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Papa Francisco: Dom Romero foi apedrejado com a pedra mais dura, a língua

Dom Oscar Romero assassinato

© TERRE D'AMERICA

Ary Waldir Ramos Díaz - Reportagem local - publicado em 08/03/18

O Papa improvisou uma reflexão sobre o martírio de Dom Romero, que “continuou sendo perpetrado inclusive por irmãos dele no sacerdócio”

Ao receber em audiência no Vaticano uma delegação de 400 salvadorenhos no dia 30 de outubro de 2015, o Papa Francisco fez uma declaração veemente:

“Quantas vezes, pessoas que já deram a vida ou que morreram continuam sendo apedrejadas com a pedra mais dura que existe no mundo: a língua!”

Ele falava sobre Dom Oscar Romero. E prosseguiu:

“Eu gostaria de acrescentar algo que talvez passe despercebido. O martírio de Dom Romero não foi pontual no momento da sua morte: foi um martírio-testemunho, sofrimento anterior, perseguição anterior, até a morte. Ele foi difamado, caluniado, sujado, já que o seu martírio foi continuado inclusive por irmãos dele no sacerdócio, no episcopado”.

O Papa fez esses comentários no final do discurso oficial, improvisando e arrancando sonoros aplausos. E arrematou:

“Não digo isso por ter ouvido falar. Eu escutei essas coisas. Eu era sacerdote jovem e fui testemunha disso”.

Entre os ouvintes havia uma comitiva guiada por seis bispos salvadorenhos que tinham ido a Roma para agradecer ao Papa Francisco pela beatificação de dom Oscar Arnulfo Romero, ocorrida em maio de 2015.

O Papa continuou:

“Agora acredito que quase mais ninguém se atreva, mas, depois de ter dado a vida, ele continuou a dá-la, deixando-se açoitar por todas essas incompreensões e calúnias. Isso me dá forças, só Deus sabe. Só Deus sabe as histórias das pessoas e, quantas vezes, pessoas que já deram a vida ou que morreram continuam sendo apedrejadas com a pedra mais dura que existe no mundo: a língua!”.

Sangue de mártires, semente de cristãos

Desde o início da vida da Igreja, nós, cristãos, “sempre tivemos a convicção de que o sangue dos mártires é semente de cristãos, como diz Tertuliano”, recordou Francisco, acrescentando que “mártir não se nasce”. Mesmo hoje, há cristãos mártires que continuam derramando o sangue e representando “uma abundante messe de santidade, justiça, reconciliação e amor de Deus”. Ser mártir “é uma graça que o Senhor concede e que concerne de certo modo a todos os batizados”.

Dar a vida, porém, significa mais que ser assassinado. O Pontífice recordou palavras do próprio Dom Romero ao comentar:

“Dar a vida não significa apenas ser assassinados; dar a vida, ter espírito de martírio, é entregá-la no dever, no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever; no silêncio da vida cotidiana; dar a vida pouco a pouco”.

Perfil de Dom Romero

No início do discurso, o Papa tinha definido assim o beato Romero:

“Um pastor bom, cheio de amor de Deus e próximo dos seus irmãos, que, vivendo o dinamismo das bem-aventuranças, chegou até a entrega da sua vida de maneira violenta, enquanto celebrava a Eucaristia, Sacrifício do amor supremo, selando com o próprio sangue o Evangelho que anunciava”.

Por defender a “opção preferencial pelos pobres”, Dom Romero foi acusado de alinhamento com a teologia da libertação de inspiração marxista, corrente que, no entanto, ele próprio condenava. Para saber mais sobre isto, acesse o seguinte artigo: Dom Oscar Romero era adepto da teologia da libertação?

O perfil de Dom Romero “constitui um estímulo para uma renovada proclamação do Evangelho de Jesus Cristo”, prosseguiu Francisco ao mencionar a situação de El Salvador, país assolado por grande violência entre gangues: “terrível tragédia do sofrimento de tantos dos nossos irmãos por causa do ódio, da violência e da injustiça”.

Naquele outubro de 2015, a delegação salvadorenha entregou ao Bispo de Roma um relicário com o escapulário de Nossa Senhora do Carmo e um fragmento do corporal ensanguentado do bispo e mártir Dom Oscar Romero. Participaram da audiência com o Papa Francisco muitos salvadorenhos residentes na Itália, além de bispos, sacerdotes, religiosos e seminaristas.

Canonização

Em março de 2018, o Papa Francisco autorizou a Congregação das Causas dos Santos a promulgar os decretos que reconhecem os milagres atribuídos à intercessão dos hoje beatos Papa Paulo VI e Dom Oscar Romero, para que sejam canonizados.

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