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Demagogos digitais: a democracia está em jogo?

JoeBakal/Shutterstock

Jaime Septién - publicado em 16/11/18

As ideologias extremas encontraram na internet e nas redes sociais o ambiente ideal de proliferação

No livro “A Política”, Aristóteles analisa a democracia e explica o perigo que ela representa quando se transforma em demagogia, quando “o povo é soberano, e não a lei”. O que pouca gente percebe é que o filósofo grego fala com palavras proféticas aos cidadãos do mundo atual.

A segunda metade do século XX – especialmente depois da queda do Muro de Berlim – parecia ser o pano de fundo para a democracia e o Estado de direito. Os regimes totalitários – e demagogos – que provocaram o inferno da Segunda Guerra Mundial e o posterior fracasso do marxismo-leninismo eram os argumentos perfeitos para postular a democracia como forma de governo pela qual todos deveriam lutar. Era o “fim da história”, como havia postulado Francis Fukuyama em seu livro. Só que não.

O retorno da demagogia

Como consequência da Grande Recessão e o enfraquecimento das instituições, o mundo voltou a cair nas garras da demagogia. Passamos de um mundo com diversas formas de democracia a um mundo com diversas formas de demagogia. As classificações clássicas de esquerda e direita foram dinamitadas e surgiram novas realidades políticas amorfas, onde cabe tudo e onde está claro que o povo é usado – em sua forma mais primária – para se estar acima da lei.

O presidente da França, Emmanuel Macron, é um dos poucos líderes mundiais que seguem advogando pelo multilateralismo como mecanismo de paz e desenvolvimento. Em suas recentes visitas aos lugares que foram cenários da Primeira Guerra, ele lançou uma grave advertência: “A Europa atual parece perigosamente a Europa do período entreguerras, da ascensão do nazismo”.

Para o presidente francês, “a Europa está dividida por medos e pelo viés nacionalista (…), vemos como metodicamente se articula tudo que pautou a vida da Europa entre o fim da Primeira Guerra e a crise de 1929”, disse em uma entrevista. “É preciso termos isso presente, sermos lúcidos e sabermos como resistir a isso”, concluiu Macron.

Redes socias: núcleos das ideologias extremas

As ideologias extremas encontraram na internet e nas redes sociais o ambiente propício para se proliferar. Se no mundo analógico fazer comentários racistas e violentos é mal visto, no mundo digital esses tipos de comentários são cada vez mais incentivados.

Surgiram, inclusive, redes sociais que se nutrem dessas publicações. É o caso de Gab, uma rede social que, sob o pretexto de promover a liberdade de expressão, abriga uma comunidade de extrema direita que promove o ódio, a pureza da raça e o nacionalismo extremo. Robert Bowers, o assassino de 11 judeus em Pittsburgh, pertencia ao Gab.

E este não é um caso isolado. Cesar Sayoc, o responsável pelos pacotes-bomba a Obama, Dylann Roof, o autor do massacre na igreja de Charleston, na Carolina do Sul e Alek Minassian, o assassino que usou uma caminhonete para atropelar 10 pessoas em Toronto, encontraram respaldo na internet e nas redes sociais para cometerem os crimes. Todos eles se injetaram de ódio, interagindo em um espaço digital que não existe no mundo offline.

A internet deu forma ao movimento que levou Trump à presidência dos Estados Unidos, Le Pen, na França, Salvini na Itália. Tem também o Brexit… Todos estes movimentos e líderes demagogos encontraram na internet o aliado mais eficaz para se colocarem acima da lei.

Ouvir Aristóteles

Em uma época marcada pelo excesso de informação, o ruído das redes sociais e a carência de referências, voltar às origens pode fazer bem para a mente.

Em 1939 ninguém lembrou da advertência de Aristóteles e um dos episódios mais tristes da humanidade se desencadeou. Racismo, xenofobia, nacionalismo, isolamento. Esses foram os argumentos que alimentaram os regimes totalitários. E esses são os argumentos que nutrem os movimentos anti-sistema da atualidade.

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