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A verdade sobre o Papa Inocêncio III

VATICAN SECRET ARCHIVES
Fregonese Daniele | Vatican Secret Archives | AFP
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A quem esse tema distorcido sobre Inocêncio III favorece?

Em 2015, saiu o livro de Olavo de Carvalho intitulado O Jardim das aflições. De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o materialismo e a religião civil. 3ª edição com posfácio inédito, de 464 páginas (Vide Editorial).

Interessa-nos, no presente artigo, a página 290, pois nela se lê que “César, afinal, era bisneto de Vênus, mas ninguém pôde recorrer a este exemplo porque a nova concepção era inexpressável no velho linguajar astrológico, onde a autoridade espiritual era o Sol, e o poder temporal a Lua” (sic!).

Na nota de rodapé 164, nessa mesma página, é que o autor se mostra um tanto desinformado ao escrever o seguinte: “Inocêncio III, numa bula cujo título não me ocorre, usara explicitamente essa imagem, consagrando-a como expressão por assim dizer oficializada da doutrina”.

Notemos, desde logo, que a astrologia é incompatível com a fé católica, conforme o Catecismo da Igreja Católica n. 2116. Constata ainda a propósito Dom Estêvão Bettencourt, OSB, que “a astrologia ou o horóscopo admite que se possa ter o destino de alguém a partir da posição que os astros ocupavam quando esta pessoa nasceu. Tal arte, como é praticada hoje, supõe um sistema cosmológico ultrapassado, de modo que é refutado não só pela fé católica, mas também pela ciência” (Curso de Teologia Moral. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 1986, p. 73).

Vê-se, assim, que nem Inocêncio III, nem outros Papas sequer se aproximaram da astrologia enquanto tal na doutrina da Igreja. Ele usa o sol e a lua como mera figura de linguagem, com os condicionamentos da época (pensava-se que a lua tinha luz própria e não a fornecida pelo sol), para mostrar que a luz mais forte simboliza o poder espiritual e a mais fraca, o temporal.

O autor do livro, portanto, se engana, pois o Papa Inocêncio III não escreveu a suposta Bula (do latim Bullae, documento que contem as leis pontifícias e são assim chamadas pelo sinete de chumbo que traz, mas é frequentemente substituído por um carimbo vermelho – cf. Giorgio Feliciani. As bases do direito na Igreja: comentários ao Código de Direito Canônico. São Paulo: Paulinas, 1994, p. 54) sobre o tema “Igreja e Estado” ou o poder temporal e espiritual, mas uma carta, a Solitas Benignitatis, em 1201, a Aleixo, Imperador do Oriente. Nela, sim, ele afirmava que a esfera espiritual (a da Igreja) é superior à temporal (do Estado), do mesmo modo como a alma é superior ao corpo. Depois, a título de ilustração, e não de doutrina – frisemos bem –, acrescentava que o âmbito espiritual é como o dia iluminado pelo sol (a Igreja) e a esfera temporal é como a noite iluminada pela lua (o Estado).

A doutrina sobre o temporal e o espiritual só foi tratada mais detalhadamente pelo Papa Bonifácio VIII na (aqui sim) Bula Unan Sanctam, de 18/11/1302, mas 100 anos depois da carta de Inocêncio III que o autor em foco confunde com Bula. Contudo, Bonifácio não fala de sol e lua (se fosse doutrina e não mera figura de linguagem, ele, obrigatoriamente, falaria, dado que trata do mesmo tema de Inocêncio III), mas ilustra a doutrina recorrendo a outro expediente literário, a imagem das duas espadas: “As palavras do Evangelho nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. O espiritual deve ser manuseado pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à outra espada; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual”.

Note-se ainda um erro de português: a expressão “no velho linguajar astrológico, onde a autoridade espiritual…” (Destaque nosso), deveria ser reformulada assim: “no velho linguajar astrológico, em que a autoridade espiritual…”, pois o onde indica lugar físico, o que não é o caso de “linguajar astrológico”.

Eis uma brevíssima reflexão que leva toda pessoa de bom-senso a perguntar com seriedade decisiva: a quem esse tema distorcido sobre Inocêncio III favorece?