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“Virou estrelinha”? Saiba as formas corretas para falar de morte com crianças

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Correio 24 horas - publicado em 24/07/18

É essencial falar claramente sobre a morte com os pequenos - este cuidado evita graves problemas emocionais no futuro

Os irmãos Vanessa e Edgar foram deixados às pressas na casa da avó e seguem para o apartamento de outra parente. Durante o percurso, a menina de 11 anos sente muito medo. No início da manhã, foram avisados pela mãe sobre o desaparecimento do pai e deixados com as cabeças cheias de dúvidas.

Quando finalmente chegam à casa da tia, descobrem a morte do pai. Edgar grita, Vanessa se recolhe na cama por dias. Dias que nunca acabaram. Por anos, Vanessa sofreu com síndrome do pânico e ansiedade. A intenção de proteger em momentos de perda pode causar traumas nunca restritos à infância.

O luto de Vanessa Sanderli, 22 anos, aconteceu quase dez anos após a perda do pai. Até então, assuntos de morte eram seguidos de crises emocionais e um completo desentendimento. Um confronto, sobretudo, com a mentira contada para ela e o irmão. O caminho para a superação ocorreu aos poucos, assim como são superados lentamente os transtornos.

“Comecei a perceber que eu não precisava ter medo de sofrer. Descobri que era preciso melhorar e encarar a morte naturalmente”, compartilha Vanessa.

Mas algumas consequências daqueles anos de criança continuam sofridas, como o distanciamento com a mãe e parte da família. Traumas psicológicos, explica a neuropediatra Cecília Araújo, podem ter repercussões durante toda a vida, caso não haja tratamento. A médica esclarece que em momentos de estresse intensos ou de algum trauma psicológico, o corpo naturalmente produz um hormônio chamado cortisol.

A pessoa começa a ser acometida por um processo de toxicidade que leva a alterações nos sistemas límbicos (unidade responsável pelas emoções e comportamentos sociais) e no lobo frontal. A neurologista do Núcleo de Neurologia da Bahia enumera as possíveis consequências para crianças submetidas a situações recorrentes de transtornos psicológicos não tratados:

“É possível desenvolver a gagueira, transtornos psicológicos, mutismo seletivo (quando a criança escolhe somente uma pessoa com quem falar). A depender do caso, pode ser preciso até recorrer a medicamentos”.

Todas elas, no entanto, estão mais ligadas à maneira de falar com a criança. É natural, inclusive do ponto de vista médico, crianças passarem por fases de luto. Podem receber a notícia da morte com estresse, tristeza, afastamento. A reação varia conforme cada experiência. O fundamental é: a questão da morte precisa ser colocada, ressalta a neuropediatra. “É necessário ter sempre essa sensibilidade: não esconder, falar abertamente. A relação de confiança precisa existir desde cedo”, afirma.

A médica relata um caso marcante. Uma criança de 6 anos morava com os pais e a avó e, subitamente, viu o quarto da avó ser trancado. A avó havia sumido; nenhuma explicação era dada. A menina começou a desenhar monstros. Até que desenvolveu alterações no aprendizado. A intenção dos pais era proteger, mas o resultado foi o contrário. Como, então, conversar sobre morte com os pequenos?

Como fazer?

Eduardo, 9, observava o padrasto aos prantos. “Mãe, o que é que está acontecendo?”, perguntou a criança à mãe. Aconteceu que Dona Zeli, avó de Dudu, havia morrido por complicações de uma pneumonia. A mãe do garoto, Nina Amorim, 27, questionava-se: “Como é que eu explico isso, meu Deus?”.

Optou pela sinceridade. Disse, como lembra, algo parecido de: “Filho, a Vó Zeli morreu. Ela não está mais entre nós. Mas ficarão as lembranças”. A verdade é justamente a atitude mais indicada por especialistas.

O menino parou, quieto, e repetiu: “Morreu?”. A mãe e o padrasto novamente confirmaram, preocupados com Dudu, muito ligado a Dona Zeli. “Antes, quando ele não sabia, o desespero era muito maior. Porque ele sentia que tinha algo errado, mas não sabia o que era”, acredita Nina. Passaram-se, desde então, pouco mais de um mês. E o menino naturalmente aprendeu a lidar com o fim do ciclo.

“Acho que temos medo, mas que com as crianças é mais fácil lidar com isso [a morte], né? Existe uma naturalidade maior”, opina.

A aposta deve ser no diálogo. A neuropediatra Cecília Araújo acrescenta: “Não podemos nunca omitir, porque a criança sentirá a dor no ambiente familiar. Se todo mundo se cala, e é omisso, ela vai entender que se reage à dor assim: com omissão. A morte é um rito de passagem e é preciso esclarecer isso para as crianças”. E, na conversa, são necessários outros dois cuidados: considerar a idade de cada criança e evitar as metáforas como “vovó virou uma estrelinha”.

Até a primeira infância (no máximo, 6 anos), o conceito de morte é abstrato. Não por isso o ideal é omitir ou camuflar a situação. É a psicanalista Cecília Passos quem justifica:

“O não dito acaba sendo mais nefasto […] E as metáforas podem trazer um efeito negativo. A criança pode pensar: ‘ah, se virou estrela eu quero virar também’; ‘viajou e por que não voltou?’. 

