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As ciências e a "nova face de Deus"

Triff/Shutterstock

Pe. Ignacio Núñez de Castro - publicado em 27/06/17

Do "Arquiteto do Universo" ao "Princípio de Emergência e Liberdade": as ciências nos abrem a uma nova concepção de Deus

Depois da crise do mecanicismo no final do século XIX e princípio do século XX, as ciências nos abriram a uma nova concepção do universo – visão de mundo que condicionou também a imagem de Deus.

Do Deus cosmológico aristotélico, do Deus “arquiteto do universo”, do Deus “relojoeiro”, passou-se a uma imagem de Deus como “mente do universo” ou “princípio de inteligibilidade”. É frequente hoje falar do “Deus dos físicos”, o Deus que se revela na harmonia do existente, não de um Deus que cuide da sorte dos seres humanos na história. É o Deus da “religião cósmica” (vide Einstein).

Essa “religião cósmica” tem um duplo movimento: por um lado, ocorre uma desmitificação do cosmos pela ciência; por outro, existe maior conceitualização da imagem de Deus. O rosto de Deus fica reduzido à mente do universo, “causa final das entranhas do universo”, como dirá Paul Davies no seu livro “A mente de Deus”.

A revolução biológica a que estamos assistindo, junto com a mudança de paradigma de compreensão de um universo concebido como ordem para um universo concebido como caos de onde emergem a ordem e a vida, nos leva a uma imagem nova de Deus concebido como “princípio de emergência” ou de “liberdade absoluta”.

Aqui também a ciência atual pode ajudar-nos a purificar as imagens de Deus que fomos espontaneamente arrastando: ela pode levar-nos a encarar uma imagem de Deus talvez mais próxima do ser humano e com quem seria mais “fácil” dialogar, fundamentando a verdadeira atitude religiosa. Esta imagem de Deus como “princípio de liberdade e de emergência de todo o novo” está mais perto da imagem do “Deus vivo” da tradição judaico-cristã (Deus é assim chamado mais de trinta vezes na Bíblia).

A emergência de novidade e a capacidade de reproduzir e multiplicar estruturas altamente ordenadas e sumamente complexas permitiram a exuberante manifestação da vida. Esta concepção de um universo dinâmico e evolutivo nos ajudará a talhar uma imagem do Deus vivo “em Quem vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17, 28) e que possibilitou o desabrochar da vida.

Arthur Peacocke, no seu livro “Teologia para uma era científica”, afirma:

“Chegamos agora a uma etapa crucial desta jornada, a de nos perguntarmos até que ponto estes conceitos, modelos e imagens de Deus que foram crivados e refinados na experiência religiosa, em particular na experiência cristã, e confirmados pela reflexão filosófica, têm necessidade de ser modificados e enriquecidos pela impressionante visão de mundo que as ciências naturais nos oferecem”.

Não há dúvida de que, se formos congruentes com o que afirmamos, a ciência atual, nos seus grandes ramos da física e da biologia, nos oferece uma série de fundamentos intelectuais para enriquecer a imagem de Deus – ainda que no diálogo e na integração com a ciência sejamos conscientes de que nenhum recurso mundano, por mais nobre que seja, como é o caso da ciência, é apto para que nele seja talhado o “novo rosto de Deus”.

Sempre recairá sobre o ser humano o mandamento bíblico de não se construírem imagens definitivas de Deus (Dt 5,8). Mas a visão de mundo que as ciências nos oferecem pode ajudar-nos a ir purificando a nossa imagem de Deus e a Sua relação com o mundo: uma nova concepção da ação criadora de Deus num universo dinâmico e evolutivo, mesmo com a consciência de que nenhuma imagem ou modelo será definitivo. S. Tomás de Aquino já nos avisava de que um erro acerca das criaturas pode conduzir-nos a uma falsa imagem de Deus (“nam error circa creaturas redundat in falsam de Deo sententiam”; Summa contra Gentiles, Liber II, C III, núm. VI).

“Neste processo, devemos superar toda tendência a um reducionismo unilateral, ao medo e ao isolamento autoimposto. Criticamente importante é que cada disciplina continue a enriquecer, fortalecer e desafiar a outra, para que cada uma seja mais plenamente o que lhe cabe ser” (São João Paulo II).
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