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O Crucifixo de São Damião

cruz de São Damião

Creative Commons

Aleteia Brasil - publicado em 11/07/17

A imagem medieval que marcou para sempre a vida de São Francisco de Assis

O Crucifixo de São Damião foi pintado no século XII por um desconhecido artista da Úmbria, região da Itália Central. A pintura no estilo romântico tem clara influência oriental (o pedestal sobre o qual estão os pés de Cristo, pregados separadamente) e siríaca (a barba de Cristo; a face circundada pelo emoldurado dos cabelos; a presença dos anjos e a cruz de longa haste segurada na mão por Cristo, só visível na pintura original, no alto, encimando a cruz).

O Crucifixo original de São Damião é guardado com grande zelo, pelas irmãs Clarissas, na Basílica de Santa Clara de Assis. Visitado por estudiosos, devotos e turistas do mundo todo, ele é um monumento histórico franciscano e universal.

Outros dados

• Sem o pedestal, o Crucifixo original mede dois metros e dez centímetros de altura e um metro e trinta centímetros de largura.

• A pintura foi feita em tela tosca, colada sobre madeira de nogueira.

• Naquele tempo, nas pequenas igrejas, o Santíssimo não era conservado: isto é, a Eucaristia não era guardada, mas consumida no mesmo dia. Por isto, supõe-se que o Crucifixo foi pendurado na abside sobre o altar da capela, no centro da Igreja.

• Provavelmente, o Crucifixo permaneceu na Igreja de São Damião até que as Irmãs Pobres, em 1257, o levaram consigo à nova Basílica de Santa Clara. Elas o guardaram no interior do coro monástico durante diversos séculos. No ano de 1938, a artista Rosaria Alliano restaurou o Crucifixo com grande perícia, protegendo-o de deteriorações.

• Desde 1958 ele está sobre o altar, ao lado da capela do Santíssimo, na Basílica de Santa Clara, protegido por vidro.

Descrição detalhada da pintura

Cruz de São Damião
Public Domain

Descobre-se, à primeira vista, a figura central do Cristo, que domina o quadro pela sua imponente dimensão e pela luz que a Sua esplêndida e branca figura difunde sobre todas as pessoas que o circundam e que estão vivamente voltadas para Ele. Esta luz vivificante que brota do interior da Sua Pessoa (Jo 8,12) fica ainda mais destacada pelas fortes cores, especialmente o vermelho e o preto.

Também impressiona este Cristo ereto sobre a cruz e não pendurado nela, com os olhos abertos, olhando o mundo.

Apresenta ainda uma auréola de glória com a cruz triunfante oriental em vez de uma coroa de espinhos, porque Cristo se tornou vitorioso na paixão e na morte.

Aparecem os sinais da crucificação e as feridas sangrentas, mas o sangue redentor se derrama sobre os anjos e santos (sangue das mãos e dos pés) e sobre São João (sangue do lado direito).

Cristo se apresenta vivo, ressuscitado (Jo 12,32), de pé sobre o sepulcro vazio e aberto (indicado pela cor preta), visível por trás. Com as mãos estendidas, Cristo está para subir ao céu (Jo 12,32).

A inscrição acima da cabeça de Cristo, “Jesus Nazarenus Rex Judaeorum”, Jesus Nazareno Rei dos Judeus, é também citada no Evangelho de João.

Sobre a inscrição está a ascensão em forma dinâmica, na figura do Cristo ascendente, com o troféu da cruz gloriosa na mão esquerda (só visível na pintura original) e com a mão direita para a mão do Pai, no céu.

Do alto, a mão direita do Pai acolhe o Seu Filho, circundado dos anjos (e santos) na glória celeste.

As cores vermelha e púrpura são símbolos do divino; o verde e o azul, do terrestre. Para “ver” bem o conjunto da pintura, deve-se realmente parar diante do Crucifixo, pois, ordinariamente, olha-se a imagem somente, de longe, como “turista”.

À direita do corpo de Cristo aparecem as figuras de Maria e João, intimamente unidas, enquanto Maria indica o discípulo predileto com a mão direita (Jo 19,26). À esquerda estão as duas mulheres, Maria Madalena e Maria de Cléofas, primeiras testemunhas da ressurreição (Jo 19,25).

