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Reencarnar para “progredir”?

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Será que a “lei do progresso das almas” existe mesmo? Confira

A lei do progresso, assim como os reencarnacionistas a entendem, é universal, uma força viva da natureza, e não pode ser frustrada. O homem pode, talvez, fazer-lhe oposição por algum tempo, pode estacioná-la temporariamente: mais dia, menos dia, porém, ele terá que continuar em sua marcha à perfeição final.

Todos, absolutamente todos, chegarão a ela: não existe, nem mesmo é possível coexistir com a lei do progresso, um estado definitivo de condenação sem fim e sem esperança de conseguir esta meta.

É por isso que todos os reencarnacionistas, com uma unanimidade rara, rejeitam decididamente a tradicional doutrina cristã sobre o inferno. É a razão por que Allan Kardec, num texto expressivo que já vimos, declara que:

O dogma da eternidade absoluta das penas é incompatível com o progresso das almas, ao qual opõe uma barreira insuperável. Esses dois princípios (a eternidade do inferno e o constante progresso das almas) destroem-se, e a condição indeclinável de existência de um é o aniquilamento do outro. [1]

O dilema proposto é claro e incisivo: ou admitimos a lei do progresso (e, portanto, a reencarnação), ou admitimos o dogma da eternidade do inferno (e, portanto, rejeitamos a palingenesia); os dois não podem coexistir: quem afirma a eternidade das penas negará a reencarnação, será contra a palingenesia.

Assim sendo, querendo saber se Cristo era ou não reencarnacionista, podemos, agora, formular nossa pergunta da seguinte maneira: qual destes dois princípios (eternidade das penas ou progresso irreprimível e universal das almas) foi ensinado por Cristo?

E a resposta absolutamente certa e indiscutível é: Cristo, de fato, ensinou a eternidade das penas do inferno. Logo, concluíra o próprio Allan Kardec, se quiser ser consequente, a mensagem de Jesus é incompatível com a filosofia da reencarnação.

Seria realmente prolixo citar aqui todos os textos dos quatro evangelhos que os evangelistas colocam na boca do Divino Mestre e que nos falam da possibilidade de uma condenação “eterna” (cf. Mt 5, 29; 8, 12; 13,50; 22, 13; 25, 30.41; Mc 3, 29; Lc 16, 19-31).

Ressalto apenas que Cristo, de fato, não podia usar de palavras mais evidentes e incisivas para nos ensinar a existência e a eternidade do inferno. Pois, em quase cada sermão que fazia, Jesus apontava para os tremendos castigos depois da morte. Basta lembrar que, no juízo final, a sentença definitiva do Divino Juiz sobre os maus será: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para seus anjos” (Mt 25, 46); e Jesus acrescenta que “estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

Neste texto, Jesus estabelece um perfeito paralelo entre a sorte dos justos (que é de “vida eterna”) e a dos maus (que é de “castigo eterno”): uma e outra são simplesmente “eternas”. Se, pois, a vida “eterna” dos justos é sem fim, sem fim será também o castigo “eterno”. Pois a mesma palavra, na mesma proposição e em igual contexto, deve ser tomada no mesmo sentido.

A eternidade no sentido de “duração sem fim” é afirmada também por Jesus em Mt 18, 8-9, comparado com o texto paralelo de Mc 9, 42-47: o “eterno” de Mt 18, 8 é descrito em Mc 9, 43.48 como “fogo que não se apaga”. Já João Batista havia falado de um “fogo que não se apaga” (cf. Mt 3, 12; Lc 3, 17).

Particularmente pertinente é o que nos relata Lc 13, 23-28: alguém lhe perguntou: “Senhor, é pequeno o número dos que se salvam?” Jesus respondeu:

Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não o conseguirão. Uma vez que o dono da casa houver se levantado e tiver fechado a porta e vós, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: “Senhor, abre-nos”, ele vos responderá: “Não sei de onde sois”. Então começareis a dizer: “Nós comíamos e bebíamos em tua presença, e tu ensinaste em nossas praças”. Ele, porém, vos responderá: “Não sei de onde sois; afastai-vos de mim, vós todos, que sois malfeitores!” Lá haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, lançados fora.

Não adianta negar tão claros ensinamentos divinos. Contra aqueles que negam a reencarnação, Allan Kardec teceu, do seu ponto de vista, uma mui judiciosa ponderação: “Como quer que opinemos acerca da reencarnação, quer a aceitemos, quer não, isso não constituirá motivo para que deixemos de sofrê-la, desde que ela exista, malgrado todas as crenças em contrário”, pois, considera ele no mesmo contexto: “Deus não nos pede permissão, nem consulta os nossos gostos para regular o universo” [2].

É isso mesmo. Parafraseando, diremos: como quer que se opine acerca do inferno, quer o aceitemos, quer não, isso não constituirá motivo para não sermos condenados a ele, desde que ele exista, malgrado todas as vontades humanas em contrário, pois Deus sabe o que faz e não consulta nosso parecer. As admoestações divinas estão aí, nos evangelhos.

