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A esposa de Peter se divorciou contra a vontade dele. E agora: Peter é o quê?

Divorced couple – pt

© Mincemeat/SHUTTERSTOCK

Robert McTeigue, SJ - publicado em 13/07/17

A história que eu gostaria de contar aos padres do sínodo de 2015 sobre o amor fiel até o fim

Agora que o Sínodo Extraordinário sobre a Família terminou, você por acaso não se pega dizendo: "Ah, eu queria ter dito tal coisa para os padres sinodais…"? E, considerando que o Sínodo Ordinário sobre a Família está marcado para daqui a um ano, você por acaso não se pega dizendo também: "Ah, mas para o próximo sínodo sim eu espero dizer tal coisa para os padres sinodais!"?

Pois bem: aqui vai o que eu gostaria de contar aos padres sinodais, deste ano e do próximo, para que eles refletissem. Eu gostaria que eles refletissem sobre o meu amigo Peter (ele me deu permissão para relatar esta história).

O Peter é um velho amigo meu, participativo na sua paróquia, generoso como você talvez jamais pensasse que alguém pudesse ser. Cerca de quatro anos atrás, depois de 30 anos de casamento, a esposa dele o abandonou. O Peter ficou arrasado. "Padre, eu não desejaria este sofrimento ao meu pior inimigo", diz ele.

Depois de terminado o processo do divórcio civil, vários parentes e amigos, muitos deles autodenominados católicos, aconselharam o Peter a tirar a aliança do dedo e "seguir em frente". Os conselhos deles, em resumo, sempre repetiam mais ou menos as seguintes mensagens: "Ela não vai mais voltar. O casamento de vocês acabou. Tem outros peixes no mar. Deus quer que você seja feliz. Você não tem por que ficar sofrendo desse jeito".

Peter, e isto deve honrá-lo muito, não deu ouvidos a esses conselheiros. Ele apontou para a sua aliança e respondeu a todos eles: "Eu sou um homem casado. Nós sabíamos o que estávamos fazendo no dia do nosso casamento. Sabíamos o que estávamos prometendo um para o outro e também para Deus. Sabíamos o que Deus tinha prometido para nós". Peter mergulhou nos sacramentos. Ele não sabe viver sem a adoração eucarística, o terço e a misericórdia divina. "Eu não vou parar de rezar pela reconstrução da minha família até o dia em que eu morrer". E, porque conheço o Peter muito bem, eu acredito nele.

Estou orgulhoso do Peter pela sua firmeza na decisão de pagar o preço de uma fidelidade muito cara. Estou orgulhoso do Peter pela herança que ele está legando aos seus jovens filhos. Dentro de alguns anos, os filhos dele poderão dizer aos seus próprios filhos: "Quando a vida bateu com dureza no vovô, ele não desistiu da vovó e ele não desistiu de Cristo. Ele carregou a sua cruz e seguiu a Cristo até o fim. E, desse jeito, não há como fingir que se segue a Cristo. O vovô carregou a cruz dele todos os dias". Que legado para os filhos e netos! Que dignidade em seu sereno sofrimento diário! Que generosidade em sua humilde esperança diária!

Eu me pergunto o que algumas pessoas envolvidas com o sínodo poderiam dizer ao Peter. Pode ser que alguns dissessem: "Peter, sorria! Por que tanta seriedade? Deus não espera isso de você! Deus sozinho não é suficiente para o seu coração. Por que esperar tanto assim da graça de Deus? Você não vai poder viver desse jeito até o dia de morrer! Por que você não faz o que precisa fazer para ser feliz? Por que não tirar o melhor de uma situação ruim, como tanta gente faz?".

Tenho certeza de que Peter responderia: "Mas eu sei o que nós prometemos e sei o que Deus prometeu. Deus é fiel e eu tenho que ser fiel também. E Deus está me ajudando a ser fiel"!

Como eu li a tempestade de palavras em torno do sínodo, sou quase obrigado a pensar que pelo menos algumas pessoas achariam Peter um idiota ou, pelo menos, um homem constrangedor. Eu me lembro da unção de Betânia, em Marcos 14,4 ("Alguns dos presentes, indignados, diziam uns aos outros: Por que este desperdício?"). Será que eles diriam a Peter que a sua custosa fidelidade é uma extravagância desnecessária? Peter diria que apenas cumpriu o seu dever (Lucas 17,10) – e que ele é um homem melhor graças a esse cumprimento. Ele sabe que Deus, quando revela a sua vontade, também concede a graça para que essa vontade seja vivida – e a concede a todos aqueles que pedem essa graça. Peter sabe que Deus revelou que, como homem casado, ele deve permanecer fiel até a morte. Peter pediu essa graça – e a está recebendo.

