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“Juju”: o vínculo surpreendente e assustador entre magia negra e tráfico humano

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Máfias da exploração sexual manipulam o terror ligado a ritos religiosos ancestrais para dominar escravas africanas

São crescentes as notícias sobre mulheres nigerianas que foram subjugadas pelas máfias da exploração sexual e do tráfico de pessoas mediante o recurso ao terror provocado nelas por ritos de magia negra relacionados com o assim chamado “juju“.

Esse termo não se refere a um ritual específico, mas sim, de modo geral, a um conjunto tradicional de crenças animistas presentes na África Ocidental, em particular na Nigéria, e relacionadas com a magia negra. A palavra “juju”, em certo sentido, evoca um conceito semelhante ao de “tabu” nas sociedades polinésias: tem a ver com o que é sobrenatural, assustador, poderoso e que não deve ser desafiado. É uma dimensão obscura do sobrenatural. Envolve seres malignos e vingativos com os quais seria possível fazer determinados pactos, selados durante rituais que incluem oferendas e sacrifícios de animais.

Ficará mais fácil começar a entender este conceito difuso com o exemplo que relataremos a seguir.

Em algumas regiões da Nigéria, mulheres jovens, muitas vezes ainda adolescentes, são recrutadas em seus povoados com falsas promessas de trabalho na Europa ou na Ásia. Pressionadas por suas famílias, que vislumbram nessas promessas a ilusória oportunidade de sair da pobreza, as jovens são induzidas a aceitar tais propostas – às vezes, no fundo, sabendo que o “trabalho” envolverá a venda do próprio corpo, mas, na maioria dos casos, sem suspeitar do inferno que realmente as espera.

Aceitar essas ofertas de “trabalho” implica aceitar também uma dívida altíssima, a ser paga em dólares ou euros: as máfias recrutadoras explicam que, do salário que vierem a receber, as jovens terão que destinar uma parte a saldar os seus custos com passagem, visto, hospedagem, alimentação. O que elas não sabem é que os valores da dívida serão inflados de modo impagável, amarrando-as a uma escravidão sem perspectivas de libertação. As dívidas, arbitrariamente determinadas pelos exploradores, frequentemente ultrapassam os 100 mil dólares.

Mas não é a soma estratosférica em dinheiro o que subjuga com mais eficácia as escravas nigerianas do terceiro milênio: é a aterrorizante “dívida espiritual” que, sob pressão, elas acreditam que também estão assumindo ao aceitarem a “oferta de trabalho”.

É aqui que entra o “juju“.

Para comprovar o seu comprometimento em pagar a dívida, as jovens são submetidas a rituais de magia negra. Nessas cerimônias, são colhidas amostras de suas unhas, cabelos e até pelos púbicos. Tudo é misturado com o sangue de animais oferecidos em sacrifício durante o mesmo rito e levado em oferenda a obscuras divindades como um pacto irrevogável. Esse pacto é simples: as mulheres se comprometem a saldar completamente a dívida em dinheiro; do contrário, assumirão consequências espirituais aterrorizantes.

O ritual funciona, portanto, como uma espécie de “caução“, uma garantia “espiritual” de que essas jovens de baixa educação formal, profundamente crédulas em tradições tribais imemoriais, pagarão a dívida assumida com os seus “recrutadores” para não sofrerem a pavorosa maldição que recairia sobre elas próprias e sobre as suas famílias se rompessem o pacto. Apavoradas, elas se tornam reféns de corpo e de mente: longe de casa, transferidas quase sempre clandestinamente a países como Itália, Espanha, Turquia, vigiadas implacavelmente o tempo todo, elas são forçadas pela impossibilidade de pagar o impagável a se prostituírem diariamente, até dezenas de vezes por dia, durante anos e anos a fio, em condições de absoluta e abominável desumanização e terror psicológico.

Importante: quando se fala em “exploradores”, não se está falando apenas em vilões do sexo masculino. De acordo com o Escritório contra Drogas e Crime (Unodc), departamento da ONU, quase a metade dos traficantes humanos da Nigéria são mulheres. Conhecidas como “madames”, elas são, na maioria dos casos, ex-vítimas que se tornaram uma combinação de cafetinas, recrutadoras e sequestradoras: para tentarem escapar elas próprias da prostituição, passam a enganar outras mulheres e, por conseguinte, eternizam o ciclo de escravização humana sem que a consciência as consiga impedir.

O “juju”

Os rituais de “juju” se contextualizam na complexa teia de crenças animistas que permeia as culturas tribais da África Ocidental.

O animismo não é uma religião hierárquica e dogmaticamente organizada, mas uma visão de mundo em que, grosso modo, não há uma clara separação entre o material e o espiritual: praticamente tudo pode ser “habitado” por espíritos, inclusive plantas, rochas, rios, trovões, o vento, as sombras. Essa visão de mundo engloba um conjunto amplo e polifacético de mitos cosmológicos e ritos mágicos que, no geral, não se voltam prioritariamente ao louvor de divindades ou à busca da salvação da alma, e sim à obtenção de soluções imediatas para problemas do dia-a-dia. Embora o animismo em si mesmo não seja uma religião institucionalizada, foram surgindo dele, ao longo do tempo, inúmeras manifestações religiosas mais definidas, que, trazidas com o tráfico de escravos entre África e América, estão hoje arraigadas em várias partes do Novo Mundo: é o caso, por exemplo, do vodu haitiano, da “santería” cubana e das religiões afro-brasileiras, que, pelo processo de sincretismo religioso, foram também incorporando diversos aspectos do cristianismo.

A influência dessa ancestral visão de mundo também perdura na África Ocidental em paralelo com as grandes religiões monoteístas. De fato, na Nigéria, o Estado de procedência de quase 90% das escravas sexuais traficadas para a Europa é majoritariamente cristão: Edo, com cerca de 3 milhões de habitantes. Apesar de nominalmente cristã, grande parte da população local mantém vivos muitos elementos culturais caracteristicamente animistas.

Um deles é o sombrio conceito de “juju“.

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