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Planejamento financeiro da família católica (2)

Por pikselstock/Shutterstock
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Quais são as diretrizes para um bom planejamento financeiro familiar católico?

No artigo anterior sobre o tema, explicamos sólidos fundamentos pelos quais as famílias católicas devem realizar um bom planejamento financeiro. No artigo de hoje, trazemos boas diretrizes para bem fazê-lo.

Diretrizes para um planejamento familiar católico

Tal como aponta o (Compêndio da Doutrina Social da Igreja) CDSI em seu artigo 360:

“Para contrastar este fenômeno [do consumismo] é necessário esforçar-se por construir ‘estilos de vida, nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom, e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento’. É inegável que as influências do contexto social sobre os estilos de vida são notáveis: por isso o desafio cultural que hoje o consumismo apresenta deve ser enfrentado de modo mais incisivo[…].”.

Como adquirir uma casa maior para nossa família crescente, se mal conhecemos nossas despesas mensais, não realizamos ajustes e não poupamos o suficiente? Se posso economizar algum valor por mês e utilizá-lo para um investimento de médio e longo prazo (aluguel ou compra de uma casa maior, o pagamento de uma boa educação para os filhos, por exemplo), para que comprar itens supérfluos (roupas, celulares, etc.) quando o que já temos nos atende? Se podemos fazer as refeições em casa, com nossas famílias, conversando e fortalecendo o convívio, por que fazê-las fora de casa, sozinhos, pagando mais caro e comendo, muitas vezes, alimentos não sempre saudáveis? Como reservar recursos para a ajuda aos necessitados e às obras da Igreja se mantemos o hábito de consumir bens supérfluos?

O ponto crucial das questões acima é: qual o custo de oportunidade das opções que renuncio e qual o impacto disso no equilíbrio financeiro da família e alcance de seus objetivos conjuntos. O custo de oportunidade é um conceito de ampla utilização em economia, relacionado à ideia de otimização.

“Acordamos com o custo de oportunidade todos os dias. Quando o despertador toca, pensamos na melhor escolha a fazer: dormir mais 10 minutos ou ‘pular’ da cama e chegar no trabalho no horário? Comparando a satisfação do sono extra com a de chegar cedo no trabalho, muitos travam o despertador e dormem mais 10 minutos! (GONÇALVES, 2010, p. 20).”. “[…] Um consumidor que compra um bem [ou faz uma escolha], mas poderia comprar [ou escolher] outro, incorreu num custo de oportunidade. O bem comprado [ou escolha feita] lhe dá satisfação, mas o que deixou de comprar [ou de escolher] foi uma oportunidade que também lhe daria satisfação. O custo de oportunidade de escolher o primeiro é a satisfação perdida por ter desistido da melhor alternativa seguinte à escolha que fez. […] O custo de oportunidade permite comparar o que se obteve (satisfação ou lucro) e o que se deixou de obter. […] (GONÇALVES, 2010, p. 19-20).”.

Nesse contexto, o artigo 358 do CDSI aponta que

“[…] hoje, mais do que no passado, é possível avaliar as alternativas disponíveis não somente tomando por base o rendimento previsto ou ao seu grau de risco, mas também exprimindo em juízo de valor sobre os projetos de investimento que os recursos irão financiar, na consciência de que ‘a opção de investir num lugar em vez de outro, neste setor produtivo e não naquele, é sempre uma escolha moral e cultural’”.

