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Pobreza leva meninos para fileiras talibãs no Afeganistão

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Agências de Notícias - publicado em 07/09/17 - atualizado em 07/09/17

Nos últimos meses, a Polícia afegã resgatou em situação de penúria dezenas de meninos destinados a engrossar as fileiras dos talibãs, um caso que revela os danos indiretos causados por uma pobreza crescente no Afeganistão.

As autoridades da província de Ghazni (centro-leste) anunciaram ter interceptado 38 jovens na fronteira paquistanesa. Alguns deles, de família muito pobre, têm apenas quatro anos de idade.

Eles haviam sido recrutados por traficantes que trabalham para os talibãs, com a esperança de receber educação gratuita em um madraçal (escola muçulmana), relatam as autoridades afegãs.

Segundo Cabul, inicialmente, teria sido doutrinados por mulás fundamentalistas no Paquistão e, depois, teriam sido treinados para cometer atentados no Afeganistão.

“Nossos pais sempre quiseram que fizéssemos estudos islâmicos, mas não sabíamos que nos enganariam e que iam lavar nosso cérebro para virarmos suicidas”, disse Shafiullah, um menino de nove anos, em conversa com a AFP, após ser resgatado pela Polícia.

– Abuso recorrente –

O uso de menores no conflito afegão é uma prática bem consolidada, mesmo entre as forças da ordem, nas quais seria habitual o exercício do “basha bazi” (escravidão sexual de jovens).

O caso dos menores de Ghazni ilustra uma técnica denunciada há tempos pelas autoridades afegãs e pelas ONGs, em especial a Human Rights Watch (HRW), que publicou um informe sobre o tema em 2016. Os insurgentes negam essas práticas.

O principal fator que alimenta esse fenômeno é a pobreza, afirmam os especialistas consultados pela AFP.

Incapazes de atender às necessidades de seus filhos, os pais acabam por confiá-los – muitas vezes sem saber – aos extremistas.

A AFP conseguiu conversar com várias dessas crianças, instaladas em um orfanato de Ghazni à espera do reencontro com suas famílias.

“Eles queriam levar a gente para um madraçal em Quetta (no Paquistão) pra gente cursar estudos religiosos em uma escola corânica. Falaram com meu pai, e ele concordou”, contou Nabihullah, de 9 anos.

“Dois talibãs vieram nos dizer que queriam nos levar para um madraçal em Quetta, não sei mais, mas foram detidos”, acrescentou outro menino, de 8.

Segundo o chefe da Polícia provincial, Mohamad Mustafá Mayar, entrevistado pela AFP, os garotos tinham entre 4 e 14 anos.

“Seus sequestradores lhes deram drogas que os faziam dormir e os atordoavam. Perderam a noção de tempo”, explicou.

No mês passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a prometer “secar o recrutamento” dos “terroristas”.

– Como uma prisão –

As famílias rejeitam a tese de sequestro, como Haji Nek Mohamad, avô de Paktika, de 70 anos. Segundo ele, seus três netos, com idades entre 8 e 13 anos, “iam para o Paquistão, onde estudam, quando foram detidos na autoestrada” na fronteira.

“Enviamos crianças para estudar nas escolas paquistanesas, mas não acho que sejam treinados para se transformarem em camicases”, defende-se o chefe tribal no mesmo distrito.

As autoridades afegãs dizem interceptar, com frequência, crianças-soldado.

Um deles, de apenas 11 anos, foi detido em Kunduz em junho passado, quando estava prestes a atacar policiais, convencido de que as forças da ordem eram “infiéis, ou estavam a mando dos infiéis”.

“Segundo parentes dos meninos recrutados, aos 13 anos, os meninos educados pelos talibãs adquiriram competências militares, incluindo o uso de armas de fogo e a produção e colocação de artefatos explosivos”, de acordo com relatório de HRW.

Autor de uma tese sobre as escolas corânicas paquistanesas, na Universidade Al Azhar do Cairo, Ahmad Shaheer confirma que essas instituições costumam recrutar menores entre as famílias pobres do Afeganistão. E que, às vezes, inicia-se um processo de radicalização dos pequenos, separados de suas famílias.

Entre 10.000 e 20.000 crianças afegãs passaram pelas escolas paquistanesas, completa.

A pobreza absoluta aumenta no Afeganistão, ressaltam o Banco Mundial e o governo, em um informe publicado em maio, segundo o qual 39% dos afegãos são incapazes de atender às suas necessidades básicas.

“A vida é muito dura para eles lá: não lhes dão nada para comer, têm que mendigar. Quando você tem 4, ou 5 anos, longe dos pais e sem possibilidade de voltar para casa, o madraçal é uma prisão”, explica Shaheer.

“Pouco a pouco, começam a detestar sua família, que não soube ajudá-los. Então, começa a lavagem cerebral”, concluiu.

(AFP)

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