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As etapas da revolução sexual e uma pergunta no ar: qual será o próximo “avanço”?

KENZO TRIBOUILLARD / AFP

Tom Hoopes - publicado em 17/07/17

“Revolução sexual”: então era isto a “libertação”?

Amplos setores da sociedade, da academia e da mídia exaltam o já célebre “maio de 68” como um divisor de águas “positivo” para permitir a chamada “revolução sexual”.

Repassemos brevemente a história dessa “revolução” para ver como ela foi mudando a nossa cultura década após década:

Década de 1960:populariza-se a pílula e expande-se exponencialmente a independência entre o sexo e a gravidez. A atitude cultural no tocante ao sexo fora do casamento passa rapidamente das piscadelas da geração anterior à música rock e pop que louva o sexo livre, de “Let’s Do It, Let’s Fall In Love” até “Why Don’t We Do It In the Road?”. Nem todo mundo está fazendo sexo extraconjugal, mas, no final dessa década, quase todo mundo está proclamando o “direito” de fazê-lo.

Década de 1970:populariza-se o aborto e começa uma era de dramáticas ironias: o sexo é celebrado como diversão descomplicada, mas, por outro lado, é preciso matar os próprios filhos (que a natureza, essa reacionária, teima em continuar gerando mesmo quando o sexo é feito “por brincadeira”…). Os hippies fazem do sexo uma forma de “iluminação” e de “autorrealização”, enquanto os homens do tipo “machão”, de James Bond a Burt Reynolds, fazem dele uma forma de conquista.

Década de 1980:populariza-se o preservativo. Com as epidemias de doenças venéreas tornando o sexo mais perigoso do que nunca, o mantra passa a ser o do “sexo seguro”. As escolas orientam os estudantes a “dizer não” às drogas, mas lhes dão camisinhas para dizerem sim ao sexo. Produzem-se vídeos musicais e filmes direcionados especialmente a um público de adolescentes obcecados por sexo.

Década de 1990:populariza-se a lingerie sensual. A Victoria’s Secret fez sucesso com seus desfiles de moda íntima e até o presidente dos Estados Unidos é atraído pela “moda íntima” da estagiária Monica Lewinski. A roupa de baixo ainda não é o traje oficial das artistas femininas em cima dos palcos, mas cantoras como as Spice Girls e Britney Spears já começam a caminhar nessa direção.

Década de 2000:populariza-se a pornografia. O governo federal dos Estados Unidos já tinha dobrado a quantidade de leis relacionadas com atos obscenos na década de 1990, porque a internet vinha surgindo com força e recheada de um vasto arsenal de pornografia. O arsenal se multiplica espantosamente nos anos seguintes. O pornô se torna um gigantesco setor de negócios. Os homens começam a gastar muito tempo on-line sozinhos e a portas fechadas. E as mulheres, cada vez mais, também.

Década de 2010.O que vai ser popularizado agora? Já vimos a florescente indústria dos brinquedos sexuais e dos “sex shops” e sabemos que os tribunais estão ocupados em redefinir o próprio conceito de casamento, dissolvendo-o numa simples afirmação de sentimentos mais ou menos afetivos e retirando do seu núcleo a crucial missão de criar e educar solidamente os filhos.

Há segmentos das ciências sociais que avaliam as consequências da revolução sexual não como “libertadoras” e “emancipadoras”, mas sim como devastadoras para mulheres, homens, adolescentes e crianças. E é significativo que a maior mudança cultural pareça estar precisamente na degradação das mulheres, que, achando-se “livres”, comportam-se cada vez mais naturalmente como “servas” das diversas ramificações da indústria do sexo e da coisificação das pessoas, com todas as consequências mais óbvias da sensação de vazio e frustração que essa pseudolibertação envolve: depressão, estresse, alcoolismo, drogas, relacionamentos inconsistentes e descartáveis, solidão, insegurança, insatisfação permanente, instabilidade, pressão social para “estar na moda comportamental” e rejeitar “atitudes tolas, ultrapassadas e submissas”, como… amor, fidelidade, compromisso, respeito e compartilhamento decidido de uma vida real em comum.

Num ambiente desses, parece quase extraterrestre falar de algo como “pureza de coração”, que consiste, simplesmente, em ver os outros e ser visto como o que se é: como uma pessoa de dignidade infinita. A máxima tragédia da hipersexualização da nossa cultura pode ser exatamente a perda dessa pureza. Quando permitimos que os seres humanos se tornem meros objetos de prazer sexual, todos nós nos diminuímos aos olhos uns dos outros.

A década de 2010 bem que poderia popularizar esta importante mensagem: o poder das pessoas, sejam elas mulheres ou homens, não está na sua sexualidade, mas na sua humanidade.

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