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Estilo de vida

O coração e a mala

Prosa e Poesia - publicado em 18/01/18

E você, o que coloca na bagagem do seu coração?

O coração é a mala de nossas vidas.

Colocamos tudo que podemos em seu interior e tudo que não sabemos. Tentamos organizar os sentimentos como se fosse algo possível. Sentimentos não são como camisetas de linho que, com a prática certa e dedos ágeis, permanecem lisos e milimetricamente dobrados em um quadrado sem poeira. Na verdade, são apenas tecidos de comprimentos imensuráveis, tortos e frágeis como cristal. Irregulares como uma joia, mas tão preciosos como uma.

A tristeza, um fio feito de lágrimas, se enrosca na saudade, muitas vezes parecendo um só. Ele pode tocar na felicidade e, mesmo parecendo tão opostos, um tão colorido e outro tão vazio, encaixa-se em nosso coração. O amor tão conflituoso se delimita a todos os cantos da maleta, vermelho e cintilante, uma canção de ninar para tantos momentos.

Em alguns, uns sentimentos são mais favorecidos. São ofertados mais panos de alegria do que mágoa, ou mais melancolia que entusiasmo. Tudo que fazemos acrescenta de forma distinta algo em nossa alma.

Pessoas nos marcam. Situações nos marcam. Guardamos odores em um zíper escondido que… Simplesmente, recorda a ocasião que encontramos nosso melhor amigo. Colocamos ancoras em frases que fazem parte de uma de nossas lágrimas. Chaveiros feitos de um momento de raiva, apenas presentes porque não conseguimos esquecer. O sabor de uma torta porque era a preferida de um irmão ou da mãe. Um toca fitas com a música favorita de um céu sem nuvens e uma primavera de folhas alaranjadas. Um violão que nunca tocou porque ele foi dado em sua formatura.

Fotografias. A primeira vez que viu o mar e correu como se não houvesse amanhã. Um grito de um coração buscando um significado. Brincadeiras em um dia de coração partido. Farturas em noites cantadas por estrelas. Solidão em um metrô lotado por vozes que não fazem sentido. Uma comemoração sobre a onda perfeita e cabelos que eternamente terão o cheiro de sal. Uma dança descoordenada com uma batida sem ritmo. O primeiro bolo que durou o suficiente para aquela recordação. O primeiro som de seu animal de estimação.

O casaco que alguém jogou em seu ombro. O café sem açúcar que caiu em seu livro favorito e ficou para sempre com aquele cheiro de despertar. Liberdade de uma chuva passageira. O primeiro beijo, aquele que teve esticar a ponta do pé para sentir o gosto de amoras silvestres dos lábios ofertados. Um olhar prolongado para uma estação que ficava para trás. Dedos espalmados sobre o vidro de um ônibus pontilhado com a névoa de uma nevasca fria. Seu cantor favorito cantando sobre os estilhaços de uma paixão que ele jamais encontrou.

Alguém que ama que se perdeu para sempre. A última batida de uma vida que jamais vai reencontrar. Sua última lembrança. Seu nome recordado em cada luar, enroscado em cobertores que jamais irão te aquecer.

Tantas lembranças..

Tantos sentimentos..

Tantos…

Guardados em um único coração.

Alguns dias engasgados com as peças que faltam. Outros guardando lembranças que não foram tecidas.

E assim sobrevivemos com nossas diferenças. Cada um levando arrastando consigo tudo que viveu com espaço para tudo que irá viver.

Com tudo que está faltando e tudo que está preenchido.

Damos o tecido de nossa amizade e recebemos cores diferentes de volta. Perdemos algo de que não precisamos para receber abraços aconchegantes e amanteigados que irão nos fazer sonhar com o agora. Abandonamos e ganhamos.

E sempre encontramos pessoas que nos aceitam com toda nossa bagagem, por mais que os tons estejam se fragmentando, apenas para colocar novas fotografias com sua própria paleta de tons.

Assim vivemos cada aurora. Esquecendo e se lembrando. Guardando a neve e o fogo, diários e razões para criar, risadas e soluços, doando e recebendo novos e velhos pedaços em nossos corações.

Eternos.

(via Prosa e Poesia)

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