Considerando o exposto propomos um “passo a passo” para auxiliar as famílias católicas a exercitarem um bom planejamento financeiro:

Passo Comentário
1) Conhecer detalhadamente a receita da família  É preciso ter em conta que esforços de trabalho poderão ser maiores em alguns momentos para aumentar a receita e alcançar objetivos definidos ou menores em função de flutuações econômicas e de emprego – nesse caso, será necessário proceder com ajustes nas despesas correntes.
2) Conhecer detalhadamente as despesas da família  É de bom alvitre manter a prática de identificar oportunidades de enxugamento de despesas e de negociação de preços e formas de pagamento.
3) Estabelecer objetivos metas familiares a) Objetivo é o propósito de realizar algo, é aonde se quer chegar. É ele que fornece a direção do que se deseja fazer, serve como guia. É a posição que se deseja ocupar no futuro, o sonho que se deseja realizar (LOBATO et al., 2012). Ex.: Objetivo: adquirir uma casa maior para a família crescente.

b) Metas são tarefas específicas para alcançar os objetivos. A meta é o objetivo de forma quantificada. Após priorizar os objetivos, eles precisam ser transformados em desafios intermediários no curto prazo, ou metas. As metas são temporais e estritamente ligadas a prazos. Uma boa dose de estímulo e desafio deve ser colocada na determinação das metas, porém, é preciso elaborar metas factíveis (LOBATO et al., 2012). Ex.: Objetivo: adquirir uma casa maior para a família crescente; Meta 1: Economizar x em y anos (meses); Meta 2: Trocar a casa w para a z, no valor h, em j anos.

 

c) Devem ser estabelecidos objetivos e metas familiares de curtíssimo (menor que 1 ano), curto (1 ano), médio (2-5 anos) e longo (maior que 10 anos) prazos.

4) Definir as melhores opções financeiras para o alcance dos objetivos e metas definidos e com base no conhecimento de receitas e despesas familiares Comprar à vista ou a prazo? Utilizar cartão de crédito ou dinheiro? Utilizar capital próprio ou empréstimo? Aplicação em renda fixa ou variável?
5) Definir plano de ação para alcance dos objetivos, por meio do detalhamento das metas a) Os objetivos metas estabelecem o que será alcançado e quando os resultados serão obtidos, mas eles não dizem como os resultados serão alcançados. Para cada objetivo, portanto, é necessário que se definam as estratégias para a sua viabilização. Esse conjunto de conceitos e ações pode ser organizado com a elaboração de um plano de ação. O plano de ação é uma ferramenta significativa no processo de desdobramento, organização e execução de estratégia. O processo de elaboração envolve aspectos técnicos, administrativos e pedagógicos, estabelecendo um balanceamento entre a responsabilidade individual e o compromisso coletivo (LOBATO et al., 2012).

b) Para uma rápida identificação dos elementos necessários à sua implementação, o plano de ação pode estruturar-se pela ferramenta 5W2H, que significa: what (o que será feito?); who (quem fará ?; when – quando será feito?; where – onde será feito?; why – por que será feito?; how – como será feito?; how much – quanto custará?) (LOBATO et al., 2012).

6) Monitorar constantemente receitas e despesas Para auxiliar o monitoramento, devem ser utilizadas planilhas e programas específicos de gestão financeira.
7) Realizar ajustes no planejamento familiar Os itens 3, 4 e 5 devem ser analisados constantemente e revisados de acordo com eventuais mudanças de objetivos da família.

 

Felizmente, são cada vez mais comuns os serviços de assessoria financeira que podem ajudar às famílias, principalmente, no início de sua caminhada. Quem não tem condições de contratar tais serviços pode obter informações resumidas na internet, tal como pretendeu este artigo.

É necessário, como explanado anteriormente, cultivar bons hábitos que possibilitem uma católica gestão financeira familiar, tais como:

  • Criar na família uma cultura de diálogo e de planejamento financeiro familiar;
  • Contribuir com o dízimo e com outras obras da igreja;
  • Incentivar os filhos a participarem de trabalhos de ajuda ao próximo, preferencialmente em ações da igreja, criando uma cultura de caridade e solidariedade;
  • Incentivar aos filhos a ajudar nas atividades domésticas, criando uma cultura de disciplina, organização e co-responsabilidade, bem como a participarem de trabalhos remunerados, desenvolvendo o hábito do planejamento, trabalho em equipe, respeito à hierarquia e da meritocracia;
  • Incentivar desde cedo os filhos a participarem na construção e no alcance dos objetivos e das metas familiares;
  • Criar o hábito de poupar na família (diferentemente da avareza, um dos pecados capitais, a poupança possibilita o alcance dos objetivos familiares), evitando gastos com bens supérfluos;
  • Criar o hábito de acompanhamento de receitas e despesas, ajustando-as aos objetivos e metas familiares.

