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Irmã Ignatia, uma freira católica por trás dos Alcoólicos Anônimos

Irmã Ignatia AA

AA.org

Patrick McNamara - publicado em 05/10/17

Disseram sobre ela: “Se a Igreja católica não a canonizar, os protestantes a canonizarão!”

Num artigo de 1951, a autora Katherine Neuhaus Haffner escreveu:

O que são os Alcoólicos Anônimos? O AA não é, como se supõe, apenas mais um movimento em favor da temperança, mais uma cruzada fanática pela reforma dos costumes. É uma sociedade que opera em grupos, baseada em princípios espirituais, e esses princípios estão lado a lado com o que é ensinado pela Igreja católica.

Ainda assim, muitos desconhecem o papel que os católicos desempenharam nos primeiros anos do AA – e não imaginam que uma das figuras-chave dessa iniciativa foi uma freira do Estado norte-americano de Ohio: a Irmã Ignatia Gavin, S.C. (1889-1966).

No Hospital St. Thomas, em Akron, ela ajudou o Dr. Robert H. Smith, co-fundador do AA, a combater a ideia equivocada de que o alcoolismo fosse “apenas um defeito moral” e não uma verdadeira doença espiritual, mental e física.

Batizada Bridget Della Mary Gavin, a futura Irmã Ignatia foi uma das três crianças nascidas de um casal de camponeses da Irlanda. Ainda pequena, ela já tinha o que a sua biógrafa chamou de “crua compaixão” pelos alcoólatras:

“Sempre que eu via qualquer pessoa sob a influência do alcoolismo, aquilo realmente me partia o coração. Eu tentava oferecer eterna reparação ao Sagrado Coração de Nosso Senhor para compensar aquela ofensa contra a Sua Divina Majestade”.

Em 1896, os Gavins emigraram da Irlanda para Cleveland, em Ohio, uma cidade industrial com grande população operária e onde o alcoolismo era um problema de enormes proporções. Os párocos criavam grupos de abstinência e os jovens faziam uma espécie de “promessa” de não beber.

Enquanto isso, Bridget se formava em escolas católicas, estudava música e dava aulas de música. Ela pensava em ser freira, mas a sua mãe se opunha. Ainda assim, depois de ter namorado e até ficado noiva, o chamado à vida religiosa não se calava. Em 1914, ela se uniu às Irmãs da Caridade de Santo Agostinho, congregação que administra escolas e hospitais em todo o Estado de Ohio. Aos 25 anos, considerada uma “vocação tardia”, ela professou os votos religiosos adotando o nome de Ignatia. Era uma homenagem a Santo Inácio de Loyola, a quem ela admirava profundamente.

Quando a congregação abriu o Hospital St. Thomas, em Akron, no ano de 1928, ela passou a trabalhar em suas instalações. Lá conheceu o Dr. Robert Holbrook Smith, que, tendo ele próprio sofrido com o alcoolismo, fora afastado dos hospitais mais prestigiosos da região.

A partir de 1934, a Irmã Ignatia começou a cuidar de alcoólatras com a ajuda de um jovem estagiário, o Dr. Thomas Scuderi. Ela tentava tratá-los tanto da perspectiva médica quanto da pastoral, um campo então inexplorado. O Dr. Scuderi recorda:

“Ela foi uma grande influência na minha vida de médico. Ela me ensinou a amar as pessoas”.

No entanto, outros médicos (e freiras) não agiam da mesma forma. Numa época em que os alcoólatras crônicos eram rotineiramente enviados para hospícios, a Irmã Ignatia percebia que eles precisavam de um tratamento que não ficasse na mera medicação. Os hospitais, porém, tinham “pouco entusiasmo em acolher as pessoas que bebiam demais”.

Em 1935, Smith e Bill Wilson, um corretor da Bolsa de Nova York, haviam fundado os Alcoólicos Anônimos como um programa de regeneração moral e espiritual. Trabalhando com eles, a Irmã Ignatia abriu o primeiro centro de tratamento hospitalar para alcoólatras, considerado um modelo histórico para muitos programas de tratamento químico nos Estados Unidos.

Embora tivesse compleição pequena e frágil, a irmã tinha “uma intensidade que superava as suas outras características”, conforme escreveu a sua biógrafa Mary Darrah, acrescentando:

“O anjo do AA era uma mulher forte e empática, que encontrava o bem em todas as situações e que pretendia deixar o mundo um pouco melhor do que o tinha achado. Ignatia tinha todo o carisma de uma amiga da alma”.

Um paciente relatou:

“Ela salvou a minha vida. Encontrei a Deus e a sobriedade por meio dela. Ela me amava quando não havia nada em mim para ser amado. Ela era o anjo do AA”.

Mas o amor dela não era frouxo: exigia total abstinência de álcool e drogas, recurso a um poder superior às próprias forças, comprometimento com o programa do AA e pleno apoio àqueles que ainda sofriam a doença do alcoolismo.

Ignatia tinha grande apreço pelos ensinamentos espirituais de Santo Ignácio de Loyola, fundador dos jesuítas; em particular, pelo seu conceito de “amar com atos concretos”. Ela via um claro paralelo entre os escritos do santo e os Doze Passos dos AA. Levava frequentemente consigo um compêndio dos pensamentos de Santo Inácio e um exemplar da Imitação de Cristo, grande clássico da espiritualidade católica escrito no século XIV. Dava cópias de ambos os textos aos pacientes já nos primeiros dias do tratamento. Mas sabia acolher também os que não eram católicos. A um paciente protestante, ela disse:

“A importância da nossa religião é ajudar as pessoas ao nosso redor a encontrarem o paraíso. O catolicismo não está distante como você supõe. O amor pode superar todos os obstáculos”.

Em 1952, a Irmã Ignatia abriu o Rosary Hill Solarium em Cleveland, onde trabalhou durante 14 anos. Ao longo da sua vida, cerca de 15 mil alcoólatras estiveram sob seus cuidados. Como fruto do seu ministério, um autor escreveu que “o mundo dos alcoólatras mudou“.

Em 1966, quando a Irmã Ignatia partiu para a Casa do Pai, um jornalista observou:

“Se a Igreja Católica não a canonizar, os protestantes a canonizarão”.

As irmãs serviram mais de 6.000 xícaras de café à multidão que fez questão de comparecer ao seu velório.

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