampliar ao máximo toda acusação contra a Igreja, coisa que não costuma fazer com o mesmo empenho no caso de outras instituições, a mídia também parece esforçar-se para dar o mínimo possível de destaque às notícias sobre a inocência de padres caluniados e até presos injustamente por crimes que não cometeram.

É o que se constata nos quatro casos indignantes que apresentamos a seguir.

 

Caso 1: Espanha, 2017

Depois de dois anos e meio de investigação, o promotor público Francisco Hernández retirou as acusações de abusos sexuais supostamente cometidos contra um menor por um sacerdote católico de Granada, no sul da Espanha, por considerar que “não há testemunhos nem provas conclusivas”. O sacerdote acusado sem provas e investigado durante mais de 30 meses era o pe. Román Martínez.

O promotor destacou que as declarações do jovem denunciante eram contraditórias e que o seu comportamento incluía atitudes incoerentes. O julgamento está à espera de uma sentença definitiva.

O advogado do jovem que fez a denúncia manteve o pedido de 26 anos de prisão para o sacerdote. A Associação Pró-Direitos da Criança (PRODENI), que participou do processo como parte acusadora particular, também continua pedindo 5 anos de prisão para o pe. Román.

O caso se tornou especialmente midático depois que o jovem recebeu uma ligação telefônica do Papa Francisco em resposta a uma carta em que contara ao Santo Padre o que supostamente havia acontecido. O papa o orientou a relatar ao bispo da diocese, dom Javier Martínez, a sua versão dos fatos a fim de se iniciar a devida investigação.

 

Caso 2: Estados Unidos, 2016

A influente revista norte-americana Newsweek publicou extensa reportagem sobre a série de falsidades do ex-coroinha Daniel Gallagher, que se tornara conhecido no país como “Billy Doe”. As mentiras do jovem redundaram na injusta condenação de três sacerdotes e um professor da arquidiocese da Filadélfia, acusados de abusos sexuais cometidos contra ele.

Newsweek - Twitter

 

Em 2011, Daniel Gallagher, então com 22 anos, virou manchete nos Estados Unidos ao afirmar que tinha sido violentado diversas vezes pelos padres Charles Engelhardt e Edward Avery (este último acabaria deixando o ministério sacerdotal) e pelo professor Bernard Sheroe quando cursava a quinta e a sexta séries na escola da paróquia de São Jerônimo, na Filadélfia. Seu testemunho levou à condenação dos três supostos agressores e também do pe. William Lynn, ex-vigário da arquidiocese para assuntos do clero, considerado culpado de acobertamento. Foi o primeiro caso da história em que um administrador católico foi condenado por esse tipo de acusação.

O processo foi estendido contra a arquidiocese da Filadélfia, condenada a pagar a “Billy Doe” uma indenização de aproximadamente 5 milhões de dólares. O valor foi pago em agosto de 2015.

Nesse meio tempo, o pe. Charles Engelhardt morreu na cadeia, em novembro de 2014, após ter um pedido negado pela justiça para se submeter a uma cirurgia cardíaca.

Desde as primeiras acusações lançadas por “Billy Doe” em 2009, o jovem apresentou pelo menos nove versões diferentes dos supostos abusos de que se dizia vítima. Sua história, por mais inconsistente que se revelasse, foi o suficiente para atrair as atenções da jornalista Sabrina Rubin Erdely, da revista Rolling Stone, que, em 2011, deu voz às denúncias do rapaz num longuíssimo artigo intitulado “The Catholic Church’s Secret Sex-Crime Files” (“Os arquivos secretos dos crimes sexuais da Igreja Católica”). O texto descrevia “Billy Doe” como “um doce e amável menino de boa aparência juvenil”.

A mesma jornalista escreveu mais tarde sobre o caso de “Jackie”, estudante da Universidade de Virginia que declarava ter sido estuprada por 7 homens durante uma festa de acadêmicos. Pouco tempo depois, descobriu-se que a história de 2014, garrafalmente estampada nas capas da mídia americana e mundial durante semanas, não passava de pura mentira de “Jackie”.

A revista Rolling Stone teve de se retratar publicamente – e agora enfrenta dois processos por difamação.

Voltando ao caso dos padres acusados por mentiras semelhantes: a congregação religiosa do pe. Engelhardt, os Oblatos de São Francisco de Sales, contratou os serviços do psiquiatra forense Stephen Mechanik para avaliar “Billy Doe”, com ordem judicial. No relatório de 40 páginas, divulgado pela revista Newsweek, o psiquiatra mostra os resultados dos exames de MMPI-2 (Inventário de Personalidade Multifásico de Minnesota), aplicados ao jovem acusador: nos exames, “Billy Doe” admite que mentiu e que forneceu “informações pouco confiáveis” sobre o caso.

Para demonstrar que o jovem “nem sempre foi honesto com seus prestadores de serviços médicos”, o psiquiatra fez uma revisão minuciosa da trajetória clínica de Daniel Gallagher, o “Billy Doe”: nada menos que 28 instituições entre clínicas de reabilitação por uso de drogas, hospitais, médicos e conselheiros sanitários.

Em uma das mentiras de Daniel Gallagher, contada em 2007 e repetida em 2011, ele se dizia “paramédico e surfista profissional” e alegava ter tido que abandonar o esporte devido ao vício em drogas. Diante do Dr. Mechanik, porém, ele admitiu que não era paramédico e que nunca foi surfista profissional. O rapaz também tinha afirmado que sofria de hérnia de disco, mas o Dr. Mechanik constatou que nenhum dos registros médicos indicava qualquer diagnóstico desse alegado quadro. Da mesma forma, nas acusações de abuso sexual, o rapaz apresentou, segundo o perito, “informações contraditórias e pouco fiáveis” quanto aos detalhes dos supostos ataques, o que implica que “não é possível concluir com grau razoável de certeza psiquiátrica ou psicológica que o Sr. Daniel Gallagher tenha sido abusado sexualmente”.

