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Pobreza na periferia: a bomba social deixada pela guerra na Colômbia

CATATUMBO

Diócesis de Tibú

Agências de Notícias - publicado em 24/05/18

Em um ponto alto de Bogotá, capital da Colômbia, centenas de deslocados se escondem da guerra que atingiu a área rural do país. Hoje, na cidade, eles são os esquecidos da paz.

Há vários dias não faz sol em Ciudad Bolívar, o populoso bairro do sul da capital. Em um dos morros fica El Ensueño, o terreno de ocupação de onde os camponeses temem ser desalojados. São cerca de 600 famílias, a maioria vítimas do conflito que apaziguou o acordo com a ex-guerrilha Farc.

Homens, mulheres e crianças se amontoam em casas de latão no meio do bairro. A água é tirada da montanha e a luz chega pelos “gatos” ilegais. E embora haja transporte público, nem sempre sobra dinheiro para pagar a passagem.

“A Colômbia se divide entre os que têm casa e os que têm uma lata (…), entre os que comem a la carte e os que comem uma vez ao dia”, afirma José Pineda, de 50 anos e pai de três filhos.

Cinco décadas de uma guerra que não terminou – o narcotráfico ainda alimenta grupos armados – agravaram a pobreza em um dos países mais desiguais do mundo, segundo o Banco Mundial.

Além das guerrilhas como as Farc, a luta armada envolveu paramilitares, agentes do Estado e narcotraficantes.

O deslocamento forçado, que deixou oito milhões de vítimas, trouxe para as cidades milhares de “pessoas que já estavam em uma pior situação de bem-estar, gerando verdadeiros círculos de miséria”, diz à AFP Jorge Restrepo, da Universidade Javeriana e coautor do estudo “Conflito e pobreza na Colômbia”.

Pineda lembra que deixou as selvas del Guaviare (sudeste) depois de prestar depoimentos por sua suposta relação com a guerrilha de 7.000 combatentes que se desarmou em 2017.

De deslocado, passou ser um dos novos pobres da periferia.

O destino dessas pessoas dependerá em parte que a quarta economia de América Latina, com quase 50 milhões de habitantes, consiga consolidar a paz, evitando o aumento violência nas cidades no próximo governo, cujo presidente será eleito em 27 de maio ou no segundo turno, em 17 de junho.

– Armadilhas de pobreza –

Óscar Lezama, um ex-policial a quem a guerrilha obrigou a fugir em 2012, vive em uma casinha de El Ensueño com sua esposa e quatro hijos. “A guerra nos tirou do campo, e na cidade temos que batalhar por cinco metros quadrados”, lamenta.

Este homem de 48 anos encarna uma das frustrações do acordo de paz que a direita, favorita nas pesquisas, promete modificar se chegar ao poder.

Embora tenha evitado cerca de 3.000 mortes por ano, o acordo de 2016 deixou metade dos colombianos insatisfeitos. Estes criticam a indulgência com a qual os guerrilheiros teriam sido tratados e o fato de poderem participar diretamente da vida política sem antes serem presos.

Na Ciudad Bolívar, onde vivem cerca de 700.000 pessoas, há outra reclamação: a paz não aliviou as milhares de pessoas expulsas pela violência e que agora vivem nos bolsões de miséria urbanos.

O governo de Juan Manuel Santos, que deixará o poder depois de oito anos, lançou um ambicioso programa para restituir milhões de hectares de terra aos deslocados, mas não existe um plano específico dentro do acordo de paz para aqueles que ficaram nas cidades.

“Voltar ao campo não”, afirma Lezama. “Sem terra é muito triste (voltar)”.

A Colômbia tem reduzido a pobreza. Entre 2010 e 2017 a pobreza passou de 37,2% para 26,9%, e a extrema pobreza caiu de 12,3% para 7,4% no mesmo período.

Até o ano passado, quase 13 milhões de pessoas continuavam sendo pobres, segundo dados oficiais.

Sem “planos mais ambiciosos”, a pobreza será “um fator permanente de violência e até mesmo de regresso à guerra”, adverte o economista Eduardo Sarmiento, especializado em temas de equidade.

– Um novo perigo –

A pobreza derivada do conflito se expande em El Ensueño, onde uma nova violência vinda de grupos armados do narcotráfico ocupa o vazio de poder deixado pelas Farc e pela tardia chegada do Estado.

Óscar e José, que sobrevivem com empregos informais, precisam ficar praticamente em cima de seus filhos, que têm entre 7 e 16 anos. Os criminosos do microtráfico rondam os colégios.

Segundo a Defensoria Pública, em Ciudad Bolívar operam cinco organizações armadas, incluindo o Exército de Libertação Nacional (ELN), a última guerrilha ativa do país, que negocia a paz com o governo.

Enquanto as cidades lidam com essas bombas sociais do tempo, o campo pode continuar expulsando novos pobres potenciais.

A 90 km de Bogotá, no município de Viotá, Deysi García, uma camponesa com cinco filhos, quase perde sua terra de 58 hectares por culpa de paramilitares que se apropriaram do prédio onde depois apareceram dois corpos.

Ela se livrou da prisão e manteve suas terras, mas embora tenha pés de café, ela tem que trabalhar como empregada doméstica. A falta de estradas acaba com a rentabilidade do comércio do grão.

“O trabalho é maior do que o ganhamos, porque os comerciantes pagam muito pouco e não dá para cobrir os custos de produção”, lamenta a viúva de 38 anos.

(AFP)

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