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Abusos sexuais na Igreja do Chile

CHILE

See-ming Lee-(CC BY-NC 2.0)

Vanderlei de Lima - publicado em 24/05/18

O poderoso lobby era tão bem organizado que as provas dos processos canônicos foram adulteradas ou sumiram

Os casos de abusos sexuais de menores cometidos por alguns clérigos chilenos e o cúmplice acobertamento dos abusadores pelos seus superiores religiosos e/ou bispos revelou ao mundo uma chaga putrefata merecedora da nossa atenção.

Em linhas gerais, deu-se o seguinte: uma informação segundo a qual, no Chile, havia abuso de pessoas por parte de membros do clero parece ter pego o Papa Francisco de surpresa, de modo que ele, logo, qualificou o fato como boato. Pressionado, no entanto, pelas vítimas, ajudadas por meios de comunicação, o Santo Padre, quase de imediato, se desculpou e nomeou Dom Charles Scicluna, arcebispo na ilha de Malta, para investigar as denúncias.

Resultado: os casos eram verdadeiros. E mais: os pedófilos, longe de receber punição exemplar, foram protegidos por seus superiores religiosos e/ou bispos, o que, a seu modo, revelou um grande lobby de intocáveis criminosos dentro da Igreja no Chile. “Os problemas que hoje são vividos dentro da comunidade eclesial não se resolvem apenas abordando os casos concretos e reduzindo-os à remoção de pessoas; Isso – e digo claramente – deve ser feito, mas não é suficiente, precisamos ir além. Seria irresponsável da nossa parte não nos aprofundarmos nas raízes e estruturas que permitiram que esses eventos concretos acontecessem e se perpetuassem”, afirmou o Papa (cf. Boletim Religion en libertad, online, 19/05/2018 – trad. nossa).

A investigação de Scicluna concluiu ainda que as vítimas de abuso sofreram não só ao serem abusadas, mas também ao receberem o grande desprezo dos Pastores que deveriam protegê-las desses lobos vorazes. Sim, denúncias foram tidas como mentirosas ou não investigadas com rigor e no tempo certo; suspeitos de práticas homossexuais – condenadas pela moral católica – não eram dispensados do Seminário, mas, sim, ordenados e promovidos, inclusive, a reitores de casas de formação ou a párocos; religiosos expulsos de seus respectivos institutos foram bem acolhidos pelos bispos em algumas dioceses para aí trabalharem (pasme!) com menores de idade etc.

Ainda: o poderoso lobby era tão bem organizado que as provas dos processos canônicos foram adulteradas ou sumiram das dioceses. Frente a tamanhos e inomináveis crimes, 34 bispos colocaram suas dioceses nas mãos do Papa. Caberá, agora, ao Santo Padre ponderar cada caso e aceitar ou não a renúncia de cada um.

A grande questão é: como tudo chegou a esse ponto? Caberia, por ora, às pessoas interessadas em um resposta mais ampla a leitura de dois livros: Michael S. Rose. Adeus, homens de Deus: como corromperam a Igreja Católica nos EUA (Ed. Ecclesiae, 2015, 290p.) e Arlene D. Bacarji. A impostura no ministério da ordem: transtornos de personalidade e perversões no clero (Ed. do Autor, 2014, 86p.). O primeiro livro fala em uma rede de perversão bem organizada na qual seminaristas mal intencionados são acolhidos com o apoio (ou ao menos com a omissão) do bispo e chegam ao ministério da Ordem, enquanto os candidatos sérios se veem, sumariamente, recusados ou demitidos. Se ficassem, interromperiam (ou ao menos atrapalhariam) a onda criminosa e pecaminosa ali presente.

A segunda obra afirma que os maus padres são minoria, mas – ao contrário dos bons – unidos. Portadores de problemas comportamentais sérios desde a infância, veem na Igreja o lugar ideal para obterem “proteção, segurança, acomodação, status, poder, elevação da classe social e satisfação geral de suas necessidades” (p. 34). Não querem evangelizar e acolher os pobres, mas, sim, buscar “sexo, poder e dinheiro” (idem).

A denúncia desses perversos só pode ser feita por profundo amor a Deus, pois vêm perseguições, ameaças e até inversão do jogo: eles são bons e o alertador do povo é ruim (cf. p. 41). Como quer que seja, quem alerta é um divisor de águas e, ao ser perseguido, só prova que esses perversos existem também entre clérigos. Estes devem, no entanto, ser investigados e punidos, com rigor, pelas leis canônicas e seculares. Afinal, perdoar não é, jamais, pactuar com o mal e com o escândalo (cf. Mt 18,6-7).

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