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A peregrinação de uma mãe com Alzheimer

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Padre Paulo Ricardo - publicado em 25/06/18

“A maior coisa que tenho feito como padre é ter o corpo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, em minhas mãos. A segunda maior coisa tem sido cuidar do corpo fraco e debilitado de minha mãe, criada à imagem e semelhança de Deus.”

A peregrinação de Betty Lou começou no dia 2 de maio de 1933. Ela cresceu com seus cinco irmãos mais novos em Freeport, Illinois, estudou em um colégio dominicano, casou-se com um bom católico de Cedar Rapids, Iowa, e criou seus quatro filhos em Bensenville. Foi uma esposa e católica fiel, cantava no coro da Igreja e servia de voluntária em sua paróquia. Um dia, 11 anos atrás, ela saiu do mercado às 8h da manhã e desapareceu.

Nós, amigos e familiares, já tínhamos notado que havia algo de errado antes de isso acontecer, mas não tínhamos ainda juntado as peças do quebra-cabeça. As compras se acumulavam aos montes na geladeira, e ela começava a fazer repetidas vezes as mesmas perguntas. Datas de aniversários caíram no esquecimento. Esperávamos que o problema não fosse o que todos temíamos, mas não havia jeito de tocar no assunto.

O que aconteceu no dia do desaparecimento? Betty Lou acabou voltando para casa depois de sua visita matinal ao mercado, mas não sem deixar a todos ansiosos e perplexos, rezando e procurando-a como loucos. Família, amigos e paroquianos organizaram uma busca mal sucedida por todo o Condado de DuPage. Tínhamos quase perdido a esperança de a encontrar quando, 12 horas após o sumiço, ela enfim apareceu na cul-de-sac em que vivia. Apesar de tantos esforços, foi só a oração que a trouxe de volta. É como se Deus nos estivesse dizendo: “Confiem em mim! Betty Lou é minha filha querida. Eu a trarei de volta para casa”.

Tinha começado o fim da peregrinação.

Levamos Betty Lou a um geriatra. O médico fez uma bateria de exames, incluindo uma consulta a um psicólogo comportamental. Betty Lou foi, enfim, diagnosticada com Alzheimer. Ela viveu ainda por sete anos com meu pai até que pudéssemos interná-la em uma clínica especializada. Um ano e meio mais tarde, o bispo R. Daniel Conlon permitiu gentilmente que eu a acolhesse na casa paroquial da igreja São Pedro e São Paulo, da qual eu era pároco na época.

Embora me sentisse feliz por ter minha mãe ao lado e poder-lhe proporcionar os melhores cuidados, ela teve uma crise e foi levada às pressas para o hospital. Diagnosticaram-na com um problema que ela tinha já desde algum tempo: uma perfuração intestinal e uma grave hemorragia interna. Disseram que a morte era certa. A família veio correndo do Texas, e os parentes mais próximos se hospedaram na casa paroquial. Meus irmãos nunca passaram tanto tempo na igreja! Os paroquianos trouxeram comida e ofereceram apoio moral. Contatamos um asilo. Mas Deus e sua amiga íntima, Betty Lou, tinham outros planos.

Betty Lou teve alta do asilo há 19 meses e tem sobrevivido ao seu diagnóstico há 24.

Uma peregrinação é uma viagem de sacrifícios em direção a um lugar sagrado, e Betty Lou percorre agora a peregrinação mais importante da sua vida em direção ao lugar mais sagrado de todos. Sua viagem final, que, para nós, chegaria ao fim dois anos atrás, continua. Embora saibamos que chegará o momento decisivo em que ela dará o último passo, nós, familiares e amigos, estamos decididos a não deixá-la sozinha nesta etapa terrena de sua peregrinação.

Estamos todos percorrendo com ela esse caminho. Ao longo dos últimos 11 anos, a irritação que sentíamos com suas reiteradas perguntas converteu-se em alegria por cada palavra saída de sua boca. Conseguimos às vezes captar algum sentido em suas palavras quase sempre murmuradas, lembrando-nos assim de que Betty Lou continua conosco. Sua frase predileta e mais repetida é “Ave, Ave, Ave”. Quando lhe perguntamos: “Você ama Nossa Senhora, não é?”, a resposta é um enfático “sim” acenado com a cabeça.

