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O catolicismo natural de Michel de Montaigne

Nikola Krestonosich - publicado em 30/09/18

O grande ensaísta francês parece ter pensado que, como um homem vivo não tem que dar motivos para sua respiração, ele não precisava explicar suas crenças

O catolicismo geralmente é, e por boas razões, associado a um desejo de unidade doutrinária. No entanto, podemos aceitar a unidade doutrinária da Igreja Católica e ainda reconhecer a personalidade, a individualidade, o estilo de cada crente.

Um olhar atento sobre sua história revela transições graduais, nuances, expressões entre os católicos e, especialmente, entre os filósofos que também são católicos. Embora da mesma fé, há um mundo de diferença entre o catolicismo de Santo Tomás de Aquino e o de Descartes, pelo menos como suas crenças são representadas em suas obras filosóficas. Como na arte, parece haver estilos – diferentes ênfases, “carismas”, digamos – na forma como as pessoas se aproximam de sua fé.

Talvez um dos estilos mais impressionantes do catolicismo seja o de Michel de Montaigne. Muitos pensam nele como um cético, e há boas razões para pensar nele como tal; ele sempre desconfiava das reivindicações dos filósofos, teólogos e homens de ciência sempre que pretendiam falar sobre a extensão do nosso conhecimento.

Montaigne enfatizava constantemente a ignorância e a incerteza como uma das marcas fundamentais da condição humana. Mas, além de suas opiniões sobre o conhecimento humano e a extensão da nossa ignorância, ele também pode ser considerado mais do que um católico devoto.

Como sua filosofia, seu catolicismo era bastante único e peculiar. Não há nenhuma vertente de proselitismo em nenhum dos seus ensaios. Ele sempre fala do catolicismo como a única religião verdadeira, mas nunca tenta provar isso, nunca dá argumentos a favor dessa conclusão e nunca tenta converter um não crente. Nas guerras de religião que estavam ocorrendo na França enquanto ele estava escrevendo seus ensaios, ele sempre tomou o lado do rei contra os protestantes, mas, às vezes, ele não parece realmente convencido das virtudes de seu grupo.

Se nos forçássemos a definir o catolicismo de Montaigne com uma palavra, teríamos que usar a palavra “naturalidade”: ele é o mais natural dos católicos, que experimentou o seu catolicismo da maneira mais natural. Ele sentia que era natural como respirar ou se mover. Ele parece ter pensado que, como um homem vivo não tem que dar motivos para sua respiração, ele, nascido em um país católico e sujeito a um rei católico, não teve que dar nenhum motivo para sua fé religiosa e, de qualquer maneira, ele não amarrou sua fé a “provas” sólidas ou a “argumentos” convincentes. Se houver razões para duvidar da nossa capacidade de conhecimento e nosso próprio julgamento sobre a maioria dos assuntos, então, Montaigne considerava que não poderíamos sustentar nossa fé por tão fraco fundamento como os motivos que nosso intelecto aprova.

Mas essa vertente conservadora que pode ser vista em todos os escritos de Montaigne não deve nos enganar. Pode ser verdade que o lugar de origem de uma pessoa, em última análise, é responsável por sua religião, mas não pela qualidade de sua fé. Estando ciente dos erros, falhas e vícios de seus compatriotas, bem como de seus companheiros católicos, ele nos deixou o que pode ser considerado uma das melhores linhas que descrevem o tipo de fé religiosa que todos devemos tentar:

“Se nos ligássemos a Deus por intermédio de uma fé viva, se nos ligássemos a Deus por ele, e não por nós, se tivéssemos uma base e um fundamento divinos, as vicissitudes humanas não teriam o poder de nos abalar, como o fazem: nossa fortaleza não estaria predisposta a se render a um ataque tão fraco. O amor à novidade, a coerção dos príncipes, os sucessos de um partido, a mudança temerária e fortuita de nossas opiniões, nenhuma dessas coisas teria a força de sacudir e alterar nossa crença. Nem a deixaríamos tremer ao primeiro argumento, nem à persuasão, nem diante de toda a retórica que jamais existiu: suportaríamos essas tormentas com uma firmeza inflexível e impassível: Como um grande rochedo repele as torrentes que o atingem, e com sua massa dispersa as ondas que rugem ao seu redor (versos anônimos, imitados da Eneida, de Virgílio, em louvor a Ronsard). Se o raio da divindade nos tocasse um pouco, isso se manifestaria por toda parte: não somente nossas palavras, mas nossos próprios atos, portariam sua luz e seu brilho. Tudo o que viesse de nós seria iluminado por essa nobre claridade… Se tivéssemos uma só gota de fé, removeríamos as montanhas, diz a Santa Bíblia. Nossas ações, se fossem guiadas e acompanhadas pela divindade, não seriam simplesmente humanas, elas teriam qualquer coisa de miraculosa, assim como nossa própria crença”. (Os Ensaios – Livro II – capítulo XII – “Apologia de Raimond Sebond”).

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FilosofiaIgreja CatólicaReligião
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