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Religiosidade varonil: muito além do sentimentalismo

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Aleteia Brasil - publicado em 26/04/17

Religiosidade é o culto de Deus conjuntamente prestado pela razão, pelo coração e pela vontade

Apresentamos a seguir um excerto da obra de dom Tihamer Toth (1889-1939), bispo húngaro da diocese de Veszprém que se tornou bastante reconhecido pela dedicação à formação do caráter dos jovens. Neste fragmento, ele fala da religiosidade varonil.

Muitos jovens se afastam da vida religiosa ao verificarem o contraste entre a aparente religiosidade exterior de alguns companheiros e sua esterilidade espiritual. Outros trazem à prática da religião demasiado sentimento e, por seu sentimentalismo, fazem com que a religiosidade seja mal interpretada pelas pessoas sérias. Religiosidade é o culto de Deus conjuntamente prestado pela razão, pelo coração e pela vontade. O coração ou sentimento tem, pois, também seu papel, mas um elemento não deve demasiar-se em detrimento dos outros dois. (…) E quando a religiosidade é real e varonil? Podem alguns ter ideias de religião adulteradas quanto quiserem: não poderão negar que ela é um dos mais belos ornatos que constituem a verdadeira nobreza do homem. Em nossos tempos, tentaram tirar da religião a sua autenticidade e substituí-la por diversas especulações científicas. Em vão! Onde se atacou a religião, começou a decadência da virtude, da honestidade, do sentimento do dever, da consciência, do caráter — numa palavra, dos mais belos ideais da humanidade. Podemos buscar exemplos na história dos antigos gregos, dos romanos e de outros povos. Ali, a vida dos próprios sábios, que procuravam tudo o que era bom e nobre, não se isentava de falhas, porque eles não conheciam a verdadeira religiosidade. Mas o que é a verdadeira religiosidade? Verdadeira religiosidade é a submissão da alma humana a Deus, nosso Criador e Supremo Fim. O ato de “nos dobrarmos” dá forças contra o nosso egoísmo, nos torna independentes do mundo e das nossas inclinações desregradas. A religiosidade prodigaliza à alma tal ascendência sobre o mundo que Kant a chamou, com razão, de “medicina universal”, pois nos torna capazes de suportar todas as penas. Um grande general dizia: “Ser soldado é não comer quando se tem fome, não beber quando se tem sede, ajudar o companheiro ferido quando mal se consegue ir de arrasto”. Ser soldados de Cristo, no entanto, significa ser religiosos: não cometer pecado, muito embora a tentação nos alicie; cumprir em todos os momentos o dever, por mais tedioso que nos pareça; servir a Deus pelo cumprimento heroico de todas as obrigações da vida. Se salvares alguém de um incêndio, ou retirares da água quem está se afogando, farás uma ação heroica. Em outras circunstâncias, porém, terás o mesmo merecimento se recolheres um caco de vidro ou uma casca de laranja para evitar que alguém corte o pé ou quebre uma perna. Ouvi contar que um jovem aventuroso tinha se sentado à margem do Danúbio esperando que alguém caísse na água para poder salvar esse alguém. Entrementes, ele perdeu mil ocasiões pequenas, que se teriam apresentado diariamente, para fazer algum bem. O valor de uma boa ação não depende do grau de dificuldade, do tempo que durou, mas da prontidão, atenção, alegria e espírito de sacrifício com que foi realizada. Meu ideal não é um jovem de quem uma interpretação errônea da religiosidade arranque a alegria, o temperamento juvenil. Na realidade, há “jovens piedosos” que se retraem timidamente dos camaradas, não têm amizades e consideram inconveniência e até pecado um bom humor tumultuoso e chistes inocentes. São indubitavelmente jovens sinceros e dignos de respeito, mas julgam, ilusoriamente, que o sentimento religioso se restringe apenas a exterioridades. O jovem deveras religioso nunca é excêntrico. Não fala muito de religião, mas vive segundo ela; com isso não quero dizer que dela se envergonhe. Entre bons companheiros, não procura ser a todo custo o mais valente; em companhia, porém, de camaradas levianos, não cede nem um ponto sequer de suas convicções. Infelizmente, na alma de muitos jovens, o sentimento religioso murmura apenas como um fio de água! Há, lá longe, acima das nuvens, um bom velhinho, Deus, a quem devemos rezar, de vez em quando, ou porque dele queremos alguma coisa ou porque o tememos; nisso consiste toda a sua religiosidade… Santo Deus! Que esqueleto de religiosidade é essa, que pão seco em vez de alimento vivificante! O jovem de fé profunda não representa a Deus muito acima das nuvens, já que Ele é incomensurável e ocupa o mundo inteiro, “pois, nele vivemos, nos movemos e somos”, e, mesmo que o quiséssemos, não poderíamos fugir dele. Nem por sombra deveríamos fugir de Deus: Ele é o amor infinito, que nos obriga a dobrar os joelhos; é a bondade inesgotável que atrai o coração do homem com força magnética. Para o jovem verdadeiramente religioso, Nosso Senhor não é uma ideia oca, uma vida que se aprende: onde nasceu, onde viveu, onde padeceu… Jesus é para ele uma realidade, cujo ser divino se grava em sua alma e nela se incorpora. Sem Ele a alma é uma gélida câmara frigorífica; no melhor dos casos, um jazigo mortuário, ornado de joias preciosas; sempre, contudo, um túmulo sem vida, sem calor, sem coração a pulsar. Muitos jovens consideram que a religiosidade é certo gosto de rezar e ir à igreja. São apenas formas exteriores de religião – aliás, necessárias; mas, se a religiosidade se resumir só nisso, corre o perigo de ser mera exterioridade. Por verdadeira e varonil religiosidade eu entendo muito mais. Entendo a ideia que enche toda a minha vida; o pensamento de que, em todo o meu ser, em cada pulsação do coração, a todo instante, com todos os meus pensamentos, eu sou um servo humilde do Pai Onipotente, ao qual, portanto, gosto de rezar, cujas igrejas visito com alegria, mas a quem também quero servir em toda hora, com todos os meus alentos. Para o jovem realmente religioso, rezar não é somente recitar o pai-nosso, mas qualquer trabalho e o próprio recreio. Oração é sua refeição, seu estudo, o cumprimento dos seus deveres, a sua vida toda, porque quer com isso glorificar a Deus. Vê, meu filho, isto é religiosidade varonil! Já refletiste dessa maneira sobre o que significa ser um jovem religioso? O que saberá de tudo isso o jovem sem vibração de alma, para quem a religiosidade consiste em recitar sem atenção, à noite, a sua oração, e assistir à missa aos domingos porque é obrigatório? Pobrezinho! Contenta-se com um fio de água quando tem à mão torrentes copiosas de águas vivificantes! Verdadeira religiosidade é alegria e consolação, estímulo e vibração na vida do homem!

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Dom Tihamer Toth, em “Religião e Juventude”

Tags:
JuventudeReligião
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