Ela acrescenta, ainda, a necessidade de considerar o nível cognitivo de cada criança. Quanto ela é capaz de entender? Quais são as minhas crenças? São perguntas que devem ser feitas. “Observe e avalie como vai falar. Mas é importante falar e a criança elabora o luto à sua maneira”.

Sobre idas a funerais, a psicanalista afirma acreditar no poder de escolha da criança. “Se ela perde alguém muito próxima, e já tem uma compreensão sobre morte, é importante perguntar: ‘quer ir ou não?’. E respeitar essa escolha”, conclui.

A arte de falar sobre a morte 

A doutora em Psicologia Lucélia Paiva concluiu: falar de morte com crianças é uma arte. De 2006 a 2008, período do doutorado, frequentou cinco escolas paulistas para falar sobre a morte por meio da literatura.

É quando comprova a eficácia do método e publica o livro A Arte de Falar de Morte com Crianças, já na quarta edição. Nele, são refletidas as temáticas: criança, morte, educação e literatura infantil.

A literatura surge confrontar a morte de maneira lúdica, para facilitar a aproximação com as as crianças. Livros sobre a temática, constatou Lucélia, estão presentes desde muito cedo.

“Veja, por exemplo, os contos de fada. O Rei Leão, Bambi, a Branca de Neve. A criança tem a curiosidade da morte, mas o adulto, sem saber o que falar não respondendo a curiosidade. A criança por si só é curiosa”, afirma.

A indicação é: usar os livros não somente em casos de morte de pessoas próximas, mas “falar da morte ao longo da vida, porque é preciso lidar com nossa finitude e ter consciência dela”. Foi o que fez a artista plástica Maria Cristina Nascimento, 52, em 2002. A própria Maria não conseguia aceitar a possibilidade da morte de sua tia Eladia, 85, e a irmã da artista decidiu presenteá-la com o livro A História de Uma Folha, de Leo Buscaglia.

Na história, as folhas são as personagens. Nascem, crescem, mudam de acordo com a estação do ano e caem no solo com a neve do inverno. Uma ilustração do equilíbrio entre vida e morte. Maria começou a ler o livro com e para os filhos, muito apegados a Eladia.

“A menina, por ser mais nova, talvez não entendesse bem. Mas Marcel sentia tamanha identificação que falava que era essa ou aquela folhinha. Foi um processo de compreensão, minha e deles”, lembra.

Poucos dias depois, Vó Eladia, como era chamada pelas crianças, morreu. O sofrimento foi inevitável. Ao que Maria chorava, Daniel perguntava, carinhoso: “Por que você chora tanto, mamãe? Eu convivi oito anos com Vó Eládia. Você conviveu muito mais”. Uma lição gravada nas memórias. Para a pedagoga Gisele Lopes, funcionária de um colégio particular de Salvador, o uso da literatura é também um caminho encontrado pelas escolas para tratar do luto à morte.

Ao final da leitura, existe uma roda de conversas: “Se precisamos voltar àquele tema, falamos sobre aquele luto. Por que aquele personagem estava chorando? Por que ele não está mais presente?”. Mas é sempre adotada a cautela. Por exemplo, em datas comemorativas como o Dia das Mães ou dos Pais. “Há algum tempo, já não falamos em dia disso, dia daquilo, mas em Dia da Família. A criança vai se sentido mais incluída, a dor vai amenizando”, conta Gisele. Falar sobre perdas com crianças parece ser, antes de tudo, um ato de humanização.

O luto necessário
É das crianças ou dos adultos o medo de falar da morte?  À pergunta seguem tantas outras que Mariana Helena, criadora e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre o Luto da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), prefere o resumo:

“A dificuldade é do adulto. A criança sofre, sim, mas trata com naturalidade, a referência para ela é outra”.

O medo de falar é outra face do medo da morte, do fim, do desconhecido. Fica ainda mais intenso a partir do século XX, com os avanços da ciência. “É como se a morte fosse quase uma afronta à ciência, uma coisa da qual não se pode falar”, explica. O luto, portanto, pode se tornar mais doloroso que o saudável.

A psicóloga Lucélia Paiva, há 35 anos com atuação na área de morte e luto, explica que o luto é um “processo natural e pessoal” precedido da perda. Evidentemente, ela prossegue, “a dor existirá, e ela dependerá muito da qualidade do vínculo que tínhamos com a pessoa que morreu e do tipo da morte, como se foi repentina ou se já era, digamos, esperada”.

Mas, a subjetividade do luto não impede que existam indicações. Lucélia sugere:

“Temos que entender que a tristeza existe. Só precisamos verificar se ela é natural ou se evolui para uma depressão”.

Em todo caso, estar em ambientes seguros e com pessoas de confiança pode, senão tornar menos dolorosa a fase pós-perda, fornecer uma sensação de pertencimento. “A melhor coisa é você ter um espaço, uma figura de confiança. Assim, você não se sentirá tão sozinho. É bom ter essas pessoas que saibam estar juntas também no silêncio”, diz Lucélia. Carinho e amor para a aceitação da morte.

(via Correio 24 horas)

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