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Crianças mostram a face mais dramática da crise de saúde na Venezuela

HUNGER

@GuardianCatolic

Niños Hurgando en la basura para poder comer.

Agências de Notícias - publicado em 20/05/18

Luisito deve ser operado do tumor cerebral que paralisa parte do seu corpo, mas pegou catapora em um hospital infantil de Caracas e precisa aguardar. Em outro quarto, Yuriángela não sabe se conseguirá fazer a próxima sessão de quimioterapia.

Perto de Luis, um menino moreno de oito anos, dorme um bebê de quatro meses com macrocefalia. Um mosquiteiro tenta protegê-la do contágio. Sua cabeça acumula uma grande quantidade de líquido e precisa de uma válvula de drenagem que o hospital não tem.

Caso após caso, a falta de medicamentos, que segundo a Federação Farmacêutica chega a 80%, e de insumos médicos compõem um dos problemas mais críticos durante o governo de Nicolás Maduro, que neste domingo (20) tenta a reeleição.

No quarto de Luis também está Anthony Noguera, de sete anos. Está com um buraco nas costas por uma ferida de operação que está aumentando. Nem o centro médico nem as farmácias têm curativos de cicatrização.

Este só é conseguido em dólares, assegura à AFP sua avó María Silva. “Não temos. Estamos entre a cruz e a espada”, acrescentou, resignada.

Os casos poderiam ser facilmente solucionados se importassem remédios e insumos, assegura Édgar Sotillo, médico que os trata no hospital infantil J. M. de los Ríos, no centro de Caracas.

“Não temos medicamentos. Estamos vendo catapora, tuberculose, malária, sarna. Às vezes o hospital não tem água. Os pacientes são infectados e não existem antibióticos, e os casos se complicam”, explicou.

– Luta pela sobrevivência –

Primeiramente, Luisito foi levado a um hospital de Valencia (norte) quando parou de mexer um dos braços.

“Mas ficou um mês sem que fizessem nada porque não havia remédios lá. Não podemos comprá-los fora, até para beber água tenho que pedir”, disse à AFP Ingrid Saavedra, avó do menino.

Em uma mesa há uma pequena embalagem com ovos mexidos, única comida do dia oferecida pelo hospital.

Culpando pela crise uma “guerra econômica” e as sanções dos Estados Unidos, Maduro pede o voto prometendo resolver em breve a escassez de alimentos e remédios.

Mas Yuriángela, de 16 anos, não tem tempo. Junto com outras crianças com câncer, se descompensa em um quarto frio enquanto faz a quimioterapia para sua metástase pulmonar.

Sua mãe, Suger Najme, chora porque não sabe como conseguirá o próximo tratamento. A falta de remédios chega a 95% em doenças crônicas como o câncer.

“Faltam 17 ‘quimios’ para ela. Faltam vários medicamentos, temos que começar novamente a nossa luta. Tive que comprá-los lá fora. Não temos os recursos, mas temos recebido ajuda”, assinalou.

Luana Rojas, de quatro anos, por sua vez, recorta as letras do abecedário enquanto recebe o tratamento para um glioma de tronco cerebral.

“Estivemos dois meses sem conseguir a quimioterapia. Isso é responsabilidade dos governantes, que só nos levam em conta quando” protestamos, disse à AFP sua mãe, Rosa González.

Na área de oncologia, os equipamentos de tomografia, ressonância magnética e radioterapia estão danificados.

– Os médicos vão embora –

Na Venezuela são frequentes as manifestações por falta de remédios e insumos, que o governo importa cada vez menos após a queda dos preços e da produção de petróleo, fonte de 96% das divisas.

Dois médicos foram detidos na segunda-feira em um protesto em um hospital de Maracaibo, capital do estado petroleiro de Zulia, denunciou a principal universidade da região.

No J.M. de los Ríos tampouco existem reativos para exames de sangue, há tubos quebrados, somente um elevador funciona e “ratos e baratas” percorrem os corredores, segundo os médicos.

“Não podemos operar porque faltam insumos. Existem pacientes que melhoraram, mas pela falta de medicamentos a situação complica e falecem”, disse uma médica sob anonimato.

Belén Arteaga, chefe de Nefrologia, confessou que ganha apenas o salário mínimo: 2,5 milhões de bolívares – 36 dólares no câmbio oficial e três dólares no mercado negro -, que não dão para um quilo de carne devido à hiperinflação.

No ano passado, Belén viu quatro crianças morrerem por falta de antibióticos.

“Os médicos vão embora. Tínhamos três residentes, dois saíram: para uma o salário não dava para pagar a casa onde morava, a outra saiu do país”, indicou.

Segundo a Sociedade Médica Venezuelana, 30% da equipe médica emigrou. A mortalidade infantil aumentou 30,12% em 2016 em relação a 2015 – 11.466 mortes de menores de um ano -, de acordo com a última cifra oficial.

Huniades Urbina, chefe da Sociedade de Puericultura e Pediatria, assegura que isso aumentou. “Temos uma crise humanitária, números da África subsariana”, lamentou.

(AFP)

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