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Bitcoin: contra a febre, a vacina é bom senso e pés no chão

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O futuro da criptomoeda é difícil de prever, mas o das pessoas que estão apostando até a família não costuma ser próspero...

Apesar das baixas bruscas nestes últimos dias, que fazem parte da dinâmica desse tipo de ativos, cada vez mais pessoas no mundo inteiro estão comprando bitcoins e sonhando com uma fortuna extraordinária, gerada quase por mágica e quase da noite para o dia.

O impressionante aumento do valor da criptomoeda ao longo das semanas passadas tem atraído também os hackers: no começo deste mês, a carteira digital da NiceHash, uma empresa sediada na Eslovênia, foi invadida e teve os seus bitcoins roubados – uma perda de cerca de 60 a 70 milhões de dólares, com base na cotação de então (e, de quebra, a maior fraude da história eslovena até o momento). A NiceHash se apresenta como o maior marketplace do mundo para a mineração de criptomoedas, ou seja, para o processo de adicionar registros de transações ao livro-razão público do bitcoin e de outros ativos do gênero. Aparentemente, a empresa tem conseguido gerir a crise e tranquilizar os seus investidores, mas o susto provocou pânico e destacou riscos de segurança que ainda precisam ser solucionados.

Valorização épica

Em 2009, quando o até hoje misterioso japonês Satoshi Nakamoto lançou o primeiro programa para as transações de bitcoins, a moeda digital praticamente não tinha valor. Desde então, o valor foi aumentando entre frequentes oscilações até atingir, neste mês, um ápice histórico em torno de incríveis 20.000 dólares.

Muitas pessoas que compraram bitcoins por poucos centavos em 2010 ou por poucos dólares em 2011 e os venderam no topo da cotação recente ficaram multimilionárias. Até quem comprou os ativos de Nakamoto no ano passado e os vendeu após um ano lucrou várias e várias vezes o dinheiro investido.

Assim como na corrida do ouro, as histórias de gente que ficou fabulosamente rica de uma hora para a outra seduziram multidões de compradores de bitcoins – nem todos muito sensatos, porém: alguns investiram além do limite da prudência, chegando a hipotecar a própria casa em uma cega aposta na fortuna fácil…

Opiniões divergentes

São variadas as posturas em relação às criptomoedas, das quais o bitcoin é a pioneira, a mais conhecida e a mais relevante. Os entusiastas o qualificam como a “moeda do futuro”, responsável pelo fim das moedas tradicionais e por uma revolução sem precedentes na história das finanças e até da estrutura mundial de poder, dado que esse gênero de moeda, pelo menos na sua conceitualização original, não seria passível de ingerência por parte dos governos. Outros questionam a própria qualificação do bitcoin como moeda, não só por causa da sua oscilação capaz de dar calafrios, mas também pela falta de praticidade, ao menos atualmente, para usá-lo em transações do dia-a-dia – o que tem a ver com limitações tecnológicas relacionadas ao registro das transações no livro-razão digital: o processo é lento para quem imagina poder pagar o pãozinho e o leite na padaria da esquina com essa criptomoeda. Diante desses aspectos, há quem prefira definir o bitcoin, genericamente, como um “ativo” e não como moeda propriamente dita – e um ativo de altíssimo risco, por estar ainda envolto em muita especulação. Por fim, no extremo oposto ao dos entusiastas, estão aqueles que acusam o bitcoin de não passar de uma fraude potencialmente catastrófica para a economia global: nesse grupo, há quem defenda inclusive a sua proibição por lei.

Exageros à parte, seja do lado entusiasta, seja do lado catastrofista, o fato é que a prudência não fará mal a ninguém. A história da produção de riqueza (e miséria) ao longo dos séculos é crivada de bolhas econômicas e financeiras das mais peculiares variedades, o que já vale como lembrete para que os pés sejam mantidos bem firmes sobre a terra.

Tulipamania

A propósito de bolhas especulativas, a primeira registrada na história pode servir como “tema de reflexão” para a turma que anda hipotecando casa e terras para comprar bitcoins apenas com base em especulações. Trata-se da “tulipamania” ou “febre da tulipa”, um “surto” que acometeu muita gente na Holanda em 1636.

Na época, as tulipas se tornaram um grande símbolo de status e, em não muito tempo, o seu preço disparou. Foram criados mercados formais de futuros para negociar bulbos de tulipas raras antes mesmo das colheitas. Os bulbos viraram objeto de especulação. Todo tipo de membro da sociedade negociava tulipas, inclusive as tulipas que ainda nem existiam fisicamente: nobres, plebeus, pequenos comerciantes, servos, marinheiros… As pessoas chegavam a vender suas casas e terras para comprar tulipas “virtuais”, esperando a subida contínua dos preços. Em 1637, porém, o acúmulo de vários fatores levou à perda de confiança nesses títulos e causou uma corrida para o resgate dos investimentos, fazendo os preços desabarem estrondosamente e provocando a completa falência de inúmeros negociantes. A bolha das tulipas tinha explodido.

Investir versus especular

É bem grande a diferença entre investir e especular. Assim como os investimentos sólidos precisam de bases firmes, também os investidores prudentes precisam dos dois pés sobre a terra, enquanto olham para os horizontes e para os seus sinais com atenção e não com devaneios.

Por último, mas não por isso menos importante: um católico não pode se esquecer de que a ganância é um pecado e, como tal, jamais termina bem. Colocar em risco a sua casa? Colocar em risco a sua família? Onde é que estão as suas prioridades?

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