Ainda assim, dói a Peter ouvir os apelos de amigos bem-intencionados e ler muitas opiniões que pululam ao redor dos sínodos; opiniões que parecem sugerir que a sua fidelidade não é o que Deus manda, não é o que Deus espera, não é o que Deus ajuda a transformar em realidade. Dói-lhe acima de tudo que a fidelidade do próprio Deus, a generosidade do próprio Deus em conceder a graça suficiente para vivermos os Seus mandamentos, pareça ser negligenciada ou menosprezada por tanta gente, inclusive por muitos dos autodenominados católicos. Peter insistiria: "Eles falam da misericórdia de Deus. A misericórdia de Deus é encontrada na Sua graça, que nos é concedida para vivermos a Lei do Amor. A misericórdia de Deus nunca pode ser procurada nas desculpas inventadas para não se fazer o que o amor exige".

Ao longo dos últimos quatro anos, Peter e eu conversamos várias vezes por semana. Centenas e centenas de telefonemas. Eu sei que ele sofre mais quando é atormentado pelas pessoas mais próximas, que insistem para que ele "encare os fatos" e "siga em frente". Ele me perguntou muitas vezes: "Por que eles se incomodam com o fato de que eu uso a minha aliança e me comporto como o homem casado que eu sou?".

Eu tenho pensado muito nesta questão. E a repito aqui porque acho que ela pesa em vários dos relatórios que ouvimos ao longo deste sínodo. Eu disse ao Peter que algumas pessoas não gostam de vê-lo usando a aliança de casamento pela mesma razão de não gostarem de visitar os doentes nos hospitais. Nos dois casos, elas são forçadas a se lembrar da sua própria vulnerabilidade. Ao visitar um paciente numa cama de hospital, nós não ficamos inclinados a pensar: "Eu também posso ficar doente e morrer"? Não conseguimos suportar a ideia da nossa própria vulnerabilidade à doença; por isso, evitamos os “lembretes” de que a doença e a morte vêm para todos.

Da mesma forma, o abandono que Peter sofreu por parte da esposa nos recorda que todos nós somos vulneráveis ​​à decepção e à traição (e que todos nós somos capazes de decepcionar e trair). A dor de Peter foi dilacerante nos últimos quatro anos e eu desejo a ele o alívio; mas não à custa da sua alma. Peter concorda comigo. Assim, ele se confia aos tesouros da graça, oferecidos a ele pela Igreja fundada por Cristo. Ele vive a sua custosa fidelidade – diariamente – com a indispensável ajuda da graça de Deus.

E é isto o que assusta as pessoas. As pessoas olham para o abandono de Peter e para a sua dor e se afastam, como se afastariam de um paciente acamado para se esquecerem da doença e da morte. Elas olham para a dor de Peter e pensam: "Podia ser eu". É claro que essa perspectiva é aterrorizante. Elas imaginam que, no meio de uma dor tão grande, elas buscariam o caminho mais rápido para o alívio mais óbvio: "seguir em frente". Se Peter se rendesse, essas pessoas provavelmente dariam um suspiro de alívio, porque aquela desistência significaria que é inevitável a busca delas próprias por atalhos para escapar da dor, já que "todo mundo faz isso" e "Deus só quer que nós sejamos felizes".

Eu suspeito que, ao verem Peter, algumas pessoas ficam com medo e com ressentimento – medo porque ele foi traído; ressentimento porque ele se manteve fiel. Qualquer um de nós pode ser traído; sem a graça de Deus, qualquer um de nós pode ser um traidor. Se Peter, pela graça de Deus, permanece fiel, então não é impossível permanecer fiel à difícil Lei do Amor – difícil sim, mas não impossível. Isto significa que a vontade das pessoas de seguir o caminho mais fácil é uma questão de escolha e não uma questão de acaso. Elas são realmente responsáveis ​​pelas decisões que tomam. E se você não consegue confiar na fidelidade de Deus, então é quase impossível que você assuma a responsabilidade por essas decisões.

O Peter, com o sustento da graça de Deus, deveria ser um tema de conversa séria para toda a Igreja, de agora até o final do próximo sínodo. À luz da lei moral e da Sagrada Revelação, nós temos que dizer a Peter se Cristo o considera um fiel idiota, ou, como o próprio Cristo, um fiel amigo, que amou até o fim (João 13,1).

Tags:
CasamentoDivórcioSínodo
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