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Quando um Papa admite que errou: cadê a infalibilidade?

Papa Francisco exercicios espirituais 2018
Vatican News
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Francisco, nesta semana: "Cometi graves equívocos de avaliação". Mas, afinal, o que é (e o que não é) a infalibilidade papal?

Nesta semana, o Papa Francisco enviou uma carta aos bispos chilenos afirmando que errou no caso do padre pedófilo Fernando Karadima, cujas vítimas também acusaram um bispo, dom Juan Barros, de acobertar o criminoso. Por não ter recebido informações completas sobre o caso no tocante ao bispo, o Papa não tinha em mãos as objetivas evidências sobre a conivência de dom Barros. O Vaticano já tinha condenado inapelavelmente o padre pedófilo, mas não se sabia, com a real clareza, até que ponto eram verdadeiras as acusações de acobertamento por parte do bispo de Osorno. Até que o Papa nomeou um emissário para ouvir as vítimas pessoalmente. Saiba mais sobre o caso neste artigo.

Após receber o relatório de seu emissário, Francisco declarou:

“No que diz respeito a mim, reconheço e quero que vocês transmitam com fidelidade que cometi graves equívocos de avaliação e percepção da situação, especialmente devido a uma falta de informação verdadeira e equilibrada. Por isso, peço perdão a todas as pessoas que ofendi e espero poder fazê-lo pessoalmente, nas próximas semanas, nas reuniões que terei com representantes das pessoas entrevistadas”.

Papa Francisco caso Barros
Sobreposição em foto de FERNANDO LAVOZ / NurPhoto

Mas o Papa não é infalível?

A infalibilidade papal é um dos conceitos que com mais frequência são mal compreendidos por muita gente – inclusive por católicos. Afinal, em que ela consiste e quando se aplica?

O que diz o Catecismo

A infalibilidade exerce-se quando o Romano Pontífice, em virtude da sua autoridade de supremo Pastor da Igreja, ou o Colégio Episcopal, em comunhão com o Papa, sobretudo reunido num Concílio Ecumênico, proclamam com um ato definitivo uma doutrina respeitante à fé ou à moral, e também quando o Papa e os Bispos, no seu Magistério ordinário, concordam ao propor uma doutrina como definitiva. A tais ensinamentos cada fiel deve aderir com o obséquio da fé” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 185).

Para manter a Igreja na pureza da fé transmitida pelos Apóstolos, Cristo quis conferir à sua Igreja uma participação na sua própria infalibilidade, Ele que é a Verdade. Pelo «sentido sobrenatural da fé», o povo de Deus «adere de modo indefectível à fé», sob a conduta do Magistério vivo da Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, 889).

«Desta infalibilidade goza o pontífice romano, chefe do colégio episcopal, por força do seu ofício, quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis, e encarregado de confirmar na fé os seus irmãos, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina respeitante à fé ou aos costumes […]. A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo dos bispos, quando exerce o seu Magistério supremo em união com o sucessor de Pedro», sobretudo num concílio ecumênico (425) Quando, pelo seu Magistério supremo, a Igreja propõe alguma coisa «para crer como sendo revelada por Deus» (426) como doutrina de Cristo, «deve-se aderir na obediência da fé a tais definições» (427). Esta infalibilidade abarca tudo quanto abarca o depósito da Revelação divina” (Catecismo da Igreja Católica, 891).

Comentários de um especialista

O pe. Ramiro Pellitero, professor de teologia na Universidade de Navarra, Espanha, é especialista em eclesiologia e teologia pastoral e membro da Catholic Theological Society of America. Em 2017, ele conversou com Aleteia precisamente sobre o conceito da infalibilidade papal:

Aleteia: Tudo o que um papa diz é infalível?

Pe. Ramiro: É claro que não. Primeiramente, infalível, em termos absolutos, só Deus é. A Igreja participa da infalibilidade divina em algumas condições, que são, segundo a tradição da própria Igreja:

  • as declarações de um concílio ecumênico presidido pelo Papa;
  • a definição “ex cathedra” de um Papa, quando proclama um novo dogma;
  • os ensinamentos dos bispos em comunhão com o Papa;
  • o que pertence à fé do povo de Deus (chamado de “senso fidei”), em comunhão com os seus pastores.

Aleteia: Passamos de uma tradição milenar de comunicação eclesial pausada e medida a uma superexposição midiática dos Papas, o que os torna cada vez mais próximos, mais “humanos” e menos “sacralizados” que em épocas passadas. No entanto, isso não significa que o Papa seja menos infalível nos seus pronunciamentos. Como podemos entender esta nova situação?

Pe. Ramiro: Fora das condições de infalibilidade anteriormente comentadas, o Papa continua sendo o Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, e todos os seus ensinamentos devem ser escutados pelos católicos com muito respeito e consideração. As afirmações papais contidas em documentos como encíclicas, exortações etc., terão maior ou menor valor doutrinal segundo a sua relação com as verdades da fé cristã. Um valor ainda diferente é o das suas afirmações em livros ou entrevistas, segundo a sua relação com doutrinas já proclamadas pela Igreja como tais. Mas, nestes casos, como já aconteceu com João Paulo II e Bento XVI, o Papa se submete à crítica, sobretudo a uma crítica saudável e construtiva, dos especialistas nas diversas matérias e inclusive de qualquer pessoa. (…) Os limites [da opinião particular] estão na revelação cristã: se algo pertence claramente à revelação e foi declarado como tal pela Igreja, cabe continuar aprofundando e desenvolvendo os seus conteúdos, mas sempre na mesma linha. (…) [O Papa propõe] um falar combinado com uma escuta, e o Papa escuta muito, para dar testemunho da tradição cristã. Dessa maneira, também aprendemos o valor do testemunho, da vida e da palavra que precisamos dar sobre a nossa fé, como cristãos; tudo isso junto com uma atenção efetiva pelos outros.