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Longe da glória olímpica: a luta de um atleta refugiado no Brasil

© JEWEL SAMAD / AFP

Agências de Notícias - publicado em 06/07/17

A lembrança mais vívida de Popole Misenga é a torcida gritando seu nome.

Após uma vida de guerra e pobreza na República Democrática do Congo, Misenga se encontrava no Rio de Janeiro, competindo no torneio de judô dos Jogos Olímpicos do Rio-2016 como parte da primeira equipe internacional de refugiados da história.

Misenga estava estendido no tatame, encurralado dentro de uma chave de braço pelo adversário indiano, a segundos da eliminação nos Jogos Olímpicos. Ninguém – imaginava ele – se importaria.

E, de repente, veio o canto: “Popole, Popole, Popole!”.

Em um esforço impressionante, Misenga libertou seu braço e ganhou a luta.

O momento de glória continua fresco em sua memória.

“Meu braço estava quase quebrando”, lembra ele, com a voz emocionada.

“Então, comecei a ouvir as pessoas gritando ‘Popole, Popole, Popole’ e pensei: ‘Não, se as pessoas estão torcendo por mim, não posso desistir”.

Misenga mostra uma foto tirada após a luta, na qual é possível vê-lo com os braços erguidos diante do público da arena.

“É muita emoção”, afirma.

Onze meses depois, esse rapaz de 25 anos não se parece com alguém que já foi ovacionado por uma arena lotada, muito menos com um atleta olímpico.

Hoje, Misenga vive numa violenta favela carioca, imprensado junto com a companheira e os cinco filhos num barraco de dois pequenos quartos. Ele ainda é pobre e ainda é um refugiado, a 6.600 km de distância de sua terra natal africana.

– O perigo de treinar –

Em Brás de Pina, uma favela no norte do Rio, Misenga e sua namorada brasileira, Fabiana, têm uma pequena cozinha e um quarto com uma cama. O casal divide esse espaço com a bebê Maria Eliza, de sete meses, com Helias, de dois anos, e com os três filhos de um relacionamento anterior de Fabiana, de seis, oito e 13 anos.

“Mal conseguimos dormir”, lamenta Misenga, com dreads no cabelo e de físico musculoso.

Do lado de fora, na rua suja, um grupo de homens fuma maconha na porta de um barraco, acompanhados de cachorros vira-latas. Carros são raros, lojas também.

Como em muitas favelas, Brás de Pina é um campo de guerra entre policiais e traficantes. Tiroteios são um perigo constante, como mostra uma marca de tiro na parede da casa de Misenga.

O trajeto do atleta até a academia de judô do outro lado da cidade nem sempre se dá como planejado.

“Outro dia, não pude sair para treinar porque todo mundo estava se escondendo dentro de casa”, relata.

“Eu ia sair, mas, como tenho uma mochila, os bandidos poderiam me confundir com um policial, ou a Polícia poderia me confundir com um bandido”, acrescenta.

Até sair para correr é perigoso: significa cruzar o território de uma facção rival.

“Eles falam: ‘você não mora aqui, você mora lá, não pode entrar aqui’. Correr é impossível”, desabafa.

– Estrela por um dia –

Antes dos Jogos Olímpicos de agosto do ano passado, Misenga era uma celebridade.

Ele foi um dos dez refugiados do mundo todo escolhidos para competir sob a bandeira olímpica. Equipes de televisão internacionais viajavam até Brás de Pina para ouvir o relato de sua incrível história.

“As Olimpíadas me deixaram famoso”, afirma, rindo. “As pessoas me reconheciam na rua, falavam: ‘É o caro das Olimpíadas’”, completa.

Misenga tinha apenas dez anos quando foi separado da família durante a guerra congolesa de 1998-2003, que deixou milhões de mortos. Após fugir sozinho para a floresta, acabou vivendo em um campo de refugiados das Nações Unidas. Foi lá que aprendeu e deslanchou no judô.

O atleta talentoso venceu o campeonato regional e chegou à seleção. O sucesso esportivo lhe trouxe novas misérias, porém, devido à crueldade dos técnicos. Quando perdia, era preso em uma jaula, sem comida.

Quando Misenga foi enviado ao Rio para competir no Campeonato Mundial de 2013, ele fugiu de novo, desaparecendo na cidade da mesma maneira que havia feito para se esconder da guerra na floresta.

Ao lado de uma judoca congolesa chamada Yolande Mabika, Misenga recebeu status de refugiado e foi colocado sob os cuidados do Instituto Reação, uma ONG criada pelo ex-judoca brasileiro Flávio Canto, medalhista de bronze nos Jogos de Atenas-2004.

Uma vez integrados à equipe de refugiados do Comitê Olímpico, esses dois congoleses puderam treinar ao lado dos judocas brasileiros que competiriam na Rio-2016, mas com muito menos tempo de preparação até os Jogos.

Mabika foi eliminada na estreia. Já Misenga surpreendeu, ao conseguir chegar à segunda luta.

Desta vez, ele precisou encarar o número 1 do mundo e, mesmo não tendo qualquer chance de vencer, lutou ferozmente, o que lhe rendeu uma ovação ainda maior da torcida brasileira.

Depois, o sonho acabou. Ele estava de volta à favela.

– A luta mais importante

Misenga ainda recebe uma ajuda de custo do Comitê Olímpico Internacional (COI). O órgão disse à AFP que continua comprometido com apoiar plenamente os refugiados, para que possam se dedicar ao esporte de forma integral.

O dinheiro permite a Misenga viver e se locomover todos os dias até o Instituto Reação – e só. Diferentemente de outros atletas olímpicos, ele não conta com qualquer patrocínio.

Fabiana, de 34 anos, afirma que as coisas estão melhores do que há um ano. O casal tem uma geladeira nova e uma mesa de jantar.

“A vida melhorou financeiramente”, garante.

“Temos dinheiro para pagar o aluguel e coisas para as crianças”, acrescenta.

Eles sonham com encontrar um patrocinador para Misenga, o que lhes permitiria economizar algum dinheiro e até comprar um apartamento próprio na favela. Ainda estão longe disso, porém.

No momento, a preocupação mais imediata é com as taxas de inscrição de Misenga nas competições que ele disputa. Apenas para chegar ao treino, são quatro passagens de ônibus por dia.

As dificuldades financeiras ferem o orgulho de Misenga.

“Eu me sinto muito diferente dos outros atletas olímpicos, porque eles têm bons patrocinadores”, desabafa.

“Eu não tenho patrocínio. porque sou refugiado”, lamenta.

Com um português básico e com pouca experiência fora do judô e dos campos de refugiados, Misenga teria poucas oportunidades de trabalho, mesmo se decidisse largar o esporte.

Ele fala de boxe e de se tornar um lutador de vale-tudo: “Eu adoraria que alguém dos Estados Unidos viesse e dissesse: ‘Popole, você vai lutar MMA’”.

Mas sua maior luta ainda acontece, todos os dias, longe do tatame, ou do octógono.

“Meu sonho é simples”, confidencia o atleta.

“Dar segurança pro meu filho, pra minha família, porque um dia você fica velho. Você não fica forte para sempre, e eu preciso ajudá-los”, encerra Misenga.

(AFP)

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