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Mariangela, a venezuelana que fugiu da fome com o filho na barriga

VENEZUELANS

Carlos Rodríguez-ANDES-(CC BY-SA 2.0)

Agências de Notícias - publicado em 26/08/18

"É preciso correr riscos porque ficar na Venezuela é praticamente morrer", afirma

Tomara que nasça, “tomara que seja mulher”. Mariangela Ascaño resistiu a uma longa e dura viagem para fugir do governo “perverso” na Venezuela, mas o que parece ser uma hemorragia a alerta para o risco de aborto espontâneo.

Há vinte dias, ela deixou Maracay, no estado de Aragua, região central da Venezuela, junto com dois primos. Ficou cansada de que no país onde nasceu há 21 anos “não se encontre nada”: nem comida, nem remédios.

“Nós éramos gordinhos e já estamos magrinhos”, conta à AFP, enquanto se maquia na parte traseira de um caminhão que a levava ao município de Ipiales, na fronteira entre a Colômbia e o Equador. Ela aplica batom rosa claro e penteia as sobrancelhas. Apesar de tudo, não perdeu o vaidade.

No semestre passado, pesava 75 quilos, mas no dia em que abandonou a Venezuela a balança marcou 15 quilos menos.

Há um mês, sabe que pode ser mãe pela segunda vez, mas seu estado não a impediu de percorrer os 2.400 quilômetros que separam Maracay de Quito, com a esperança de que a capital equatoriana seja seu novo lar.

“É preciso correr riscos porque ficar na Venezuela é praticamente morrer”, afirma.

Nas mãos dos pais e do marido, ela deixou Jhoangel, seu filho de dois anos, a quem durante um tempo alimentou com a comida que lhe davam por estudar para ser policial.

Seu marido, Orlando Rafael, um pedreiro a quem o salário já não basta, teve que ficar para trás para cuidar da mãe diabética. Durante a travessia, Mariangela completou dois meses de gravidez.

– Família de anjos –

“Disse a ele (Jhoangel) que ia trabalhar e voltaria à noite”, lembra. “A despedida foi rude”. A desenvoltura com que falava enquanto se maquiava começa a se esfumar.

Com os seis milhões de bolívares (1,7 dólar no mercado negro de então) que tinha no bolso, pagou uma passagem de casa até a cidade de Cúcuta, principal porta de entrada dos venezuelanos na Colômbia.

O país do realismo fantástico, em vias de superar um conflito armado de meio século, recebeu mais de um milhão de venezuelanos nos últimos 16 meses. Agora, os emigrantes também passam por ali como escala para chegar a Equador, Peru, Chile ou Argentina.

Em Cúcuta, sem um centavo, começaram as longas caminhadas e as súplicas por carona. A solidariedade colombiana a surpreendeu. Vários a acolheram, assim como seus acompanhantes, e inclusive os alimentaram.

“Comi mais do que na Venezuela, nos deram de tudo”, diz com sorriso tímido que se abre quando fala que nas últimas duas semanas ganhou cinco quilos. De repente, culpa a gravidez e a comida.

A alegria aumenta quando pensa na possibilidade de seu bebê ser menina, que chamaria Jhoangela. “Assim, os nomes dos meus filhos e eu terminariam em ‘angel’ [anjo em espanhol]. Uma família de anjos”.

Apesar de todo o apoio, os efeitos da distância começam a incomodá-la. O frio das longas noites na estrada, ouvir ocasionalmente a voz de Jhoangel por ligações pelo Facebook, os constantes vômitos e enjoos, e a notícia, em plena travessia, de que o Equador iria endurecer as condições de acesso para os venezuelanos a preocuparam.

– Capricho do destino –

O governo do presidente equatoriano, Lenín Moreno, começou a exigir passaporte dos venezuelanos em face da chegada diária de milhares de cidadãos vizinhos à ponte fronteiriça de Rumichaca, um documento de difícil acesso para os moradores do país petroleiro pela escassez de papel ou os entraves burocráticos.

Na noite desta sexta-feira (24), a Justiça equatoriana suspendeu a medida de exigência de passaporte. Mas antes disso, a sorte já havia sorrido para Mariangela. Aos dez anos, começou a praticar uma arte marcial similar ao caratê. Seu rendimento, diz, a colocou como esportista com nível internacional.

Por isso, o governo do falecido Hugo Chávez expediu para ela um passaporte que abriu-lhe as portas de Quito na quinta-feira, apesar de ela ter abandonado a modalidade quando ficou grávida pela primeira vez. Seus primos não tiveram a mesma sorte, mas conseguiram uma permissão temporária de estadia.

Ao cruzar a fronteira, ela beijou o documento. A felicidade foi efêmera. Ao sair do banheiro, o absorvente estava manchado de sangue, o que a fez temer um aborto espontâneo. “Pode não ser nada, mas pode ser algo”, diz, antes de se preparar para a fria noite equatoriana.

(AFP)

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