Embora Maria, à direita, e Maria Madalena, à esquerda, ergam a mão direita no rosto em sinal de dor, nenhuma das outras pessoas próximas manifesta expressão de sofrimento profundo, mas uma adesão cheia de fé ao Cristo vitorioso, Salvador.

À direita das duas mulheres vê-se o centurião com a mão erguida, olhando para o Crucifixo. Com esse gesto ele está a dizer: “Verdadeiramente este é o Filho de Deus”.

Sobre os ombros do centurião aparece a cabeça de uma pessoa em miniatura, cuja identidade se discute: poderia ser o filho do centurião, curado por Jesus (Jo 4,50), ou um representante da multidão; ou, ainda, o autor desconhecido da pintura.

Aos pés de Maria e do centurião vê-se o soldado chamado Longino, que, pela tradição, com a lança traspassa o lado de Jesus, e o portador da esponja, chamado de Estepatão segundo a tradição (Jo 19,29). Ambos estão voltados para o crucifixo.

Debaixo das mãos de Jesus, à direita e à esquerda, encontram-se dois anjos com as mãos erguidas, em intenso colóquio. Parecem anunciar a ressurreição e ascensão do Senhor.

As duas pessoas, à extrema direita e esquerda, parecem anjos ou talvez mulheres que acorrem ao sepulcro vazio.

Aos pés de Jesus, a pintura original está bastante deteriorada. É provável que se trate de São Damião, São Rufino, São João Batista, São Pedro e São Paulo. Acima da cabeça de São Pedro está a figura do galo (só visível na pintura original), a lembrar a sua negação a Cristo (Jo 13,38; 18, 15-27).

As pessoas aos pés de Jesus têm a cabeça erguida para o alto, expressando a espera do retorno glorioso do Senhor, no juízo.

Deste crucifixo descrito em detalhes, São Francisco de Assis teve uma inspiração “decisiva” para a sua vida, diz Caetano Esser. Passamos a descrevê-la porque é deste fato que se originou a admiração que hoje temos ao Crucifixo de São Damião.

O Crucifixo fala a São Francisco

O jovem Francisco estava em crise espiritual, cheio de dúvidas e trevas. “Conduzido pelo Espírito”, ele entra na igrejinha de São Damião e se prostra, súplice, diante do crucifixo. Tocado de modo extraordinário pela graça divina, encontra-se totalmente transformado. É então que a imagem de Cristo Crucificado lhe fala:

“Francisco, vai e repara a minha casa que está em ruínas”.

Francisco fica cheio de admiração e “quase perde os sentidos diante destas palavras”. Mas logo se dispõe a cumprir esse “mandado” e se entrega todo à obra, reconstruindo a igrejinha. Depois pede a um sacerdote, dando-lhe dinheiro, que providencie óleo e lamparina para que a imagem do crucifixo não fique privada de luz, mas em destaque naquele santuário. A partir de então, nunca se esquece de cuidar daquela igrejinha e daquela imagem.

Francisco parecia intimamente ferido de amor pelo Cristo Crucificado, participando da Paixão do Senhor, de quem já trazia os estigmas no coração e, mais tarde, em 1224, no próprio corpo.

Segundo Santa Clara, esta visão do crucifixo foi um êxtase de amor radiante e um impulso decisivo para a conversão de Francisco.

Entre os estudiosos ainda existe uma dúvida a ser esclarecida: ao ouvir o Cristo do crucifixo, Francisco pensa na igrejinha material de São Damião. Mas nada impede de se pensar que se trata do “templo de Cristo no coração de Francisco e no coração dos homens”.

Enfim, a própria oração de Francisco diante do Crucifixo de São Damião sugere antes a reparação “espiritual” da casa do Senhor, crucificado no coração, tanto que ele pede especialmente as três virtudes teologais (fé, esperança e amor) para poder cumprir esse “mandado” de Cristo.

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A partir de texto do frei Vitório Mazzuco, no site Franciscanos.org

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