A necessidade das Virtudes: Naturais (adquiridas) e Sobrenaturais (infusas)

Como nos direciona claramente o artigo 359 do CDSI, o

“uso do próprio poder aquisitivo há de ser exercido no contexto das exigências morais da justiça e da solidariedade e de responsabilidade sociais precisas: Não se há de esquecer o dever da caridade, isto é, o dever de acorrer com o ‘supérfluo’, e às vezes até com o ‘necessário’, para garantir o indispensável à vida do pobre”.

Para fechar este ensaio optou-se por retomar a ideia das Virtudes, pois tudo o que fazemos deve ser para a Maior Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para tanto, recorramos ao que o Padre Royo-Marín nos explica sobre as virtudes naturais e sobrenaturais.

As Virtudes Naturais são aquelas adquiridas naturalmente, independentemente da graça e da ordem sobrenatural. Por mais estimáveis que sejam em sua ordem e plano correspondente, são totalmente desproporcionadas e ineptas para a vida sobrenatural que há de viver o cristão. Se os atos constantemente repetidos são bons, adquire-se pouco a pouco o hábito bom correspondente, que em teologia moral recebe o nome de virtude natural ou adquirida. Tais são, por exemplo, a prudência, a lealdade, a sinceridade, a honradez natural, etc., adquiridas naturalmente a custo da repetição de seus atos correspondentes.

Já as Virtudes Sobrenaturais, ou Infusas, são aquelas infundidas por Deus juntamente com a graça, para que possa operar sobrenaturalmente, e o divino, com ajuda dos dons do Espírito Santo. Possuem dois grupos fundamentais: Virtudes Teologais (apenas três: fé, esperança e caridade) e Virtudes Morais (subdivididas em: cardeais – prudência, justiça, fortaleza e temperança; potenciais ou derivadas – ex.: humildade, obediência, paciência, castidade, perseverança, etc.). As Virtudes Morais estão em perfeita analogia e paralelismo com as correspondentes Virtudes Naturais (adquiridas). As Virtudes Teologias são estritamente divinas, porque têm por objeto direto e imediato o próprio Deus, e não têm, pela mesma razão, virtudes correspondentes na ordem natural adquirida.

A família deve, portanto, por meio da oração, pedir a Deus que a infunda de Virtudes Sobrenaturais (Teologais e Morais) e praticar as Virtudes Naturais, adquiridas por meio da repetição constante. Assim, poderá controlar seus vícios e evitar pecados, tais como, preguiça, avareza, ganância, inveja, em busca de sua santificação.


Referências

  • Catecismo da Igreja Católica. Edição Típica Vaticana. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
  • Compêndio da Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005.
  • LOBATO, D. M. et al. Estratégia de empresas. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. 208 p.
  • GONÇALVES, A. C. P. et al. Economia Aplicada. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. 152 p.
  • DUHIGG, C. O poder do hábito – por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios. Rio de Janeiro, Objetiva, 2012. 407 p.
  • ROYO-MARÍN, A. Ser santo ou não ser… eis a questão – Compêndio da obra Teología de La perfección cristiana. 1 ed. Campinas, SP: Ecclesiae, 2016. 371 p.
  • AQUINO, F. R. Q. Família: santuário da vida – vida conjugal e educação dos filhos. 23. ed. Lorena, SP: Editora Cléofas, 2016. 232 p.
  • LINDENBERG, A. Uma visão cristã da economia de mercado. São Luís, MA: Resistência Cultural, 2017. 247 p.
(via Lírio entre espinhos)