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Religião

O socorro da Igreja Católica às vítimas da 1ª Guerra Mundial

Reprodução/O catequista

O Catequista - publicado em 22/11/18

Esta é mais uma daquelas histórias que você não aprende na escola

Munidos com as armas da caridade e da diplomacia, o Papa Bento XV e o núncio Eugenio Pacelli foram verdadeiros heróis de guerra. Essa é mais uma daquelas histórias que você não aprende na escola…

Durante a Primeira Guerra Mundial, cerca de 600 mil soldados italianos foram levados para a Alemanha e para a Áustria, sendo confinados em campos de concentração. O governo italiano abandonou esses infelizes guerreiros, conforme afirma a professora Giovanna Procacci (emérita do departamento de estudos políticos da Università degli Studi di Milano):

Queremos apenas enfatizar como a atitude assumida pela Itália em relação aos presos distinguiu-se de todos os demais países beligerantes: ninguém de fato abandonou seus combatentes capturados pelo inimigo, condenando muitos à morte, como o nosso país.

Os prisioneiros sofriam muito com o frio e a fome. As rações diárias incluíam um pouco de café, sopas com um pouco de repolho ou folhas de nabo, uma quantidade pequena de pão ou batatas. Esta dieta fornecia uma quantidade de calorias muito inferior ao que seria seria necessário para sobreviver em locais frios. Por isso muitos morreram devido à tuberculose e outras doenças.

Diante dessa situação dramática, a Santa Sé intensificou seus esforços para compensar a omissão do governo italiano na assistência aos prisioneiros de guerra. Em 1917, o Núncio Apostólico (embaixador) na Baviera era Eugenio Pacelli, futuro papa Pio XII.

A mando de Bento XV, Pacelli foi encarregado de levar ajuda material e espiritual aos campos de concentração. As visitas aos presos tiveram início em outubro de 1917, no campo de Puchheim, onde foram alojados mais de 600 prisioneiros franceses e mais de mil russos.

Pacelli discursou para os prisioneiros em francês, e logo em seguida distribuiu a eles os kits individuais de assistência. Cada kit vinha acompanhado de um cartão impresso com a tiara papal e a inscrição “O Santo Padre oferece, com sua bênção”. Continha 200 g. de chocolate, 1 pacote de biscoitos, 6 pacotes de cigarros americanos, 125 g. de sabão, 100 g. de chá e 200 g. de açúcar.

Grande foi a tristeza de Pacelli ao ver muitos prisioneiros magros, pálidos e atordoados. Alguns já estavam presos há mais de três anos. Todos beijaram respeitosamente o anel do núncio, até mesmo os cismáticos ortodoxos russos.

Poucos dias depois, Pacelli visitou o campo de Ingolstadt. Lá havia cerca de dois mil e quinhentos militares detidos, entre franceses, russos, ingleses, belgas, romenos e italianos. Bem diferente da situação precária do campo de Puchheim, os prisioneiros em Ingolstadt desfrutavam de um tratamento melhor, e até mesmo praticavam esportes, como tênis e futebol.

Em uma carta ao secretário Pietro Gasparri, em 1918, Pacelli diz que os casacos e meias de lã foram “recebidos com alegria e gratidão indescritíveis” pelos prisioneiros, mas ele lamenta ter ajudado com esses presentes a apenas um pequeno número de necessitados:

Ainda mais desoladora era a condição dos prisioneiros italianos no campo de Minden: no domingo 22 visitei o campo de Minden, onde havia naquela época cerca de quinhentos soldados (…). Eles estavam reunidos em uma barraca, onde eu falei com eles e distribuí as roupas de lã para os mais necessitados. Foi grande minha dificuldade na escolha de quem deveria ganhar as roupas. Exceto por uma rara exceção, todo mundo era infeliz, esfarrapado, sem camisa, sem meias, sem sapatos, com simples tamancos de madeira. Um espetáculo sombrio e muito mais triste, porque nesse mesmo campo se viam os prisioneiros franceses e ingleses bem vestidos e alimentados! Muitos desses pobres soldados (como me contaram) são enviados para trabalhar na frente, onde, além de estarem expostos aos perigos da batalha, ficam ainda mais danificados em sua saúde. No entanto, apesar de tanta miséria e sofrimento, eles se mostram calmos, diria que, superados pela fraqueza física, não têm mais forças para reagir, perecer e morrer quase inconscientemente!

Além de não socorrer os prisioneiros, o governo italiano atrapalhou quem queria ajudar. O governo temia que campanhas de arrecadação de donativos seriam péssima propaganda, e incentivariam deserções. Assim, impediu a promoção de ajuda organizada aos prisioneiros, e não impedia que os pacotes de ajuda enviados pelas famílias dos prisioneiros fossem desviados.

O resultado dessa política foi desastroso: ao final da guerra, dos 600 mil prisioneiros, cerca de 100 mil não retornaram, tendo morrido, em sua maioria, de tuberculose e de fome.

Enquanto isso, a ação de ajuda humanitária da Igreja Católica foi muito além da distribuição dos kits de assistência. Entre as iniciativas de Bento XV na Primeira Guerra, podemos listar:

  • conseguiu que vários indivíduos de ambos os lados da guerra fossem poupados da pena de morte;
  • muitos corpos de combatentes foram repatriados a seu pedido;
  • a negociação com as partes em conflito para a troca de prisioneiros feridos (dezenas de milhares de prisioneiros foram trocados);
  • em 15 de janeiro de 1915, a apresentação da proposta de troca de civis das zonas ocupadas, resultando em 20 mil pessoas sendo enviadas para o desocupado sul da França em um mês;
  • em 1915, a obtenção da promessa de ambas as partes de não deixar prisioneiros de guerra trabalharem aos domingos e feriados;
  • em 1916, o fechamento de um acordo entre os dois lados, pelo qual 29 mil prisioneiros com doenças pulmonares resultantes dos ataques de gás puderam ser enviados para a Suíça (zona neutra);
  • em 1918, a bem-sucedida negociação que possibilitou que prisioneiros de ambos os lados – com pelo menos 18 meses de cativeiro – fossem enviados para a Suíça.
  • a fundação da Opera dei Prigionieri para viabilizar a distribuição de informações sobre prisioneiros. Cerca de 50 mil cartas foram enviadas das famílias para parentes que eram prisioneiros de guerra.

Sobretudo, a maior preocupação de Bento XV era o sofrimento das crianças. Em 1916, ele apelou ao povo dos Estados Unidos para ajudá-lo a alimentar as crianças famintas na Bélgica, que estava ocupada pelos alemães.

Quanto a Eugenio Pacelli, infelizmente, aquela guerra horrenda não seria a última vivida por ele. Poucos anos após ser eleito como o Papa Pio XII, teria início a Segunda Guerra Mundial. Pio XII salvou a vida de milhares de judeus, mas após a sua morte sua trajetória sofreu um processo sistemático de difamação por parte da KGB. Contamos essa história em nosso livro “As Grandes Mentiras sobre a Igreja Católica”.

Leitura recomendada:

Massimiliano Valente. La nunziatura di Eugenio Pacelli a Monaco di Baviera e la “diplomazia dell’assistenza” nella “Grande guerra” (1917–1918)

Conrad Gröber. Handbuch der Religiösen Gegenwartsfragen

John F. Pollard. The Unknown Pope.

(via Catequista)

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