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A razão de ser dos contemplativos

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Vanderlei de Lima - publicado em 29/11/17

Há quem compreenda, sob certo ponto, que um homem ou uma mulher seja membro de um Instituto religioso a atuar em trabalhos pastorais, mas não entende como alguém possa levar uma vida plenamente contemplativa: a sós ou em comunidade.

Eis, pois, a necessidade deste artigo: demonstrar a razão de ser dos religiosos (homens e mulheres) contemplativos à Igreja e à humanidade inteira.

Escreve um monge cartuxo – Ordem fundada por S. Bruno, em 1084, na França, para uma vida completamente afastada do mundo –, que: “A missão dos contemplativos é ser no meio do mundo ‘o olhar atento’ da humanidade concentrado em Deus; serem os que permanecem na presença de Deus, por aqueles que jamais se põem na Sua presença; serem os delegados da humanidade esquecida de Deus, para Lhe apresentar o amor, a adoração, as lágrimas e os pecados de todo o mundo; serem, enfim, os que deixam o mundo e as suas vaidades para procurar Deus e dedicar-se totalmente a Ele”.

E continua: “Portanto, não é o egoísmo, o desprezo dos valores humanos nem a covardia o que inspira essa renúncia e procura. Se o contemplativo deixa tudo, é com o intuito e o desejo de entrar plenamente na esfera e na órbita de Deus, amado e procurado sobre todas as coisas” (A vida cartusiana. Ivorá: Mosteiro Nossa Senhora. Medianeira, s/d, p. 3). Ora, é nessa esfera de Deus que o contemplativo eleva ao Senhor as dores e angústias da humanidade inteira rezando por elas, seja de modo voluntário, seja atendendo aos numerosos pedidos de orações que lhe chegam diariamente.

Isso posto, pergunta-se: qual é a espiritualidade básica a mover um eremita (solitário) de Charles de Foucauld (1858-1916)? – É a da vida de Nazaré, tempo no qual o Senhor Jesus passou, dos 12 aos 30 anos, oculto ao mundo.

Todavia, também aprende esse mesmo eremita, a exemplo do Bem-aventurado Foucauld, a não ser um completo isolado, mas, sim, a gritar, com alegria, ao mundo a beleza do Evangelho com o exemplo da própria vida, em primeiro lugar, e com alguns apostolados condizentes com o seu modo de viver: catequese semanal, conversas com pessoas necessitadas, pessoalmente ou via meios eletrônicos, entre outras coisas. Aliás, Foucauld chegava a atender, em seu eremitério, 56 pessoas por dia e não queria que fosse deixada de lado a caridade para com o próximo em momento algum.

Questiona-se, contudo, o que reza um eremita de Charles de Foucauld? – Eis a resposta: às 5h00, reza o Ofício de Leituras (também chamado de Vigílias), depois Laudes (Louvores) e a saudação mariana do Angelus (O Anjo do Senhor anunciou a Maria etc.). Faz, na sequência, a Lectio Divina (Leitura orante da Bíblia) por 1 hora, seguida da Consagração do dia ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, além da Oração do Abandono ou de entrega incondicional nas mãos de Deus.

Logo depois, participa (ou celebra, se for sacerdote) a Santa Missa por volta das 7 horas. Volta a rezar, ainda, às 9h o Ofício de Terça (a vinda do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os apóstolos, At 2,15); às 11h40, o Ofício de Sexta (Início da agonia de Jesus, Mt 27,45), novamente o Angelus e o Rosário. Às 15h reza-se o Ofício de Noa (a morte do Senhor Jesus na Cruz, Mt 27,45) e o Terço da Misericórdia. Novamente, às 17h30, se volta para o Ofício de Vésperas (dá graças a Deus pelo dia e recorda a Ceia do Senhor ocorrida em tempo vespertino, bem como o Juízo Final, arremate da História, Jo 8,12). Novamente se reza o Angelus. À noite, há o Ofício de Completas que, como o próprio nome diz, encerra o dia com a entrega da vida a Deus (cf. Lc 2,29-32), uma Leitura Espiritual (a vida de um santo, um livro de piedade etc.) e o grande silêncio noturno até a manhã seguinte.

Certo é que esse tempo dedicado à oração está entrecortado pelo trabalho manual (manutenção da casa, preparo da alimentação), intelectual (estudos) e pastoral (atender a pessoas que necessitam, especialmente via e-mail). Tudo em louvor a Deus.

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo.

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