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Como é ser sacerdote missionário no país mais pobre do mundo

Pe. Yovane Cox na República Centro-Africana

Pe. Yovane Cox, via ACI Digital

ACI Digital - Reportagem local - publicado em 24/10/17

O estarrecedor depoimento de um padre chileno em uma terra martirizada pela miséria, pela guerra e pelo fanatismo

Ser cristão na República Centro-Africana é ser testemunha do perdão e da misericórdia de Deus”, afirmou o pe. Yovane Cox, missionário há 12 anos no país que, pelos dados da ONU, é o mais pobre do mundo.

Crianças-soldados, guerras, perseguições e massacres fazem parte do flagelo que se abate sobre os 30 mil habitantes de Bema, na diocese de Bangassou, onde o pe. Cox é pároco.

Num contexto de extrema pobreza, o missionário chileno da Associação Misión Gran Río conseguiu construir uma escola para 300 crianças e sonha com a construção de outra escola para 400 alunos.

Os últimos três anos foram especialmente difíceis para ele, pois os cristãos e outras minorias estão sendo vítimas dos ataques de muçulmanos fundamentalistas, provocando sangrentos massacres e sequestros na República Centro-Africana.

O país foi visitado pelo Papa Francisco em novembro de 2015.

Em conversa com o Grupo ACI, o pe. Cox destacou que, numa situação como essa, é urgente “transmitir misericórdia” e “estar disposto a perdoar, a ajudar as pessoas a superar coisas hediondas como a morte de um ente querido ou a destruição do seu povo”.

O sacerdote relatou a sua própria experiência de perseguição e violência, em junho deste ano, quando teve de fugir com seus fiéis para o Congo em busca de refúgio. Para se ter uma noção, o próprio Congo vive em guerra sangrenta e é um dos países mais perigosos do planeta.

“Permaneci durante horas deitado no chão da igreja, esperando que os combates terminassem. Em seguida, saí e encontrei algumas pessoas muito violentas, então me perguntei: ‘Como posso dar testemunho de Cristo em meio disso, tão terrível?”.“Como todo pároco, fui o último a sair da aldeia na ‘piroga’ (um barco de madeira típico na África). E ao chegar ao outro lado, ao Congo, fui recebido por todas as pessoas, inclusive pelas pessoas que eram indiferentes comigo na aldeia”.“Todos me abraçavam e diziam ‘Padre, nós esperávamos o senhor’. Quando nos dizem muitas vezes a palavra ‘padre’, podemos perder um pouco o significado da palavra, mas lá eu a vivi. Eu disse: ‘Eles são meus filhos, eles me esperavam como um pai”.

Em relação à perseguição sofrida pelos cristãos, o sacerdote afirmou que os responsáveis são um grupo majoritariamente muçulmano “que está sendo manipulado politicamente”.

“Há um interesse político escondido, ninguém quer dizer, mas é verdade. Causa muito dano e está dividindo o país. Somente na capital, Bangui, graças à presença do Papa Francisco em 2015, conseguiram reconciliar a população muçulmana com o resto dos cidadãos”.

Além disso, o sacerdote afirmou que o solo da República Centro-Africana “é extremamente rico”, graças ao petróleo e ao diamante. Há também imensas reservas naturais, mas o país “está sujeito à extrema pobreza e, curiosamente, nenhuma organização ou nação internacional se importa com esta situação”.

“As Nações Unidas estão presentes, mas não estão fazendo um bom trabalho e não conseguiram desarmar esse conflito nem dar passo para a reconciliação. Apenas a Igreja está presente. A situação na África é de uma indiferença terrível”.

Diante dessa situação, Pe. Cox encorajou os católicos a viverem três atitudes de solidariedade para com os irmãos perseguidos na África. Primeiramente, acabar com a indiferença.

“Se nós não resolvemos os problemas da África, como impediremos a imigração? Diante dessa indiferença, a única solução é abrir o coração e reconhecer que somos todos seres humanos e temos a mesma dignidade diante de Deus”.

Em segundo lugar, ações concretas:

“Muitas pessoas colaboram através da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e, com isso, ajudam em nossos projetos. Mas também podem fazer pessoalmente. Por exemplo, há um grupo de 60 chilenos que me pagam o colégio para uma criança durante um ano inteiro”.“Se somos generosos, se somos capazes de entregar do nosso coração, abriremos o horizonte do nosso próprio coração e se tornará mais universal, e universal significa católico. De certo modo, tornamo-nos ‘católicos’ se somos generosos”.

Finalmente, mas não menos importante, a oração:

“Se não tivéssemos a oração da Igreja, acho que a Igreja na África Central teria fracassado no seu trabalho missionário”.“Nós teríamos desanimado e abandonado as pessoas, mas há algo forte no coração de todos os missionários e sabemos que temos o apoio de muitas pessoas que estão por trás”.

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A partir de texto publicado pela agência ACI Digital

Tags:
GuerraMissionáriosPobreza
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