Deus, evidentemente, quer a salvação de todos. A todos dá as graças necessárias e a ninguém nega os auxílios suficientes. É certo que só vai para o inferno quem voluntária, consciente e gravemente ofende a Deus e neste estado morre impenitente. Mas estes irão mesmo. Não adiantará choramingar. Deus lhes dirá, como lemos no sagrado livro dos Provérbios 1, 24 e seguintes:

Mas, visto que eu vos chamei, e vós não quisestes ouvir-me; visto que estendi a mão, e não houve quem olhasse para mim; visto que desprezastes todos os meus conselhos, e não fizestes caso das minhas repreensões, também eu me rirei da vossa ruína, e zombarei de vós, quando vos suceder o que temíeis. Quando vos assaltar a calamidade repentina e colher a morte como um temporal; quando vier sobre vós a tribulação e a angústia, então me invocarão e eu não os ouvirei; levantar-se-ão de madrugada, e não me encontrarão; porque eles aborreceram as minhas instruções, e não abraçaram o temor do Senhor, nem se submeteram ao meu conselho e desprezaram todas as minhas repreensões. Comerão, pois, os frutos de seu mau proceder e fartar-se-ão dos seus conselhos.

Não há dúvida, existem aspectos bem difíceis de entender na doutrina de Cristo sobre a tremenda possibilidade de sermos condenados para sempre à exclusão da visão beatífica (inferno significa em primeiro lugar “exclusão do céu”; as penas são secundárias). Mas quem compreende a vocação natural e sobrenatural de todos os homens; quem conhece a necessidade, o valor e o risco da liberdade; quem procurou penetrar na natureza do pecado grave, consciente e deliberadamente perpetrado; quem se deu conta da necessidade de um limite do tempo de prova; este verificará facilmente que o aspecto mais difícil ou misterioso não é propriamente a existência do inferno, nem sua eternidade, mas o triste fato de existirem seres racionais que, não obstante, abusam da sua liberdade para enfrentar a eventualidade do inferno.

O verdadeiro problema, a dificuldade principal, está na existência da culpa grave consciente e livremente cometida por uma criatura de Deus! Como e por que permite Deus que sua criatura racional, o homem, “única criatura na terra que Deus quis por si mesma” [3], possa, desgraçadamente, decidir-se para a culpa grave? Eis aí a verdadeira raiz do “mistério do inferno”.

E exatamente este problema existe também para os reencarnacionistas. Pois ninguém pode racionalmente contestar a realidade do pecado grave e livremente cometido pelo homem, e, por conseguinte, existe para todos o indicado e difícil problema.

Também para os reencarnacionistas nem tudo é claro. O próprio Allan Kardec indaga dos “espíritos superiores”: “Por que há Deus permitido que os espíritos possam tomar o caminho do mal?” E a resposta do “além” se resolve, afinal, também, num apelo ao mistério. Eis a resposta que Kardec garante ter recebido: “Como ousais pedir a Deus contas de seus atos? Supondes poder penetrar-lhe os desígnios?” [4].

Em outra oportunidade Kardec diz ter recebido esta resposta: “Há muitas coisas que não compreendeis, porque tendes limitada a inteligência. Isso, porém, não é razão para que as repilais” [5]. Também lhe dizem que “Deus pode revelar o que à ciência não é dado aprender” [6] e falam do “orgulho dos homens, que julgam saber tudo e não admitem haja coisa alguma que lhes esteja acima do entendimento” [7].

Muito iludidos estão os que pensam que o cristianismo é a religião da comodidade e do puro sentimentalismo. Disse Cristo:

Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, senão a espada. Vim para fazer separação entre filho e pai, entre filha e mãe, entre nora e sogra […]. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim. Quem não tomar a sua cruz e me seguir não é digno de mim. Quem procurar possuir a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, possuí-la-á (Mt 10, 34-39).

Allan Kardec ilude-se conscientemente a si mesmo e a todos os seus sequazes, quando escreve que Cristo “se limitou a falar vagamente da vida bem-aventurada, dos castigos reservados aos culpados, sem referir-se jamais nos ensinos a castigos e suplícios corporais” [8].

Iludem-se também nossos espíritas, quando anunciam triunfalmente que “o espiritismo forneceu a chave que permite ler o Evangelho sem calafrios e provou que Deus é, em verdade, justo e bom”.

Iludem-se ainda tremendamente, quando não apenas sustentam que a Bíblia não se refere ao sofrimento eterno do condenado, mas ainda blasfemam da seguinte maneira:

Se conseguissem convencer-nos de que é isso o que a Bíblia afirma, nós a renegaríamos como falsa; e se nos provassem que ela é autêntica (isto é, que ela vem de Deus), nós renegaríamos o próprio Deus, porque não podemos adorar uma entidade cujos sentimentos de amor, justiça e misericórdia sejam inferiores aos nossos. E se há um Deus capaz de condenar uma de suas criaturas a sofrer eternos horrores por uma falta momentânea, cometida contra quem for, então esse Deus está muito abaixo das solas dos nossos sapatos. Nós nos julgaremos, por isso, muito superiores a um tal Deus!… [9].

Notas

  • Trecho extraído e levemente adaptado de Espiritismo: Orientação para Católicos. 9.ª ed., São Paulo: Loyola, 2014, pp. 107-110.

(via Pe. Paulo Ricardo)