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Franciscano na Síria: “Assad não usa armas químicas. É tudo uma grande mentira”

Padre Bahjat Elia Karakach
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Padres católicos na região denunciam: "A imprensa deveria dizer toda a verdade"

O padre Bahjat Elia Karakach, franciscano da Custódia da Terra Santa, é um dos mais respeitados religiosos católicos na Síria. Superior do convento dedicado à conversão de São Paulo, a principal paróquia de rito latino na capital, Damasco, ele usa palavras duríssimas para denunciar que o governo sírio está sendo alvo de uma mentira alimentada pelos Estados Unidos e pelos seus aliados na Europa, no Golfo Pérsico e no Oriente Próximo.

O padre Bahjat se refere às acusações de que o governo do ditador Bashar Al-Assad teria usado armas químicas contra civis na região de Goutha, a poucos quilômetros de Damasco, na semana passada. O suposto ataque já foi negado também pelos russos, aliados de Assad, que acusam os norte-americanos e britânicos de terem forjado esse crime com a manipulação de informações e imagens alegadamente tiradas do seu real contexto.

Goutha é um dos últimos enclaves que restam nas mãos dos rebeldes contrários ao ditador Assad. A maioria deles é formada por milicianos da Al-Qaeda.

Não se trata de uma defesa de Assad e da sua ditadura por parte do pe. Bahjat, como, precipitadamente, alguns críticos interpretaram. Trata-se de uma denúncia de manipulação e de um pedido para que todos os lados desta guerra absurda e genocida sejam claramente levados em conta, sem assumir como verdadeira apenas a versão vendida por influentes segmentos da mídia mundial.

Sadduldin Zaidan / ANADOLU AGENCY

O padre Bahjat afirma:

“A quem me pergunta sobre o uso de armas químicas pelo governo, eu gostaria de lembrar que, em 2003, o Iraque foi atacado pelos Estados Unidos e seus aliados com a justificativa de combater um regime que tinha armas químicas. E era mentira”.

E prossegue:

“Toda vez que o exército sírio consegue reconquistar uma área que tinha sido tomada pelos rebeldes terroristas, acontece uma armação para convencer a opinião mundial de que o regime sanguinário precisa ser combatido. Tudo isso é uma grande mentira porque o nosso governo não é estúpido de fazer uma coisa que daria margem para um ataque ocidental. O exército não precisa usar armas químicas, elas já foram desmanteladas sob o controle dos russos, já faz alguns anos. Hoje se avança sem o uso desses métodos para vencer a guerra contra o terrorismo”.

Motivações econômicas

Para o padre Bahjat, as vitórias do regime de Assad contra os rebeldes terroristas não interessam ao mundo ocidental e aos seus aliados no Golfo Pérsico.

“Isto [os avanços do exército sírio] desagrada quem financia os terroristas. E nós dizemos isto sem papas na língua”. 

A quem ele se refere?

“O mundo ocidental que sustenta os terroristas, instrumentos e aliados dos estados árabes do Golfo, principalmente a Arábia Saudita, para defender os interesses desses países e de Israel. Digam isso. Falem desta grande mentira, vamos dizer a verdade!”

A mídia e sua ênfase em apenas um lado

Embora seja notório que o regime ditatorial de Bashar Al-Assad tenha perpetrado graves abusos e violências contra o povo da Síria, também é verdade que as atrocidades perpetradas pelos rebeldes são bastante menos denunciadas pela mídia ocidental.

As muitas dúvidas sobre o que de fato aconteceu em Goutha semana passada, porém, têm forçado os comentaristas a abordarem também as outras versões. Mas as acusações de mentiras, omissões e deturpações da realidade no país massacrado pela guerra não são recentes: quem vive em primeira mão o contexto local as vem fazendo há anos.

Entre os que denunciam a tergiversação dos fatos, não faltam bispos, sacerdotes e religiosas católicos, sejam do rito latino, sejam dos ritos católicos orientais presentes na região.

“Ninguém fala do que está acontecendo aqui em Damasco. Mas faz semanas que estamos sob o bombardeio dos rebeldes. As escolas estão fechadas, a vida social e econômica está paralisada. Até poucos minutos atrás, estivemos sob ataque dos morteiros de Goutha, dos rebeldes”.

Os dois lados da moeda

O pe. Munir Hanashy, pároco em Damasco e diretor das escolas salesianas da capital síria, foi entrevistado por telefone poucas horas depois de um dos bombardeios dos rebeldes contra a cidade, no começo de março. Ao site italiano Il Sussidiario, ele declarou que está na hora de admitir que existem dois lados da moeda e que a situação não é simplória como foi pintada por Obama e Trump e pela maior parte da mídia ocidental, tanto de esquerda quanto de direita.

Mísseis dos rebeldes contra civis

O pe. Munir afirma que sangrentos ataques com mísseis são feitos pelos rebeldes em resposta aos bombardeios das tropas governistas de Bashar Al-Assad.

“Em Damasco faz anos que somos atacados. Você acha que um governo não pode reagir e tentar acabar com os chamados rebeldes para nos defender? Nem são mais ataques só com morteiros: eles aprenderam a fazer mísseis e é isso o que eles estão lançando contra nós”.

Sequestros e violência

O padre também descortina o pano de fundo dos massacres para além das explosões:

“No meio de tudo isto, infelizmente, ficam os civis de ambos os lados, mas ninguém diz que, quando tinha acabado de começar a trégua proposta por Putin, com os corredores humanitários, os atiradores rebeldes alvejavam os civis de Goutha que tentavam escapar. Ou que muitos civis são sírios sequestrados que estão presos em jaulas ao longo da fronteira para que o nosso exército não possa bombardear a região [ocupada pelos rebeldes]. Eles usam escudos humanos. Sempre usaram nesta guerra, inclusive em Aleppo”.

“Enormes explosões”

A irmã Yola, missionária do Coração Imaculado de Maria em Damasco, testemunhou logo após uma noite de bombardeios em março:

“Não dormimos esta noite. Das 2h às 5h as explosões foram contínuas. Cerca de um mês atrás tudo estava quieto, parecia quase que a guerra tinha acabado, a não ser em Bab Touma, onde os mísseis continuaram sendo lançados. Mas depois da chegada do exército os lançamentos de mísseis aumentaram. Os mísseis nos apavoram porque causam explosões enormes”.

Em Bab Touma foi atingido, entre tantos outros civis, o menino Lias, de 8 anos de idade. Seus pais tinham tentado durante anos até conseguirem ter um filho, para que depois o pequeno fosse assassinado pelos mísseis rebeldes. A religiosa prosseguiu, em suas declarações de março que ainda seriam válidas hoje:

“Bab Touma é agora o lugar mais perigoso. Faz duas semanas eu tive que ir lá e saí muito rápido para tentar evitar os mísseis. Escapei por muito pouco. Logo depois que saí, os rebeldes lançaram 11 mísseis. Foi um verdadeiro pesadelo”.