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Como é ser obesa na França

Gabrielle Deydier
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O relato de discriminação de Gabrielle Deydier é chocante e merece ser levado a sério

Para muitos, a França é o lar da Torre Eiffel, da paixão e das mulheres lindas. Até certo ponto isso é verdade; não há nada mais romântico do que caminhar ao longo das margens do rio Sena, olhando para o monumento mais visitado, ou a esplêndida Catedral Gótica de Notre-Dame. E sim, é fácil discernir da multidão as elegantes mulheres parisienses nativas; elas são aquelas que são capazes de caminhar impressionantemente rápido nos saltos. Então, não fiquei realmente surpresa quando um relatório mostrou que as mulheres francesas têm o menor IMC (Índice de Massa Corporal) médio na Europa –  23.2 –, mas, mais interessante, elas também tiveram a maior proporção de mulheres com baixo peso.

Parece que, para ser linda, você tem que ser magra sob qualquer circunstância – como dizem; as roupas ficam muito melhores quando os quadris e o busto não se avolumam. E eu vi isso. Tendo vivido na França por 15 anos, assisti a colegas desmaiarem no trabalho por não ter tomado café da manhã (e, às vezes, almoçado) em uma tentativa de usar o jeans da sua filha de 16 anos.

Eu vi amigas em jantares apenas mordiscando o vegetal estranho e relutantemente recusando as deliciosas sobremesas que estavam sendo servidas. As mulheres francesas se dão padrões incrivelmente elevados para viver e, como resultado, se você não alcançar esses padrões, você é frequentemente objeto de desprezo.

Este foi o caso de Gabrielle Deydier, de 39 anos, uma mulher francesa mais pesada que a média, cuja experiência a conduziu para a depressão. Em seu recente livro, On ne naît pas grosse (Você Não Nasceu Gorda), escrito em francês, Deydier dá um relato chocante do que é não estar de acordo com as expectativas francesas.

Ela fala da entrevista bem-sucedida que teve para um cargo como professora assistente em uma escola para crianças com necessidades especiais. Embora ela tenha conseguido o emprego, o bullying que sofreu deixará você chocado e com vontade de abraçar Deydier e todos os seus 149 quilos.

Voltando a 2015, quando uma satisfeita Deydier completou a entrevista, ela mal notou o aviso que o diretor lhe deu quando saiu da sala: “A professora com a qual você estará trabalhando pode ser bastante difícil”.

Ao conhecer esta professora difícil, Deydier foi confrontada com “Eu não trabalho com pessoas gordas”. (Nesta fase, você teria razão em incentivar Deydier a responder com um “Bem, eu não trabalho com pessoas excepcionalmente rudes” e sair). Deydier encolheu os ombros. A professora passou a apresentar Deydier às seis crianças com autismo na classe como: “A sétima pessoa com deficiência na sala”.

O bullying continuou. A professora reclamou do excesso de transpiração de Deydier, então, quando ela falou sobre isso com o diretor, ele respondeu: “Se ela tiver um problema com você, então eu também tenho”, explicando a Deydier, “era injusto para as crianças porque elas estavam agora sendo duplamente estigmatizadas – por suas deficiências e porque seriam intimidadas por ter uma professora gorda”. Ela foi convidada a considerar sua posição e teve 30 dias para mostrar que ela estava motivada: “Motivada a perder peso. Para mostrar que você está comprometida com este trabalho”.

Você deve estar gritando para Deydier processar a escola por discriminação. No entanto, embora seja ilegal na França discriminar alguém em razão de sua aparência física, poucas pessoas adotam ações legais. Você teria razão em perguntar o porquê, mas em um país onde muitas pessoas no poder são abertamente opinativas e, com muita honestidade, rudes, Deydier sentiu que não acreditariam nela.

Quando ela acusou um colega masculino de agressão sexual, ele negou dizendo que ele tinha uma esposa muito melhor, então “Por que eu tentaria violar uma mulher gorda?”. A polícia, a quem Deydier descreveu como sendo mais compreensiva, disse: “Você tem o direito de fazer uma queixa, mas nós não aconselhamos que o faça porque um tribunal não ficará do seu lado”.

E outros profissionais não são tímidos em falar. Deydier explica como em uma ida ao ginecologista ouviu: “Há muita gordura aqui, não consigo ver”. Além da grosseria… apenas uma completa falta de compaixão. E essa atitude é abundante na profissão médica. Muitas amigas minhas não comem o suficiente durante suas gravidezes com medo de serem insultadas pelos seus médicos por terem aumentado muito o peso – e essas mulheres são magras! A pressão é imensa.

Assim, não foi nenhuma surpresa quando, no ano passado, Deydier compartilhou como sua “depressão era séria. Eu não conversava com minha família há um ano. Eu estava mesmo preocupada que eu seria uma desabrigada. Eu engordei 29 quilos. Eu estava em declínio e assustada. Pensei em me matar ou sair para algum lugar distante, mas não sabia para onde ir”.

É difícil imaginar o medo que ela deve ter sentido. Anos de abuso psicológico, sendo marginalizada, pelo fato de estar com excesso de peso. Felizmente para Deydier, um amigo forçou-a a participar de um evento de assinatura de livros. Ela arranjou coragem para conversar com escritores sobre um projeto investigativo: “Você sabe o que é grossofobia?” (Gros – no francês significa “gordo”). Eles responderam não e pediram que ela descrevesse todas as suas experiências. Quando ela o fez, eles disseram a ela para colocá-las no papel e enviá-las por e-mail para eles. Felizmente, com suficiente coragem ela foi para casa e escreveu tudo.

Quinze dias depois, ela assinou um acordo para escrever um livro. Como Deydier diz em lágrimas: “Isso salvou minha vida”. Ela agora é muito procurada, aparecendo em programas de televisão de prestígio, com uma novela e um filme, e notavelmente foi convidada por Anne Hidalgo, conselheira do prefeito parisiense, para organizar o primeiro dia de “anit-grossophobia” da capital. Embora seja trágico que Deydier tenha tido de enfrentar tal discriminação e mágoa, ela conseguiu usar sua experiência para falar sobre o que é viver na França e ser gordo.

“Eu decidi escrever o livro”, diz Deydier, “porque eu não quero mais me desculpar por existir. Sim, a obesidade dobrou nos últimos 10 anos, isso é muito. Mas isso não significa que devemos discriminar os obesos e dizer-lhes que eles não podem trabalhar e insultá-los”.

Enquanto Deydier nos lembra que todas as formas e tamanhos devem ser respeitados, ela também tocou muitos leitores. Ela recebeu uma carta de um homem que escreveu, não muito eloquentemente: “Seu livro me fez perceber que sou um desastre total. Durante cinco anos trabalhei com jovens. Se eles estivessem com excesso de peso, eu os humilhava”. Deydier disse que ele pediu pelo seu perdão, “como se eu fosse sacerdote em um confessionário”. Mas, como ela diz, esse não é seu trabalho.

Outra mulher escreveu a ela ressaltando as pressões que muitas mulheres sentem na França: “Uma mulher me disse que sofreu de bulimia por 20 anos porque estava com medo de perder seu marido e trabalho se ela engordasse”.

A experiência de Deydier ensinou os franceses, e o resto de nós com sorte de ouvir sua história, que a beleza chega certamente de nossas ações. Uma mulher que só tentou ajudar aqueles com necessidades especiais foi deixada humilhada e intimidada, e nas profundezas do desespero. Para Gabrielle Deydier, agradeço por ter a coragem de compartilhar sua dor para que outros possam aprender.