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A solidão de um comerciante sírio em meio às ruínas do souk de Aleppo

BERNARD GAGNON | CC

Agências de Notícias - publicado em 25/12/17

Na cidade foi onde aconteceram os mais violentos combates entre as tropas do regime e os rebeldes entre 2012 e dezembro de 2016

Antes da guerra, era um dos souks mais animados da Cidade Velha de Aleppo, mas hoje em Khan al-Harir, o mercado da seda, há apenas uma loja que vende toalhas de plástico no meio de edifícios destruídos.

A entrada do comércio de Mohamad Shawash, com tapetes e colchas pendurados, é o único oásis colorido em meio a uma paisagem de desolação.

Um ano após a reconquista dos bairros rebeldes da segunda maior cidade da Síria pelas tropas de Bashar al-Assad, os becos ao redor de sua tenda seguem devastados.

O comerciante de 62 anos reabriu sua loja no verão passado, alguns meses depois que a cidade foi reconquistada.

Agora espera os clientes, que já não vão a Khan al-Harir, um setor inscrito na lista do patrimônio mundial da Unesco, mas destruído por quatro anos de combates.

“Eu chorei quando voltei pela primeira vez”, lembra Shawash.

“Era tudo destruição. As lojas estavam destruídas, as ruas cobertas de escombros e pedras, os edifícios derrubados”, conta.

A Cidade Velha de Aleppo foi onde aconteceram os mais violentos combates entre as tropas do regime e os rebeldes entre 2012 e dezembro de 2016.

– ‘Não há mais ninguém’ –

Outrora famosa por seu famoso mercado coberto, o maior do mundo com 4.000 lojas, a área nada se parece com o que foi.

Shawash reconstruiu a sua “para provar ao mundo inteiro que a Cidade Velha de Aleppo preservou sua alma”.

Neste oceano de destruição, formam-se pequenas ilhas de vida.

Em novembro, as autoridades inauguraram uma via do restaurado Souk al Khumruk. Apenas algumas lojas foram reabertas.

“Eu cresci aqui. Minha loja ficava aberta das 07h00 até tarde da noite, conhecia todos”, lembra Shawash.

“As ruas estavam sempre cheias de pessoas, empresas, restaurantes, vendedores de roupas, tapetes, móveis, mas agora, não há mais ninguém”, lamenta.

Quando ele voltou pela primeira vez, sua loja havia sido saqueada, uma parede derrubada, mas acima de tudo, as ruas do bairro estavam desertas.

“Não se trata apenas de perder dinheiro ou mercadorias. Perdi meus vizinhos, meu ambiente, perdi-me”, diz ele.

Shawash reconstruiu seu negócio, pedra por pedra. Agora ele voltou a uma rotina.

Todas as manhãs ele tira e expõe as toalhas de mesa e se senta confortavelmente em uma cadeira de plástico à espera de clientes. Mas ninguém vem.

Então ele guarda sua mercadoria, fecha a loja e volta para sua casa.

“Antes do conflito, vendia cerca de 50.000 a 70.000 libras sírias (entre 1.000 e 1.500 dólares no câmbio de antes da guerra)”, ele explica.

Agora “vendo cerca de 400 libras (0,9 centavos de dólar) o suficiente para comprar um sanduíche falafel”, diz.

Shawash espera que os jovens voltem para Aleppo, “o símbolo da civilização”.

Um símbolo desfigurado pela guerra. Além do souk, sua famosa mesquita e a cidadela medieval foram danificadas.

“Estou orgulhoso de ser o primeiro a reabrir minha loja, mas espero que haja vida novamente no souk”, conclui.

(AFP)

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