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Os mistérios dolorosos da vida

Lorena Moscoso - publicado em 13/04/17

“Tome a sua cruz e sega-me”

Há alguns meses, falando com uma amiga sobre o problema de um amigo em comum, ela me dizia: “Pobre daquele que não tem uma cruz”. Naquele momento, não dei muita importância ao que ela falou. Mas parece que, nos últimos dois meses, a frase ficou grudada em mim.

Entendo que Deus permite dificuldades em nossas vidas porque elas são uma maneira de nos voltarmos a Ele e de nos transformarmos. Sem as dificuldades em nossas vidas, não veríamos a realidade de Deus. Seríamos seres imaturos.

Apesar das dificuldades da minha vida, sei que Deus está no meu caminho permanentemente, como uma rocha. Por isso, às vezes os problemas não são tão grandes para mim. Então, enquanto eu orava e pensava sobre aquela frase da minha amiga, comecei a duvidar da existência de uma cruz na minha vida. Uma cruz que fosse a fonte de minha transformação e maturidade. Será que ela ainda está para se apresentar a mim? Angustiava-me só de pensar que esta cruz poderia se apresentar como uma prova muito dura. Quiçá na forma de doença de meus filhos, algo profundamente doloroso. Às vezes, pensava que realmente não queria nenhuma cruz.

Enquanto eu refletia sobre os mistérios dolorosos de Jesus, pude perceber que, na minha vida, existiram e existem eventos que têm o sabor amargo, como o que deixam estes mistérios:

– Primeiro mistério: a Oração do Horto (a dor da traição e do abandono);

– Segundo mistério: a flagelação (as feridas);

– Terceiro mistério: A Coroa de Espinhos (a provocação ao coroá-lo);

– Quarto mistério: O caminho ao Calvário (a cruz nas costas, as quedas) e

– Quinto mistério: Crucificação e Morte (a dor do silêncio).

Nos três primeiros mistérios, pude ver a minha cruz. Em algum momento de nossas vidas, todos sentimos a dor da traição, entendemos o abandono, sabemos o que é a solidão, porque, no fim do dia, estamos sozinhos com o peso dos nossos problemas e o silêncio. Também arrastamos as feridas que nos lembram a traição.

No entanto, nos mistérios seguintes, pude ver algo diferente: de que maneira Cristo levava sua cruz? Sabendo que era a vontade do Pai, começou a orar no Getsêmani: “Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua” (Lucas 22,42).

Cristo entendeu a vontade do Pai… e se fez dócil. Docilmente, aceitou a provocação com que o coroaram como Rei dos Judeus. Carregou sua cruz como deveria, o que exigia um esforço descomunal.

Ao cair, ele viu os rostos de pessoas que o ajudaram. Na primeira estação, estava Maria, sua Mãe, que no caminho, fortalecia-o com seu olhar, para que Ele não caísse. Também estavam lá os que lhe deram água e os que o levantaram. Estas pessoas me lembravam daqueles amigos que estiveram presentes comigo em meus momentos de crise, aqueles que me ouviram. Jesus permitiu que Deus pudesse trabalhar nele.

Finalmente, o quinto mistério – a morte. Mas o que Deus quis com a morte depois do Calvário? Depois da cruz, irremediavelmente, está a morte. Mas também a ressurreição, o renascer como homens novos e transformados.

A luz que o quinto mistério quer nos mostrar é este renascer. A morte é a morte a que Cristo nos chama e da qual fala a parábola da semente de trigo: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12,24)
Cristo entende nossos problemas; Ele passou por todos. É melhor carregar nossas cruzes junto a Ele, porque o caminho será mais leve. È bom olhar para ele como se fôssemos crianças, segurando na Sua mão, contando para Ele o quanto sofremos.

Também é bom observar com o coração a humildade com que este Homem de Deus lidou com sua dor: com doçura, pois se enfrentarmos os nossos problemas com agressividade, não poderemos nos transformar.

Se a história tivesse sido diferente, e Cristo não tivesse entregado sua vida à vontade do Pai, não teriam sido possíveis a ressurreição e a redenção. Isso quer dizer que, sem a morte de Cristo, não seria possível uma nova humanidade, nem a vida eterna, muito menos o fato de alcançarmos a Deus. Somos barro nas mãos do oleiro. E o oleiro é Deus…

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