A trajetória de Daniel Gallagher inclui fatos verificados como o consumo e tráfico de heroína, além da expulsão de duas escolas secundárias e da passagem por 23 centros de reabilitação por uso de drogas num período de 10 anos. Ele ainda foi detido 6 vezes por roubo e por tráfico de drogas, incluindo um caso de posse e tentativa de distribuição de 56 pacotes de heroína.

“Curiosamente”, nada disso parece ter levantado as suspeitas da justiça norte-americana, que deu crédito ao jovem apesar da falta de provas e, com base apenas em acusações contraditórias, condenou à cadeia, injustamente, os três sacerdotes católicos e o professor apontados como estupradores.

E não foi por falta de alertas: em declaração confidencial obtida e divulgada pela Newsweek, o detetive Joseph Walsh foi consultado, em 29 de janeiro de 2015, sobre nove contradições importantes na história de Daniel Gallagher. O investigador testemunhou que, quando interrogara o rapaz sobre as suas contradições, Daniel adotava três atitudes: ou permanecia sentado sem dizer nada, ou se limitava a alegar que estava drogado, ou contava mais uma história diferente.

A própria revista Newsweek afirma que há um conjunto de razões para se acreditar que Daniel Gallagher mente reiteradamente. A publicação cita, como exemplo adicional aos já mencionados, registros escolares de numerosas denúncias de lesões físicas e psíquicas supostamente sofridas pelo rapaz – todas refutadas.

A quantidade de absurdos no julgamento dos acusados levou o Tribunal Superior do Estado da Pensilvânia, em 22 de dezembro de 2015, a anular pela segunda vez a condenação do pe. William Lynn e a ordenar um novo julgamento. Três juízes concluíram que a magistrada da primeira instância, M. Teresa Sarmina, tinha admitido como provas 21 acusações adicionais de abuso sexual contra o sacerdote – mas as acusações remontavam a 1948, três anos antes do nascimento do padre.

No funeral do pe. Engelhardt, o superior provincial dos Oblatos de São Francisco de Sales, pe. James Greenfield, revelou que, na véspera do julgamento, o falecido sacerdote tinha recebido a proposta de “negociar um acordo para sair da prisão e realizar serviços comunitários”. O sacerdote preferiu ficar na cadeia “porque não pretendia perjurar contra si mesmo ao se declarar culpado de um crime que simplesmente não tinha cometido”.

 

Caso 3: Colômbia, 2015

O padre colombiano José Isaac Ramírez foi libertado em outubro de 2015 após três anos de prisão – aos quais tinha sido injustamente condenado devido à falsa acusação de abuso sexual contra um adolescente de 14 anos. Após a revisão das supostas provas, o juiz do caso concluiu que elas não comprovavam a culpa do presbítero.

Caracol - Twitter

 

O pe. Ramírez tinha sido preso em 2012, depois de uma juíza aceitar o pedido de prisão contra ele como “medida de segurança”. As acusações eram de “atos sexuais abusivos com menor de 14 anos e exploração sexual de menor”.

O advogado do sacerdote, Elmer Montaña, afirma: “Nós apresentamos à promotoria, desde o primeiro momento, uma série de testemunhos de que o menino tinha sido manipulado e induzido a dar essas declarações contra o padre”. Durante o processo, “foram cometidas sérias irregularidades”, acrescenta o advogado, particularmente na denúncia apresentada pelo pai do menor. “O pai não tinha conhecimento dos supostos fatos que denunciou. Ele mesmo contou, em depoimento, que, quando chegou à promotoria, eles o mandaram assinar uma denúncia. Além disso, a defesa provou que o menino mentiu para esconder uma situação em que tinha se envolvido na igreja”.

Na época de sua prisão, o pe. Ramírez era pároco da igreja de Maria Imaculada na diocese de Soacha, em Bogotá. Na cadeia, ele deu a bênção a vários reclusos e atendeu em confissão várias autoridades do presídio.

 

Caso 4: México, 2015

O pe. Guillermo Gil era pároco na igreja de Santa Rosa de Lima, na arquidiocese mexicana de San Luis Potosí, quando foi preso em 27 de junho de 2014 por, supostamente, ter abusado de um menor. No ano seguinte, foi absolvido porque nada se comprovou contra ele.

Não houve provas. As pessoas que o acusaram não se apresentaram sequer no processo canônico. A única coisa que se aguardava era a resolução do juiz, no âmbito civil, para encerrar também o processo canônico”, explicou Marco Luna, advogado da arquidiocese, acrescentando a respeito da família denunciante: “Faz um ano, eles foram chamados ao tribunal tanto para se formalizar o processo quanto para se oferecer a eles a ajuda que tinham solicitado. Mas a família mudou de domicílio e não tivemos mais possibilidade de localizá-la. Extraoficialmente, sabemos que eles apresentaram uma carta ao tribunal, há cerca de quinze dias [na época da entrevista, em 2015], dizendo que não queriam mais saber de nada”.

Libertado, o pe. Guillermo Gil foi recebido pelos familiares e, com autorização do bispo, passou um tempo com a mãe e as irmãs, também afetadas pelo trauma da prisão injusta do sacerdote.

Marco Luna observou que, “tanto no caso do pe. Guillermo Gil quanto no do pe. José de Jesús Cruz, desde o começo não havia certeza, não havia provas das acusações. Mesmo assim, eles foram presos e ficaram nessa situação durante quase um ano”.

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