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Por que chamamos a Deus de “nosso Pai”?

BASILIQUE SAINT-PIERRE

Pixabay

Padre Paulo Ricardo - publicado em 28/09/17

Da série: rezando o Pai-Nosso com São Tomás de Aquino (2)

Ainda em preâmbulo à Oração do Senhor, Santo Tomás de Aquino explica neste texto em que sentido Deus é chamado de Pai, expondo os deveres que temos seja para com Ele, enquanto filhos, seja para com o próximo, enquanto irmãos.

* * *

II․ “Pai”

3․ Em que sentido Deus é Pai․ — Aqui se nos deparam duas questões: saber em que sentido Deus é Pai e o que lhe devemos enquanto tal. Ora, Deus é chamado Pai (a) em razão do modo especial com que nos criou, fazendo-nos à sua imagem e semelhança, não impressas nas criaturas inferiores: “Não é ele teu Pai, teu Criador, que te fez e te estabeleceu?” (Dt 32, 6). Também o é (b) em razão de seu governo; ora, ainda que tudo esteja sob seu poder, a nós Ele governa como senhores, ao passo que as demais coisas são como escravas em suas mãos: “Sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência” (Sb 14, 3) e, como se lê no mesmo livro, “nos governais com muita indulgência” (Sb 12, 18). Deus é Pai, além disso, (c) a título de adoção, pois se às outras criaturas concedeu alguns pequenos dons, a nós transmitiu uma herança, porque nos fez filhos seus e, “se filhos, também herdeiros” (Rm 8, 17). Como diz o Apóstolo, “não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!” (Rm 8, 15) [1].

4․ O que a ele devemos․ — De nossa parte, devemos-lhe quatro coisas.

a) Em primeiro lugar, que o honremos: “Se eu, pois, sou vosso pai, onde está a minha honra?” (Ml 1, 6), a qual consiste em três coisas: (i) em relação a Deus, dar-lhe louvor, como canta o salmista: “Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor” (Sl 49, 23), que deve estar não só nos lábios, mas também no coração: “Esse povo”, disse o Senhor <por boca do profeta>, “vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim” (Is 29, 13); (ii) em relação a si mesmo, guardar a pureza de corpo, <como exorta o Apóstolo>: “Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6, 20); (iii) em relação ao próximo, julgá-lo com equidade, como diz o Salmo: “Reina o rei poderoso que ama a justiça” (Sl 98, 4).

b) Em segundo, que o imitemos, uma vez que é nosso Pai: “Chamar-me-ás pai, e não cessarás de me seguir” (Jr 3, 19). Ora, imitamo-lo perfeitamente quando a ele nos assemelhamos em três aspectos: (i) no amor: “Sede, pois, imitadores de Deus como filhos muito amados. Progredi na caridade” (Ef 5, 1), e isso deve estar no coração; (ii) na misericórdia, pois o amor deve vir acompanhado de compaixão [2]: “Sede, portanto, misericordiosos” (Lc 6, 36), o que tem de manifestar-se em nossas obras; e (iii) na perfeição, pois o amor e a misericórdia devem ser perfeitos: “Portanto, sede perfeitos, assim como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).

c) Em terceiro lugar, que lhe sejamos obedientes: “Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas?” (Hb 12, 9). E isto por três motivos [3]: primeiro, (i) por seu domínio, já que ele é o Senhor: “Faremos tudo o que o Senhor disse e seremos obedientes” (Ex 24, 7); segundo, (ii) pelo exemplo que nos deu o verdadeiro Filho, ao fazer-se obediente ao Pai até a morte, como se diz na Epístola aos Filipenses (cf. Fl 2, 8); terceiro, (iii) porque nos é proveitoso: “Dançarei diante do Senhor que me escolheu” (2Sm 6, 21s) [4].

d) Por fim, que sejamos pacientes nas adversidades com que ele nos castiga, <como aconselha o rei Salomão>: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Pr 3, 11s).

III. “… nosso…”

5․ O que devemos ao próximo․ — Com esta palavra se põem em evidência os nossos dois deveres para com o próximo. O primeiro é o (a) amor. Com efeito, visto que todos são filhos de Deus, temos de tratar o próximo como a um irmão: “Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê”, diz São João, “é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4, 20). O segundo é o (b) respeito, por ser ele filho de Deus: “Acaso não é um mesmo o Pai de todos nós? Não foi um mesmo Deus que nos criou? Por que razão somos pérfidos uns para com os outros?” (Ml 2, 10); “Adiantai-vos em honrar uns aos outros” (Rm 12, 10). <Assim temos de tratar o nosso semelhante>, por causa do fruto que recebemos daquele que “se tornou autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb5, 9).

