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Dispensando-se da prudência

PRUDENCE

Photo by bruce mars on Unsplash

Pe. José Eduardo Oliveira - publicado em 12/09/18

O homem virtuoso não é simplesmente aquele que evita o mal só porque é ilícito: ele realmente pratica o bem porque sabe que o bem é bom

pe. José Eduardo de Oliveira, que se tornou especialmente conhecido no Brasil após defender com brilhantismo a vida do nascituro na audiência pública do Supremo Tribunal Federal a respeito da descriminalização do aborto no país, costuma compartilhar em seu perfil no Facebook diversas reflexões sobre temas variados, muitos de interesse dos cidadãos em geral e todos de interesse direto dos católicos.


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Recentemente, ele publicou na rede social o seguinte texto a respeito do cultivo (e da prática) da virtude da prudência, entendida como a “reta razão no agir”:

Dispensando-se da prudência

Segundo São Tomás, a prudência é a condutora das virtudes morais e ele mesmo a define como a “recta ractio agibilium”, “a reta razão no agir”. Um dos motivos que me levou a escrever essa breve série sobre os pseudo-escrupulosos foi a compreensão para com vários irmãos sacerdotes que ultimamente se têm queixado justamente desse problema. Um dia desses, um me dizia: “o que eu faço?, um rapaz me mandou um áudio de meia-hora pelo WhatsApp, angustiado por conta de uma questão moral insignificante”. Outro colega me reclamou: “passei quarenta e cinco minutos ao telefone, resolvendo a dúvida moral de uma pessoa, sendo que o caso era de simples solução, mas, quanto mais eu explicava, mais ela complicava”. As reclamações são muitas, desde pessoas que mandam contínuas e longas mensagens pelas redes sociais até aquelas que procuram desesperadamente o padre várias vezes no mesmo dia, sempre com “urgência”. Um dos agravantes para a situação é que frequentemente encontram pessoas que, ao contrário de as ajudarem a sair desse estado mental, ajudam-nas a aprofundar o problema, alegando que o fulano é de uma sutileza impressionante ou que é de uma capacidade de penetração agudíssima. Por fim, respaldadas por tais orientadores, as criaturas vão se sentindo importantes, especiais, inteligentes, a vaidade se vai inflando e a pessoa vai enlouquecendo, não sem antes enlouquecer meia-dúzia de pessoas, incluído aí o pobre confessor. Essas pessoas acabam por substituir a prudência pela consulta contínua acerca dos temas mais banais, elevados sempre à categoria de princípios. Dispensam-se de ser prudentes e criam uma dependência ansiosa, perdendo completamente a chance de formar a sua própria razão prática. São Tomás dizia que a prudência é a “reta razão no agir”. Para mim, este é o primeiro problema. As pessoas não entendem que a moral é uma ciência prática, com uma metodologia prática. Não adianta estudar moral e não desenvolver a inteligência prática. Dou um exemplo ilustrativo: de pouco adianta você estudar livros de culinária de todos os países e nunca passar um dia na cozinha; no final, você saberá tudo sobre culinária, mas, diante de uma multidão de ingredientes, de um fogão de cinco bocas, de sete panelas, forno, água, microondas e oito convidados cheios de fome você se sentirá perdido e desorientado, vai queimar a comida e colocar tudo a perder, por fim, irão todos para o self-service do shopping. É isso que acontece com boa parte dos “orientadores” morais e desses falsos escrupulosos. Muitas vezes, por um defeito mental, esses sujeitos são muito teóricos: sabem lidar com livros, mas não com pessoas; tentam formar seres humanos como quem escreve sobre um papel, sem perceberem que o homem não foi criado para se encaixar numa tese, ele precisa praticar o bem entendendo-o profundamente para conseguir perceber que o bem é bom mesmo. Isso se percebe na própria arquitetura com que São Tomás escreveu a Suma Teologica. As duas partes centrais dessa obra são relativas à moral fundamental (primeira seção da segunda parte) e à moral especial (segunda seção da segunda parte). Na primeira seção, São Tomás recomeça metodologicamente o seu raciocínio. Partindo da consideração do fim último do homem, ele mostra como para o homem, criatura racional, “é necessário chegar à bem-aventurança por alguns atos”, então, estuda “os atos humanos, afim de que saibamos com que atos se chega à bem-aventurança ou quais impedem o caminho para ela”. Daí parte para a consideração dos princípios destes atos, “primeiro, os princípios intrínsecos; segundo, os princípios extrínsecos. Os princípios intrínsecos são a potência e o hábito”, sendo que os hábitos bons são as virtudes e os maus são os vícios, que lhe são opostos; em seguida, considera “os princípios exteriores dos atos. O princípio exterior que inclina exteriormente ao mal é o diabo. Já o princípio exterior que move exteriormente ao bem é Deus, que nos instrui pela lei e ajuda