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A inteligência moral

MORAL

Andres Garcia Martin - Shutterstock

Alfa y Omega - publicado em 26/09/17

A emoção é um autêntico motor moral, mas deve ser passada pelo filtro da razão e do discernimento

A inteligência é uma das potencialidades humanas mais estudadas, devido à sua complexidade, amplitude e profundidade. Não é de se estranhar que, ao longo do tempo, tenham surgido diversas teorias para explicá-la. Um grupo de cientistas reconhecidos (Mainstream Science on Intelligence, 1994) chegou a um consenso sobre a definição de inteligência: a capacidade mental que consiste na habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de maneira abstrata, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e com a experiência.

Mas, antes e depois disso, apareceram outras teorias sobre a inteligência. O modelo das inteligências múltiplas, de H. Gardner, afirma que os seres humanos possuem até oito inteligências diferentes, mas relacionadas entre si. Todos nós temos essas inteligências em graus distintos e todas podem ser desenvolvidas. Gardner chegou a essas conclusões depois de inúmeras pesquisas, cruzando dados de diversas disciplinas, como a Psicologia, Neurologia, Medicina e outras. Sua teoria se popularizou e foi aplicada em muitas áreas, principalmente na educação, onde tem dado excelentes frutos.

Outra teoria, cujos conceitos podem ser aplicados a vários campos da atividade humana, como empresas, trabalho, terapia, autoajuda, coaching, esportes e relações interpessoais, entre outros, é a inteligência emocional, cujo autor mais representativo é o psicólogo Goleman, que também fala sobre inteligência social.

A inteligência de sempre

Além de proporcionar aplicações em vários campos, essas teorias também contribuem para que os pesquisadores continuem investigando a existência de outras possíveis inteligências. Mas com uma advertência: não se trata de chamar de inteligência qualquer habilidade humana; é preciso ter consenso e embasamento científicos. A esse respeito, pense no abuso que, sob a luz dessas teorias, se fez do adjetivo “inteligente”, tão repetido em infinitos anúncios publicitários.

Porém, é possível falar de uma velha-nova inteligência, que alguns psicólogos e filósofos se atreveram a denominar e a explicar sua natureza: a inteligência moral. Em alguma de suas publicações, Gardner refere-se a ela, embora sem se alongar muito para explicá-la.

No ser humano, existe a inteligência moral, a velha inteligência de sempre, no sentido de que nunca ela nunca faltou aos homens e mulheres de todos os tempos, embora nem sempre tenha tido esse nome. A inteligência moral também é nova, pois os dados científicos provenientes de várias disciplinas, principalmente os da neurociência, estão abrindo nossos olhos e oferecendo bases para que ela seja identificada e explicada, sem que os pesquisadores fujam dos conceitos que os autores citados já apresentaram.

A inteligência moral, portanto, é uma das inteligências de que o ser humano está dotado. Mas ela deve ser desenvolvida, como as demais, para que seja visível através dos nossos atos. É a capacidade de raciocinar em termos de bondade e justiça, em termos do que nos torna pessoas melhores, mais humanas. É a capacidade para deliberar acerca do que se deve fazer, raciocinando e argumentando. É uma habilidade mental, que, juntamente com a habilidade emocional e social, nos motiva a fazer o bem. É a competência para resolver dilemas morais e fazer juízos morais corretos.

Pergunte-se, leitor, sobre os motivos que o levam a consultar uma determinada pessoa – e não outras – sobre uma decisão importante que você tem que tomar e que coloque à prova toda a sua essência como sujeito humano. Não é errado dizer que você buscará alguém com notável inteligência moral, o que, com outras palavras, é o mesmo que dizer “autoridade moral”. Todos nós conhecemos pessoas dotadas de inteligência moral. Por isso, recorremos a elas diante de uma decisão importante que temos que tomar.

A inteligência moral engloba diversos componentes. Em primeiro lugar, estão a sua ligação com a inteligência lógica (que pode ser entendida como a capacidade de discernimento), a inteligência emocional (capacidade de entender-se a sim mesmo, entender os outros e gerenciar sentimentos) e a inteligência social (desenho neurológico e psicológico, segundo o qual estamos construídos para nos relacionarmos com os outros).Esses ancoradouros são o substrato em que se situa a inteligência moral. Essa busca, desde a sua vertente lógica (para encontrar soluções equilibradas para os conflitos éticos em que se envolvem os indivíduos), passando pela vertente emocional e social (onde se faz presente a dimensão da empatia), deve ser submetida ao filtro da razão, do discernimento.

Em segundo lugar, a inteligência moral inclui outros componentes, como a ponderação, a moderação, o equilíbrio, a temperança, a sanidade, o saber ouvir, um certo distanciamento para ganhar objetividade e a harmonia (no sentido platônico deste conceito).

Nosso mudo tem inúmeras ausências morais. Há pessoas que desconectam suas vidas da dimensão moral, como nos lembra A. Bandura. Inclusive, assistimos – às vezes atônitos – uma desconexão moral sistêmica, como a corrupção, a violência, a xenofobia, a discriminação ou a indiferença diante das injustiças. Viver com inteligência moral é estar atento diante dessas situações e cultivar, em contrapartida, uma série de valores. Há profissões que exigem mais da inteligência moral, como os juízes, professores e médicos. Mas todos deveríamos cultivar essa qualidade, que habita no mais profundo de nós. É questão de acordá-la e educá-la.

Artigo de Luis Fernando Vílchez, autor de Inteligencia moral. Perspectivas (PPC), publicado originalmente em Alfa y Omega, traduzido e adaptado ao português.

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