Ela ainda faz suas orações de costume, embora as palavras lhe saiam agora quase incompreensíveis e as tenhamos de completar. Ela ainda consegue se alimentar, ainda que, de vez em quando, alguém precise ajudá-la segurando-lhe a mão e cantando um hino à Imaculada Conceição. Se o ajudante não cantar, Betty Lou canta por si mesma e deixa de comer. De um modo ou de outro, ela tem feito comque todos — família, amigos, médicos, enfermeiros, auxiliares, funcionários, motoristas de ambulância, conhecidos e cuidadores — cantem e rezem a Nossa Senhora.

Tenho aprendido muitas coisas à medida que vou caminhando com Betty Lou, mas algumas lições merecem ser destacadas. A primeira e mais importante delas é que não podemos deixar sozinhas no fim de sua peregrinação as pessoas a quem amamos. Esta primeira lição tem duas caras, uma divina e outra humana. Por um lado, cada um de nós tem o dever de cuidar dos que têm necessidade. É o que diz Nosso Senhor no Evangelho segundo S. Mateus: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

Minha mãe já não reconhece o marido, de 61 anos, ainda que ele esteja aqui perto, ao lado dela todos os dias, dando-lhe de comer. Uma vez me disseram: “Não se esqueça: ela pode não se lembrar de quem você é, mas você sabe quem ela é”. Por outro lado, Deus não se esquece dos que lhe são fiéis. Minha mãe vive em um mundo onde todas as pessoas que lhe dão banho, trocam suas roupas e a alimentam são rostos novos a cada novo encontro. Esse isolamento seria aterrador, não fossem duas pessoas que ela ainda conhece muito bem: Nosso Senhor e a Virgem Maria. O que resta à minha mãe, quando tudo parece ter-se desvanecido? O seu relacionamento com estas duas pessoas. Rezar com ela é a coisa mais importante que fazemos todos os dias.

A segunda lição é que os pacientes de Alzheimer não perdem a identidade. Não há dúvidas de que minha mãe está sendo despojada pouco a pouco de tudo o que caracterizava a sua vida neste mundo. Ela já não é mais capaz de cozinhar. Ela já não pode mais dançar ou caminhar. Até mesmo a sua capacidade de falar, ou de ao menos se fazer entender, está desaparecendo. Diante disso, o que sobra? Ela ainda canta e reza.

Já me perguntei várias vezes: “O que sobrará de mim, no fim das contas?” Espero que não seja raiva ou frustração. Espero poder seguir o exemplo de minha mãe, fazendo de minhas últimas ações uma canção e uma prece.

Um padre amigo meu lembrou-me certa vez: “Lembre-se do que aprendemos no seminário. A memória intelectual reside na alma, e a alma humana é intelectual. Isso significa que, embora o corpo dela esteja debilitado e a mente não possa mais se expressar, há lembranças que ela guardará eternamente”. A essa altura da vida, a identidade de Betty Lou carece de ambiguidades e complexidades desnecessárias. Ela é agora aquilo que sempre foi no mais íntimo da alma: uma mulher mais preocupada com os outros do que consigo mesma, uma doce mulher que quer amar e ser amada, uma mulher de grande fé.

Minha mãe é valiosa, não pelo que pode dar ou fazer por mim. A dignidade dela nasce do fato de que Deus a criou à sua imagem e semelhança. E ela continua a levar dentro de si esta semelhança. A maior coisa que tenho feito como padre é ter o corpo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, em minhas mãos. A segunda maior coisa tem sido cuidar do corpo fraco e debilitado de minha mãe, criada à imagem e semelhança de Deus.

Betty Lou não desapareceu. Ela está em peregrinação para o Lugar Sagrado. Ela disse a um de seus cuidadores há alguns dias que, daqui a pouco, ela estará em outro lugar. Ela às vezes olha pausadamente para longe, para um destino que não podemos ver. Sem ser presunçosa, Elizabeth Louise tem grande fé em que Aquele do qual ela ainda se lembra, a quem conhece e ama, a levará para casa e lhe dará tudo o que o seu coração sempre desejou.

Referências

  • O presente texto é uma tradução levemente adaptada do artigo “Betty Lou’s Pilgrimage”, de autoria do Pe. Thomas Milota, publicado em Christ is Our Hope, Diocese de Joliet, Illinois, vol. 11/4 (jul. 2018), pp. 12-13.

(via Pe. Paulo Ricardo)

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