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Muçulmanos, hindus e budistas em Mianmar: reconciliação distante

Pixabay

Agências de Notícias - publicado em 25/09/17

Houve um tempo em Mianmar em que barbeiros hindus aparavam as barbas dos vizinhos muçulmanos rohinyas. Mas, depois de um mês de violência mortal e da descoberta de fossas comuns de civis hindus, a reconciliação parece impossível.

“Éramos barbeiros dos muçulmanos, nossas mulheres iam vender suas mercadorias nos povoados muçulmanos. Tínhamos amigos muçulmanos, tudo ia bem”, lembra Kyaw Kyaw Naing, um hindu de 34 anos, capaz de alternar sem dificuldade entre uma língua regional e se expressar em outra, se seu interlocutor é um budista ou a um muçulmano.

“Queremos voltar, mas não se os muçulmanos ainda estiverem lá”, diz o hoje refugiado com outras centenas de membros de sua comunidade, em um estádio de futebol abandonado de Sittwe, capital regional do estado de Rakain, no oeste de Mianmar.

Sittwe se livrou da violência que castiga há um mês as localidades da região de Maungdaw, ao norte, na fronteira com Bagladesh.

E milhares de hindus e budistas que fogem dos confrontos entre os rebeldes muçulmanos e o exército encontraram refúgio no local.

A dimensão do movimento não tem nada a ver com o êxodo dos rohinyas para Bangladesh (mais de 430.000 em um mês, segundo a ONU, que fala de “limpeza étnica”). Mas, em Mianmar, o fato de que localidades hindus e budistas também terem sofrido com a violência é destacado pelas autoridades, que denunciam, ainda, a parcialidade da comunidade internacional a favor dos rohinyas.

Entrevistada pela AFP, Khin Saw Nyo, de 48 anos, uma cabeleireira budista refugiada em um mosteiro de Sittwe, conta como os moradores de um povoado muçulmano vizinho a obrigaram a partir.

“Disseram-nos que não escaparíamos da próxima vez”, “morreremos se voltarmos”, diz esta mulher que também se nega a voltar se seus vizinhos muçulmanos continuarem ali.

“Toda a nossa família morreu no povoado (…) Não voltaremos”, explicou Chaw Shaw Chaw Thee, no estádio de Sittwe.

Esta jovem de 20 anos assegura que 23 membros de sua família morreram nas mãos de rebeldes rohinyas em Kha Maung Seik. O exército anunciou no domingo a descoberta de uma fossa comum com 28 cadáveres de hindus perto desta localidade.

Chaw Shaw Chaw Thee ainda está à espera de saber se são seus familiares, enquanto o exército busca outras fossas comuns na região. Outros 17 cadáveres foram descobertos nesta segunda-feira no mesmo lugar.

– Mosaico étnico –

Com pouco mais de 8.500 habitantes hindus no estado de Rakain, esta comunidade representa apenas 0,28% da população total, contra 34% de muçulmanos e 57% de budistas, segundo dados do governo birmanês, que datam de julho de 2017.

No distrito de Maungdaw, epicentro da violência entre os rebeldes rohinyas e as forças de ordem, a população muçulmana era majoritária: mais de 90% dos moradores antes do êxodo das últimas semanas. Os hindus, por sua vez, representam algo mais que 0,6% e os budistas, menos de 5% da população total.

Esta forte presença muçulmana no estado de Rakain contrasta com uma população birmanesa budista de mais de 90% em todo o país. Suscita todo tipo de tensões, sobretudo desde que a ditadura militar, no poder há décadas, transformou os muçulmanos em inimigo interno do país.

Hindus e budistas acusam atualmente os rohinyas de terem incendiado suas casas e sequestrado suas mulheres para convertê-las. Acusações que devem ser interpretadas com precaução, devido à guerra de informação que as comunidades travam.

Os rohinyas denunciam batidas do exército, acompanhado de milícias budistas, contra seus povoados.

Para a imensa maioria dos birmaneses, os rohinyas são imigrantes do vizinho Bangladesh, que chegaram majoritariamente a Mianmar na época da colonização britânica.

É o mesmo caso dos hindus, mas a integração deles não representa problema, visto que o hinduísmo e o budismo são muito próximos.

“Não há solução de curto prazo (…) Chegar à harmonia pode demorar décadas”, analisa Oo Hla Saw, do Partido Nacional do Arakan, que representa os interesses políticos dos budistas do estado de Rakain (ex-Arakan).

(AFP)

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