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Crise vira drama para bailarinos e músicos do Theatro Municipal

Agências de Notícias - publicado em 23/06/17

Quando Filipe Moreira, primeiro-bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sobe no palco, sua leveza e porte atlético encantam a plateia. Mas o seu maior desafio atualmente é sobreviver trabalhando 14 horas por dia como motorista da Uber.

Assim como os mais de 500 outros funcionários do mais tradicional teatro do Rio, à beira da falência, o jovem de 36 anos não recebe um salário adequado desde meados de 2016.

Por conta disto, Moreira começou a trabalhar como motorista. Enquanto isso, outros começaram a dar aulas, alguns vivem com as economias que guardaram, e os demais sobrevivem com as doações de alimentos do público – uma cesta mensal de macarrão, óleo de cozinha e alimentos não perecíveis.

“Perdemos as mínimas condições de viver”, conta Moreira no teatro localizado no centro do Rio, cidade que há apenas um ano recebeu as Olimpíadas.

A recessão severa e a corrupção de políticos e empreiteiras nas construções para a Copa do Mundo de 2014 e para a primeira Olimpíada da América do Sul corroeram os serviços públicos no estado do Rio.

Policiais, hospitais e escolas se mantêm com pouco dinheiro, enquanto os projetos de infraestrutura estão inacabados.

No Theatro Municipal, lar de uma das melhores companhias de ópera e balé do país, os salários, em média de 5.000 reais, chegam com pelo menos dois meses de atraso. O bônus concedido em dezembro ainda não foi pago.

Como a esposa de Moreira, também bailarina, não está recebendo o salário e eles têm um filho de cinco anos para criar, o artista não teve escolha a não ser começar a trabalhar para a Uber em março – um trabalho, conta, que contraria uma vida inteira “dedicada à arte, à dança”.

Como bailarino principal, ele tem que ensaiar diariamente, fazer pilates, ir à academia e fazer fisioterapia. Entretanto, há dois meses está preso ao volante do carro de sua mãe seis dias por semana.

“Eu ‘fiz’ Uber durante dois meses, que foram os meses mais críticos. Eu ficava por volta de 12, 14, até 15 horas dirigindo”, contou. “Quando você chega [em casa], você está estressado, cansado”.

“O físico de um bailarino […] é comparado ao de um atleta de alto nível […] Com a paralisação, nós perdemos tudo isso. Os bailarinos começam a engordar, perder a forma”, diz, estimando que podem levar cerca de três meses para recuperar cada mês longe das dietas rigorosas.

A parte de um dos últimos salários finalmente chegou neste mês: somente 700 reais de um contra-cheque de R$ 7.000.

“Você come”, declara. “Mas como pagar as contas?”.

– “Crise moral” –

Há ainda uma situação pior na fundação público-privada Orquestra Sinfônica Brasileira, que também se apresenta no Theatro Municipal.

Fundada nos anos 1940, a OSB percorreu e gravou ao redor do mundo, tocando com similares de Leonard Bernstein, Zubin Mehta, Mstislav Rostropovich e José Carreras.

Atualmente, a orquestra está silenciosa. Sua temporada de 2017 foi cancelada depois de oito meses sem salários e nenhum sinal de uma recuperação dos governos estaduais e federais, afundados em casos de corrupção.

Alguns músicos da OSB começaram a trabalhar com a Uber, outros se mantiveram tocando em casamentos e fazendo pequenos shows. Alguns realizam espetáculos nas ruas. Eles também compartilham os alimentos doados para o Theatro Municipal, onde os suprimentos são empilhados em uma sala do térreo.

A violoncelista Deborah Cheyne, do sindicato dos músicos, diz que a má gestão, não apenas a falta de dinheiro, condenou a orquestra em seu 77º ano, assim como o colapso do Rio de Janeiro e do Brasil.

“É o resultado de uma crise moral”, declara Cheyne, de 53 anos, “um pequeno retrato do todo”.

– Roda da fortuna –

Nesta semana, os artistas do Theatro Municipal responderam à crise da melhor maneira que conhecem – com uma música poderosa.

As quatro apresentações de “Carmina Burana”, de Carl Orff, que combina orquestra, dança e ópera, se apresentou com casa cheia. No fim, os músicos se uniram aos cantores, dançarinos e técnicos no palco para os aplausos.

A diretora de balé Cecília Kerche, de 55 anos, disse que “Carmina Burana”, com um padrão de repertório, não substitui a péssima temporada de 2017 do teatro. Mas, pelo menos, eles estão fazendo o que amam.

“Fizemos isto para estar em cena”, declarou.

“Muitos de nossos colegas realmente estão em uma situação de penúria, não conseguem ter dinheiro para comer”, diz Ciro d’Araújo, de 41 anos, que faz parte do coral. “Queremos mostrar que estamos dispostos a fazer o que fomos contratados”.

No ato final, o coro cantou “O Fortuna”, que fala sobre a roda da fortuna da vida que gira constantemente.

De repente, a plateia se impressionou: a bailarina Viviane Barreto apareceu no palco grávida de oito meses.

Balançando enquanto o tom da música subia, Barreto, de 35 anos, acariciava a barriga. Os outros dançarinos se aproximaram dela em sinal de proteção – símbolo de um futuro de mais esperança.

“A fortuna, como a lua, muda”, cantava o coral. A cortina desceu.

Entre gritos de “bravo” e “bis”, surgiu um coro indignado pedindo a renúncia do presidente Michel Temer e do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão.

(AFP)

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