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Barragem: progresso a que preço?

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A construção de uma barragem (“represa”) que, segundo órgãos de imprensa, terá capacidade de fornecer água para 22 cidades da região, leva-nos à reflexão.

Reflexão que pretende fugir do ecologismo radical a condenar todo e qualquer progresso, mas que quer, sim, se posicionar – à luz do que ensina a Igreja – contrário ao uso desordenado dos recursos naturais como se estes fossem propriedade particular e não dádiva do Criador. Sim, pois “o desperdício da criação começa onde já não reconhecemos qualquer instância acima de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos” (Bento XVI, Discurso ao clero da diocese de Bolzano-Bressanone, 06/08/08).

No Gênesis 2,8-9.15, primeiro livro da Bíblia, o homem e a mulher aparecem como o ápice da criação de Deus, colocados – em linguagem bíblica própria – no centro do jardim do Éden para dele cuidarem como administradores/senhores.

Autores contemporâneos têm comentado tal passagem dizendo que: “o senhorio do ser humano é de responsabilidade, é o poder a serviço da criação e do Criador, numa relação de respeito e preservação” (Pe. Mário Marcelo Coelho. O que a Igreja ensina sobre… 5ª ed. S. Paulo: Canção Nova, 2012, p. 138). Na mesma linha, a Dra. Maria Aparecida Correa Custódio afirma que, na situação do Gênesis, os verbos “submeter e dominar estão no âmbito de conquistar, governar e reger” […]. “No contexto atual, no qual se coloca a necessidade do cuidado com a vida no planeta, optou-se pela palavras conquistar e gerenciar: conquistar no sentido de alcançar ou adquirir o equilíbrio necessário para lidar com a grandeza do planeta e gerenciar bem cada dimensão da vida presente nele” (Pentateuco e Históricos. Batatais: Claretiano, 2013, p. 43 – destaques do original). Ainda: “Governar a natureza significa não destruí-la, mas aperfeiçoá-la, não transformar o mundo em um caos inabitável, mas numa bonita casa, ordenada no respeito por todas as coisas” (CNBB. Preserve o que é de todos, 1979, p. 17).

Seguindo essa ética do cuidado, a Igreja tem, com certa frequência, chamado a atenção para uma verdade capital: se o ser humano é o centro da criação divina, preservar o meio ambiente é condição essencial para a sobrevivência da humanidade. Por isso o Papa São João Paulo II escreveu que, dentro da grave crise moral que abala a humanidade, “a deterioração ambiental é um dos aspectos mais preocupantes”. Daí, a importância de “uma consciência ecológica, que não deve ser reprimida, mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas (Dia Mundial da Paz, 1º/01/1990).

Por fim, o Papa Francisco alerta que “As estradas, os novos cultivos, as reservas, as barragens e outras construções vão tomando posse dos habitats e, por vezes, fragmentam-nos de tal maneira que as populações de animais já não podem migrar nem mover-se livremente, pelo que algumas espécies correm o risco de extinção” (Laudato Si, 2015, 35). Há, aí, é evidente, um desequilíbrio ambiental pernicioso muito grande.

Daí a pergunta crucial: jogando de lado o que acima foi dito, qual é o preço – ou a consequência – do dito progresso de uma barragem para nossa “Casa comum” e, por conseguinte, para cada ser humano que vive (ou viverá) próximo à grande represa? – É hora, amigo(a) leitor(a), de refletirmos e indagarmos com seriedade!

 

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo

Tags:
ecologia
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