Receba o boletim diário da Aleteia gratuitamente no seu email.
Aleteia

Papa Francisco admite que errou no caso do padre pedófilo acobertado no Chile

Papa Francisco caso Barros
Sobreposição em foto de FERNANDO LAVOZ / NurPhoto
Compartilhar
Comentar

Por não ter recebido informações completas, o Papa não sabia da conivência do bispo Barros

O Papa Francisco se pronunciou a respeito do relatório do “caso Barros“, elaborado pelo seu emissário especial ao Chile, dom Charles Scicluna. A referência é a dom Juan Barros, bispo da cidade chilena de Osorno, acusado de acobertar abusos sexuais perpetrados pelo padre chileno Fernando Karadima. O relatório de dom Scicluna confirma as acusações.

O que aconteceu

Dom Juan Barros foi nomeado bispo de Osorno em 15 de janeiro de 2015, pelo Papa Francisco. No dia em que o novo bispo tomou posse da diocese, um grupo de leigos protestou contra a nomeação e reiterou as denúncias de que Barros havia encoberto os crimes sexuais cometidos por Karadima.

Fernando Karadima já havia sido julgado e condenado pelo próprio Vaticano como culpado de pedofilia, efebofilia, abusos psicológicos e abuso de poder eclesiástico para amedrontar e calar suas vítimas, menores de idade. Ele foi suspenso para sempre do ministério sacerdotal e sua condenação por parte do Vaticano reabriu o caso também na esfera judicial chilena.

As vítimas do criminoso, no entanto, também acusavam o bispo Barros de ter acobertado o pedófilo, mas as provas dessa acusação não chegaram ao Papa Francisco. As informações repassadas a Francisco estavam sendo “filtradas” de modo a beneficiar o bispo.

Por isso, em 18 de janeiro deste ano, durante a sua visita apostólica ao Chile, o Papa declarou a um jornalista que o interrogara sobre o caso:

“No dia em que me trouxerem uma prova contra dom Juan Barros, eu vou falar a respeito. Não há nenhuma prova contra ele. Tudo é calúnia. Está claro?”

Em 22 de janeiro, no voo de volta para Roma, Francisco pediu desculpas por ter usado a palavra “prova” em sua afirmação anterior, que havia sido interpretada como uma espécie de desconsideração pelas vítimas. Mesmo assim, ele observou acerca do bispo acusado:

“Eu não posso condená-lo se não tenho evidências. E há muitos modos de obter uma evidência”.

Mesmo não tendo recebido ainda as provas alegadas, Francisco decidiu enviar dom Scicluna ao Chile para “ouvir as pessoas que manifestaram o desejo de submeter elementos ao processo“. A missão do enviado papal foi confirmada pela Santa Sé em 30 de janeiro.

Dom Scicluna, que é arcebispo de Malta, permaneceu no Chile de 19 a 28 de fevereiro, ouviu as vítimas, elaborou o relatório e, nele, confirmou as acusações das vítimas.

Reação do Papa Francisco

Em carta deste último 8 de abril, divulgada nesta semana pela Santa Sé, o Papa escreveu aos bispos chilenos:

“Pretendo convidá-los a Roma para dialogar sobre as conclusões da mencionada visita e as minhas conclusões”, com o objetivo “de fazer a verdade brilhar em nossas vidas”.

O presidente da Conferência Episcopal do Chile, dom Santiago Silva, declarou que o episcopado chileno compartilha a dor do Papa e confirma que todos os bispos estarão em Roma na terceira semana de maio.

Na carta, o Papa agradeceu a dom Scicluna e ao pe. Jordi Bertomeu Farnós, oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, pela “escuta serena e empática dos 64 testemunhos recolhidos” em Nova Iorque e Santiago. “Enviei vocês para escutá-los com o coração e com humildade“.

Tendo lido as mais de 2.300 páginas do relatório, o Papa declarou:

“Creio poder afirmar, após uma leitura atenta das atas do processo de escuta, que todos os testemunhos coletados falam de modo direto, sem acréscimos nem adocicamentos, de muitas vidas crucificadas. E lhes confesso que isto me provoca dor e vergonha”.

Pedindo aos bispos que ajudem a “restabelecer a comunhão eclesial no Chile, com o objetivo de reparar o quanto possível o escândalo e restaurar a justiça“, Francisco prossegue:

“No que diz respeito a mim, reconheço e quero que vocês transmitam com fidelidade que cometi graves equívocos de avaliação e percepção da situação, especialmente devido a uma falta de informação verdadeira e equilibrada. Por isso, peço perdão a todas as pessoas que ofendi e espero poder fazê-lo pessoalmente, nas próximas semanas, nas reuniões que terei com representantes das pessoas entrevistadas”.