Aleteia
Quinta-feira 22 Outubro |
São Moderano
Curiosidades

Nenhum Papa usou barba desde 1700. Mas por quê?

Inocêncio XII

Daniel R. Esparza - Reportagem local - publicado em 22/02/18

A barba (e a sua ausência) tem muita história na Bíblia, no direito canônico e na Tradição...

O Papa Inocêncio XII (na imagem ilustrativa desta matéria), nascido Antonio Pignatelli, exerceu o pontificado entre 1691 e 1700. Ele ficou especialmente conhecido por ter combatido de modo firme e decisivo o nepotismo dentro da Igreja – mas também por ter sido o último papa que usava barba.

E por que nenhum outro manteve a barba nestes mais de 300 anos?

Na verdade, não há uma resposta objetiva. O que há é um conjunto de práticas e orientações que foram sendo adotadas e alteradas ao longo do tempo, de acordo com circunstâncias tanto práticas quanto simbólicas.

A barba é mencionada não poucas vezes na Bíblia. A Enciclopédia Católica observa, no tocante às Escrituras, que era considerado um grande ultraje cortar a barba de outro homem (cf. II Samuel 10,4); raspar ou arrancar a própria barba era sinal de luto (cf. Jeremias 41,5; 48,37); alguns estilos de barba, que provavelmente imitavam costumes pagãos, eram estritamente proibidos (Levítico 14,9).

Na época de Jesus, porém, tanto os gregos quanto os romanos preferiam barbear-se. Quanto aos Apóstolos, embora sejam representados com barba inclusive em imagens dos primórdios do cristianismo, o fato é que isso não se repete em todas as representações. Há imagens muito antigas do batismo do próprio Cristo nas quais Ele é mostrado sem barba, ao contrário da maioria das representações bizantinas. Alguns Padres da Igreja, como São Jerônimo e Santo Agostinho, parecem ou censurar ou encorajar a prática de manter a barba, mas é bastante difícil estabelecer alguma conclusão definitiva sobre o assunto, que não é abordado de modo normativo. Já no século VI, porém, a lei canônica inglesa ordenava aos clérigos: “Não cultivem nem a longa cabeleira nem a barba” (“Clericus nec comam nutriat nec barbam”).

Essa proibição foi rigorosamente aplicada durante toda a Idade Média. O Concílio de Toulouse (1119) ameaçou até excomungar os clérigos que deixassem crescer o cabelo e a barba “como homens mundanos”. Mas havia nesta regra certa margem para interpretações: a frase “barbam nutrire” não proibia estritamente o uso de barbas curtas e bem cuidadas, o que permitiu que a maioria dos papas, santos e bispos dos séculos XVI e XVII fossem, de fato, barbados. Pense, por exemplo, em Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Sales, São Felipe Néri ou nos Papas Clemente VI e Júlio II.

No mesmo século XVI, no entanto, São Carlos Borromeu, cardeal e arcebispo de Milão, escreveu uma carta pastoral na qual encorajava o seu clero a se barbear. Alguns pregadores traçavam metáforas em que barbear-se evocava, simbolicamente, o “corte” do pecado e do supérfluo, já que a barba é dispensável e, ao mesmo tempo, renunciar a ela exige certo sacrifício e disciplina.

Também há razões de higiene, além de motivações que são ao mesmo tempo práticas e reverentes no tocante à liturgia: o bigode não deve atrapalhar o sacerdote à hora de beber do cálice, razão que era e continua sendo considerada nobre o suficiente para se manter a barba bem cuidada ou, simplesmente, eliminá-la.

Foi entre os séculos XVII e XVIII, porém, que a prática de barbear-se virou o padrão dominante entre os clérigos, adotada inclusive por altos prelados como o cardeal Orsini, arcebispo de Benevento – o que acabava representando um modelo a ser seguido.

Ainda assim, algumas ordens religiosas cultivam tradicionalmente o uso da barba como símbolo de penitência e austeridade, como é o caso dos franciscanos capuchinhos e dos monges cartuxos. Outras congregações, por sua vez, recomendam, por uniformidade e unidade, que os seus membros se barbeiem.

Em resumo: não existe uma norma explícita que obrigue os papas (ou os padres em geral) a se barbearem, mas sim um conjunto de circunstâncias, tanto simbólicas quanto práticas, que, ao longo destes últimos séculos, tem levado os pontífices e a maioria dos clérigos católicos a preferirem deixar a barba de lado.

Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • A Aleteia é publicada em 8 idiomas: Português, Francês, Inglês, Árabe, Italiano, Espanhol, Polonês e Esloveno.
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Tags:
História da Igrejapapas
Oração do dia
Festividade do dia





Top 10
Aleteia Brasil
Quer dormir tranquilo? Reze esta oração da no...
CARLO ACUTIS
John Burger
Como foram os últimos dias de vida de Carlo A...
TRIGEMELAS
Esteban Pittaro
A imagem de Nossa Senhora que acompanhou uma ...
nuvens sinais
Reportagem local
Estão sendo fotografados "sinais do céu"?
Aleteia Brasil
O milagre que levou a casa da Virgem Maria de...
st charbel
Reportagem local
Por acaso não está acontecendo o que São Char...
Philip Kosloski
3 poderosos sacramentais para ter na sua casa
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia