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Autor de atentados em Paris se nega a depor mas declara fé em Alá

DEMONSTRATION FRANCE

JEAN-FRANCOIS MONIER - AFP

People attend before a rally in Rennes, western France, on January 11, 2015, as tens of thousands of people stage rallies across France following four days of terror and twin siege dramas that claimed 17 victims, including the victims of the first attack by armed gunmen on the offices of French satirical newspaper Charlie Hebdo in Paris on January 7. AFP PHOTO / JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP PHOTO / JEAN-FRANCOIS MONIER

Agências de Notícias - publicado em 05/02/18

O francês Salah Abdeslam, único integrante vivo das células jihadistas que mataram 130 pessoas em Paris em novembro de 2015, negou-se a responder às perguntas do tribunal nesta segunda-feira, em Bruxelas, expressando apenas sua confiança em Alá.

“Você é Salah Abdeslam, nascido em Bruxelas em 15 de setembro de 1989?”, perguntou a juíza que preside o processo, Marie-France Keutgen, no início da audiência.

“Eu não quero responder a nenhuma pergunta”, afirmou Abdeslam, ao lado de seu advogado, Sven Mary.

O réu se recusou, inclusive, a ficar de pé quando foi solicitado pela juíza.

“Mas meu silêncio não me converte em criminoso, é a minha defesa”, acrescentou o réu.

“Há provas neste caso, provas tangíveis, científicas. Gostaria que nos baseássemos nisso”, disse ainda o acusado, criticando o objetivo do julgamento de “satisfazer a opinião pública”.

Abdeslam fez questão de mencionar Alá e sua religião, o Islã. “É em meu Senhor que deposito minha confiança (…) o que constato é que os muçulmanos são julgados e tratados da maior pior maneira possível”, disse o francês de 28 anos e de origem marroquina.

“Testemunho que não existe outro deus que não Alá, Maomé é seu servidor e seu mensageiro. Agora, julguem-me, façam o que quiser comigo. É em meu Senhor que deposito minha confiança”, enfatizou.

“Não tenho medo de vocês, minha confiança está em Alá e isso é tudo, não tenho nada a acrescentar”, declarou ainda.

Neste julgamento, Abdeslam responde por três policiais feridos em um tiroteio em Forest, na Bélgica, em março de 2016 que levou a sua captura.

A promotoria federal belga pediu 20 anos de prisão para Abdeslam, assim como para o cúmplice de sua fuga, Sofiane Ayari.

A representante do Ministério Público encarregado dos casos de terrorismo, Kathleen Grosjean, explicou que esta é a pena máxima possível por tentativa de assassinato contra policiais.

– Parentes decepcionados –

“Decepcionante, mas não surpreendente”. Esse era o sentimento entre os representantes e parentes das vítimas dos ataques de Paris e Bruxelas ante o silêncio de Abdeslam.

“Pessoalmente, nunca achei que estaria disposto a colaborar com a justiça belga, depois de não ter feito isso com a francesa”, declarou Philippe Duperron, cujo filho morreu na casa de shows parisiense Bataclan em novembro de 2015.

Desde sua detenção na França, em abril de 2016, Abdeslam mantém silêncio diante dos investigadores.

Uma das incógnitas era saber se ele falaria. O processo julga o tiroteio ocorrido em Forest em março de 2016, que deixou três policiais feridos, mas é considerado um preâmbulo do julgamento que acontecerá na França pelos atentados de Paris que deixaram 130 mortos, em uma data que ainda não foi anunciada.

As autoridades organizaram um importante dispositivo de segurança, dentro e ao redor do Palácio de Justiça.

O réu, que cresceu e se radicalizou no bairro de Molenbeek, em Bruxelas, fazia parte de uma célula jihadista envolvida em ao menos três grandes operações terroristas nos últimos anos.

Os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris (130 mortos), os de 22 de março de 2016 em Bruxelas (32 mortos) e o fracassado ataque em um trem entre Amsterdã e Paris em agosto de 2015 foram de responsabilidade, “talvez, unicamente da organização Estado Islâmico”, segundo a Procuradoria federal belga.

Abdeslam é julgado esta semana por um fato ocorrido em 15 de março de 2016, dia em que investigadores franceses e belgas foram surpreendidos por tiros durante uma operação de rotina em um dos abrigos da célula em Forest.

Três policiais ficaram feridos enquanto que um jihadista de origem argelina, de 35 anos, Mohamed Belkaid, morreu ao enfrentar os agentes para encobrir a fuga de Abdeslam e de um cúmplice, Sofiane Ayari, um tunisiano de 24 anos, que também será julgado em Bruxelas.

Os dois jihadistas foram detidos três dias depois, em 18 de março, em Molenbeek, uma prisão que, segundo os investigadores, representou o detonador dos atentados de 22 de março, quando três atacantes suicidas se explodiram no aeroporto e no metrô da capital belga.

Uma associação de vítimas de atentados, V-Europe, que diz representar cerca de 200 pessoas dos atentados de Bruxelas, reclamou ser parte civil no julgamento

A defesa dos acusados poderá aceitar de mau grado esta constituição em parte civil de última hora, apesar de várias fontes relacionadas com o caso excluírem qualquer novo adiamento.

A audiência, que deveria ter acontecido em meados de dezembro no tribunal correcional de Bruxelas, foi adiada para dar tempo a Sven Mary, o novo advogado de Abdeslam, preparar sua defesa.

Um renomado criminalista belga acompanhou o jihadista logo depois de sua prisão, mas jogou a toalha sete meses depois, criticando a incompreensível atitude de seu cliente.

Salah Abdeslam e Sofiane Ayari devem responder pelas acusações de “tentativa de assassinato de vários policiais” e “posse de armas proibidas”, tudo em “um contexto terrorista”.

Abdeslam será conduzido a cada dia da prisão de Vendin-le-Vieil, norte da França, onde tem as mesmas condições que na prisão perto de Paris, em que se encontra em regime de isolamento e sob videovigilância 24 horas desde sua chegada, em abril de 2016.

(AFP)

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