Referências

  1. A noção de paternidade aplicada a Deus, diz Santo Tomás, só existe propriamente no seio da Santíssima Trindade, uma vez que o Pai gera o Filho ab æterno de sua própria substância, coigual e coeterno a si com a mesma glória e segundo a mesma natureza divina. Em SThI, q. 33, a. 3, co., o Aquinate diferencia quatro tipos de filiação que podem atribuir-se às criaturas com respeito a Deus, não em sentido próprio e adequado (secundum rationem perfectam), mas em razão de certa semelhança (secundum aliqualem similitudinem), que pode ser: a) de vestígio, e assim ele é chamado Pai das criaturas irracionais (cf.  38, 28); b) de imagem, e assim ele é Pai das criaturas racionais (cf. Dt 32, 6); c) de graça, e deste modo ele é Pai dos homens que, sendo seus filhos adotivos, ordenam-se à herança da glória eterna pelo dom da graça que lhes foi concedido (cf. Rm 8, 16s); e d) de glória, e neste sentido Deus é Pai dos santos que já entraram na posse da herança eterna (cf. Rm 5, 2).
  2. Ao longo de SThII-II, qq. 28-33, Santo Tomás trata dos efeitos imediatos, tanto internos quanto externos, do ato principal da virtude da caridade, que é o amor (dilectio). Entre os efeitos internos, o Angélico enumera a misericórdia, “uma virtude especial […] que nos inclina a compadecer-nos das misérias e desgraças do próximo, considerando-as de certo modo como próprias, enquanto entristecem o nosso irmão e na medida em que podemos, além disso, ver-nos a nós mesmos em semelhante estado. É a virtude por excelência dentre todas as que se referem ao próximo; e o mesmo Deus manifesta em grau sumo sua omnipotência ao compadecer-se misericordiosamente de nossos males e remediar nossas necessidades” (A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, p. 526, n. 366). O Aquinate chega a afirmar que, considerada em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes, visto que a ela pertence repartir com os outros e socorrê-los na necessidade, o que é característico de quem é superior. É por isto que se diz que ter misericórdia é próprio de Deus, que está acima de todas as criaturas. Mas, do ponto de vista do sujeito, a misericórdia só pode considerar-se a maior virtude se quem a possui for o mais eminente, sem ninguém acima que o socorra e tendo abaixo de si todos os demais. Ora, para quem tem um superior ao qual recorrer é melhor unir-se a ele do que suprir as necessidades de alguém inferior. Por isso, a caridade, pela qual nos unimos a Deus, essencial e soberanamente superior a todos, tem prioridade sobre a misericórdia, pela qual socorremos aos necessitados, acidental e circunstancialmente inferiores a nós (cf. SThII-II, q. 30, a. 4, co.).
  3. A obediência, diz Santo Tomás, é uma virtude moral que nos dispõe a cumprir prontamente as ordens e preceitos de um superior (cf. SThII-II, q. 104, a. 2, ad 3), seja ele outro homem ou o próprio Deus, a cujo império devemos sujeitar nossa vontade em razão de certa necessidade de justiça (ex quadam necessitate iustitiæ), visto que ele é o primeiro motor não só das coisas que se movem naturalmente, mas também de todas as vontades livres (cf. SThII-II, q. 104, a. 4, co.).
  4. “Grandes são as vantagens da obediência tanto para a inteligência como para a vontade e o coração. — 1.ª) Para a inteligência: a) Certeza de conhecer e fazer infalivelmente a vontade divina. b) Certeza do socorro divino: Ego ero tecum (Ex 3, 21). c) Certeza de êxito: Omnia cooperantur in bonum (Rm 8, 28), ainda que o superior esteja equivocado. — 2.ª) Para a vontade: a) É fonte da verdadeira liberdade. Nada escraviza tanto como o apego à própria vontade. b) É fonte de fortaleza; para obedecer até ao heroísmo é preciso ser muito valente; c) É garantia de perseverança no bem. — 3.ª) Para o coração: a) Fonte de paz individual e coletiva. Que sossego no coração, que paz tão profunda reina em uma casa ou no mosteiro de pessoas obedientes! b) Princípio de ordem. Cada coisa em seu lugar: o superior, mandando; o súdito, obedecendo. Resultado: a paz (tranquillitas ordinis). c) Ausência de responsabilidade e escrúpulos: ‘obedecí’, única conta que temos de prestar a Deus” (A. Royo Marín, opcit., pp. 581-582, n. 420).

(via Pe. Paulo Ricardo)

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