pela graça”. Aí está toda a arquitetura da primeira seção da segunda parte. A segunda seção tratará de cada uma das virtudes e dos vícios. Em outras palavras, São Tomás não explica a Teologia Moral através da consideração teórica das leis morais, ele vai à raiz das nossas próprias potências operativas e as enxerga a partir da razão prática, extraindo delas a sua própria orientação racional para o seu bem equivalente, que são as virtudes. Por isso, a prudência é a “reta razão no agir” e não na consideração teórica, pois, para isso, existe a razão especulativa. Às vezes, vejo alguém especulando sobre a moralidade de uma ação de modo tão teórico que me parece quase irrealizável na prática. A ação só pode ser considerada desse modo a posteriori, fotograficamente, com quem analisa a cena de um filme, a não ser que o agente seja um moralista muito bem treinado. De fato, isso vai muito bem para os confessores, mas não vai bem para praticar ao longo da vida. Ensiná-lo desse modo a calouros não é ajudá-los, mas apenas aumentar a sua insegurança e perplexidade. Do mesmo modo, treinar as pessoas para raciocinarem a partir das leis, abstratamente, não é formar a sua prudência, mas, de certo modo, impedi-la. Por isso, essas pessoas ficam perplexas e desesperadas, porque não estão aprendendo a ser virtuosas, mas apenas a cumprirem preceitos abstratamente apreendidos. Por isso, a exposição de São Tomás é à partir das virtudes, porque, diante desse objetivo, fica muito mais claro o fim prático da conduta humana. Quando se raciocina abstratamente a partir da lei, a mente fica como que em suspense, carente de entender o fundamento racional dessa lei. Por exemplo, quando se raciocina a partir do dever de “honrar os pais” e daí se extraem as obrigações concretas decorrentes, o intelecto se pergunta implicitamente o porquê de “honrar os pais”, buscando o verdadeiro princípio racional que está por trás desse mandamento. A resposta para essa pergunta só pode ser entendida a partir da “razão de virtude” que lhe dá suporte: nós temos para com os nossos pais deveres de justiça que são impagáveis e, por isso, devemos-lhes certa veneração; ora, a formulação positiva desta é o mandamento de honrá-los, a lei. Notem que São Tomás extrai a lei das virtudes, e não o contrário. Em outras palavras, na medida em que o homem aprende a praticar o bem percebe que este é verdadeiramente bom, ou seja, que é racional, que é lógico, que é lei. O homem virtuoso não é aquele que simplesmente pratica o bem porque é lícito e evita o mal porque é ilícito, ele realmente é prudente, ele sabe que o bem é bom e o ama. Quando descreve as partes que integram a prudência (cf. I-II, q. 49), que são como os elementos a partir dos quais ela está construída, São Tomás mostra como ela requer um verdadeiro exercício prático-intelectual: é necessário desenvolver a memória (1) de experiências morais muito bem vividas, sobre as quais a inteligência (2) se aplica para apreender sua lógica profunda, de modo que pela docilidade (3) a pessoa se vá ajustando à realidade e aprenda a ter sagacidade (4), isto é, certa perspicácia moral, e raciocine (5) concretamente sobre suas ações, exercendo previsão (6) sobre as suas consequências, circunspecção (7) para analisar a sua conveniência moral relativamente às circunstâncias e cautela (8) quanto aos possíveis males eventualmente decorrentes de sua ação. Os pseudo-escrupulosos, ao contrário, não querem pôr a sua cabeça para funcionar, querem um “manual do escoteiro mirim”, querem um gurú que esteja sempre à sua disposição, querem todas as respostas prontas em um livro. O melhor dos mundos para eles seria um aplicativo em que simplesmente perguntariam e obteriam a resposta, sem perceberem que, assim, estariam apenas atrofiando a sua capacidade de ser prudentes. Os escrupulosos verdadeiros são pessoas incapazes de prudência, e o reconhecem com humildade e docilmente, esses pseudo-escrupulosos, ao contrário, são preguiçosos, inconvenientes, infantis e arrogantes. Aconselho aos irmãos no sacerdócio que não alimentem nada disso: não atendam a telefonemas intermináveis e não respondam a mensagens inoportunas, não ouçam áudios insuportavelmente gigantes e não leiam mensagens desproporcionalmente longas, atendam no dia marcado, com tempo determinado e não sejam complacentes com este tipo de pessoa. Tratem-nos com firmeza, pois é isso que precisam. No atendimento, não deem a resposta que eles facilmente querem, respondam com outras perguntas, façam-nos pensar, mesmo que seja no tranco, e eles começarão a desenvolver a prudência. Caso contrário, não formaremos adultos virtuosos, mas pessoas psicologicamente frágeis, que não conseguem ter desenvoltura moral, mas apenas aquela honestidade formal, de quem cumpre uma regra e que não sabe responder a uma simples pergunta: “por que você está fazendo isso”?
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