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“Sem Fronteiras”, a casa onde vivem 200 imigrantes venezuelanos em Lima

VENEZUELANS
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Três bebês nasceram neste imóvel de dois andares na rua Los Olmos

Katerin Lara mora em uma casa compartilhada com 200 imigrantes venezuelanos em um humilde bairro de Lima, onde precisa fazer fila para usar o banheiro ou lavar suas roupas, mas se sente sortuda.

“Eu literalmente agradeço a Deus por ter chegado aqui”, declarou à AFP a jovem de 24 anos, sentada na cama de baixo de um dos 40 beliches da casa.

“Eu escolhi o Peru porque há mais possibilidades de trabalho se você for legalizado. Na Colômbia eles o ajudam, mas não há emprego”, diz Lara, que está com sua filha de 6 anos há 20 dias neste albergue, aberto por um empresário peruano que viveu a dura experiência de ser imigrante no Japão e na Coreia do Sul nos anos 1990.

“Cheguei com meu filho, trabalhei como ajudante de cozinha, mas agora estou sem trabalho porque nos pedem documentos”, diz María López, que era professora de uma universidade no estado de Zulia.

Três bebês nasceram neste imóvel de dois andares na rua Los Olmos, no populoso distrito de San Juan de Lurigancho, em Lima, e foram atendidos em um hospital público nas proximidades.

A casa de 200 metros quadrados, onde se escuta salsa ou música llanera durante todo o dia, foi alugada e colocada a serviço dos imigrantes venezuelanos pelo empresário têxtil René Cobeña.

“Somos como uma grande família”, diz Cobeña, de 51 anos, casado e pai de dois filhos.

“Batizei o albergue de ‘Sem Fronteiras’ porque a fome não tem bandeira”, acrescenta.

Um ano atrás, René Cobeña começou a ajudar oito imigrantes venezuelanos em uma casa alugada, que agora, convertida em abrigo, acolhe 200 pessoas, incluindo 30 crianças. Por ela já passaram 1.700 pessoas que fugiram da crise na Venezuela.

A casa, em cuja fachada foi pintada uma bandeira venezuelana, tem três quartos, dois banheiros, uma cozinha, uma sala de estar e um pátio com toldo.

Como os 40 beliches não são suficientes, dezenas dormem em colchões no chão, mesmo no quintal.

“Aqui nós os colocamos juntos, antes dormia um por colchão, agora duas ou mais pessoas dormem em um”, explica Cobeña, afirmando que sempre há espaço para receber um venezuelano. Na verdade, “todo dia” chega um novo.

“Não cobramos um centavo por isso aqui. A única coisa que pedimos é colaboração na limpeza”, diz o samaritano.

Cobeña estabeleceu um regulamento, que proíbe fumar, beber álcool ou brigar, e estabelece uma estadia máxima de um mês.

A procura aumentou depois que o governo peruano anunciou há duas semanas que passaria a exigir passaporte aos venezuelanos, conta Mauricio Duque, que foi administrador e médico do albergue sem receber salário, depois de abandonar a carreira de medicina na Venezuela.

Muitos imigrantes saem para ganhar a vida em todos os tipos de ofícios, formal ou informal.

A princípio, Cobeña lhes dava um prato de comida por dia, mas graças a doações de amigos, empresários e peruanos emigrados, agora lhes oferece café da manhã, almoço e jantar. O cardápio de sexta-feira foi carne cozida com arroz.

O cozinheiro é o venezuelano Brean Villegas, de 22 anos, que não liga para o apelo do presidente Nicolás Maduro para que os emigrantes pararem de lavar “pocetas” (banheiros) e retornem à Venezuela.

“Todo o trabalho é digno. O ruim seria roubar. Se houver uma oportunidade de lavar banheiros, eu faria isso”, disse à AFP.

O empresário Cobeña, que não recebe apoio do governo ou de organizações privadas, acaba de pedir ajuda da agência de refugiados da ONU, mas manterá o abrigo mesmo que não consiga.

(AFP)